Entrevista Hypeness

Audino Vilão: universitário traz conceitos filosóficos para linguagem da periferia

por: Bárbara Martins

A compreensão de textos de representantes da Filosofia clássica como PlatãoNietzsche, Aristóteles, Sócrates e René Descartes parece mais fácil depois de assistir às videoaulas de Audino Vilão, pseudônimo de Marcelo Marques, no YouTube. O universitário paulista de 18 anos cursa Licenciatura em História e produz vídeos em que traduz conceitos filosóficos complexos em linguagem coloquial, com gírias típicas das periferias do estado de São Paulo, mas ainda assim capazes de comunicar de maneira didática para públicos de realidades similares em todo o Brasil.

Apaixonado por História desde a infância, Marcelo começou a se interessar pela área por conta da curiosidade despertada por dinossauros de brinquedo que ganhou ainda criança, quando morava nos fundos da casa da avó na Vila Monte Alegre, em Paulínia, cidade onde cresceu e ainda mora atualmente.

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Estudante da rede pública de educação durante toda a vida até o Ensino Médio, Marcelo teve a primeira inspiração para lecionar ainda no Ensino Fundamental, quando um professor o fez olhar com carinho para a profissão. “Eu comecei a olhar pra ele e pensar: mano, e se fosse eu ali?”, conta o estudante em entrevista ao Hypeness, por videochamada.

Com milhares de visualizações no próprio canal do YouTube — em especial, nos vídeos viralizados “Nietzsche: o famoso roba brisa” (com mais de 130 mil views) e “Traduzindo Karl Marx para gírias paulistas” (com mais de 135 mil) —, Audino não imaginava o tamanho da repercussão que sua didática de ensino causaria.

O Pokémon que não para de evoluir

Como um menino nascido nos anos 2000 sob a influência e carinho por animes e mangás, o verdadeiro interesse de Marcelo pelo hábito da leitura começou por meio de histórias japonesas. “Eu sempre fui bem ‘otakão'”, brinca o estudante, que regularmente cita referências ao anime “Naruto” em alguns de seus vídeos. “Ler livro, eu comecei mais no Ensino Médio. Eu sempre li muito mangá. Eu lia uns 80 capítulos num dia só”, diz.

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A escolha do nome Audino foi influenciada por outro anime bastante popular no Brasil: “Pokémon“. A união da figura meiga do bichinho foi uma subversão relacionada ao jeito marrento de Marcelo em games online, em que o jovem interagia com outros jogadores. “A minha intenção de pegar o Audino foi transformar um bagulho fofo, bonito, num negócio zoado”, explica. Mas e o “Vilão“?

Marcelo Marques é o Audino Vilão na internet, uma sátira com a imagem Pokémon fofo

Nós é a tropa dos vilão que sequestra o conhecimento. O conhecimento elitista que fica só no campo da elite acadêmica. Nós dá uma de Robin Hood, sequestra o bagulho e distribui pra todo mundo, igualmente, da melhor forma possível. Os cara enxerga nós de vilão. A sátira é os cara, os playboy, enxerga a favela como os vilões. Então, nós é o vilão do conhecimento. Nós sequestra o dos cara pra distribuir pra nós, tá ligado? Pra nós repartir entre nós.”

A didática que daria orgulho a Paulo Freire

“Eu sempre fui muito de ajudar o pessoal na escola”, conta Audino, que acabou dando uma aula bem-sucedida a pedido de um professor de Sociologia ainda no primeiro ano do Ensino Médio.

“[A boa didática] é você entender o aluno. É você entender que o aluno tem uma necessidade mais do que só de conhecimento. Ele tem uma necessidade de atenção; ele tem uma necessidade de valorização; ele tem uma necessidade de interação. Então, não adianta você ficar só no quadro, só nos livros, até mesmo só nos debates. Você tem que valorizar a cultura daquele aluno, você tem que valorizar o dialeto dele, você tem que valorizar o conhecimento que ele tem da vida. Você tem que valorizar ele como pessoa. Não como apenas uma pessoa que tá ali pra aprender com você.”

“Como Paulo Freire falava: quando você tem uma docência horizontal, onde o aluno e o docente estão no mesmo patamar, dá certo, porque o aluno vai se sentir valorizado”, completa Marcelo, que já recebeu inúmeros elogios de professores de diferentes estados brasileiros.

Quebra do estereótipo por meio do conhecimento

“Já vi professores desvalorizando alunos porque usam juliet [óculos espelhados], Mizuno [marca de tênis], Oakley [marca de roupa]. Porque os aluno fala que nem favelado, porque os aluno mora em bairro de periferia. E esses professores, muitas vezes, nunca tiveram uma vivência da favela pra saber como é que é e julgam os alunos, julgam o estereótipo”, conta Marcelo sobre preconceitos vividos por pessoas que apenas vivem e vestem a própria cultura.

Foto postada por Audino no Instagram com a legenda: ‘Quem diria’

Para Audino, também é necessário quebrar o preconceito com o conhecimento em si e com a própria escola. “Eu acho que esse paradigma de “ah, Filosofia é chato”, “ah, História dá sono”, “ah, Sociologia, pra que eu vou usar isso na minha vida? Essa frase ‘pra que eu vou usar isso na minha vida?’ tem que ser deletada. Porque você vai usar na sua vida, você vai usar nas suas decisões, você vai entender o porquê você tá passando, já passou e vai passar por certas coisas”, explica.

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A cultura já te passa que a escola é um bagulho chato, massante, pé no saco. E tem que ser quebrado isso, porque a época de escola é a melhor época da sua vida, cara. Porque você tem amigos, você tem uma interação social. Tem que parar de ver escola como se fosse só sala de aula. A escola é um ambiente de socialização. Você tem que ver aquilo como um ambiente social, como uma troca de experiência contínua. A escola não é um bagulho chato, a escola é um bagulho chato porque pregam que é um bagulho chato. Mas se você quebrar esse paradigma, a escola é um lugar maravilhoso. A escola é um lugar de muitas experiências, de muitos extremos, tá ligado?”

O que esperar dos próximos passos do Vilão

Marcelo tem seguido a linha de abordar pensamentos dos filósofos que mais caem nos principais vestibulares em seu canal do YouTube e também planeja publicar resumos escritos de cada vídeo em seu perfil no Medium.

Para Audino, que está no quinto período da faculdade de História, a parte mais gratificante de produzir os conteúdos é quando eles, de fato, chegam e tocam as quebradas. “Um maluco da Zona Leste de São Paulo falou pra mim: ‘Mano, nem tinha conhecimento dessas fita. Assisti seu vídeo e passei pros meus parça aqui, e seu vídeo tá rodando a Zona Leste’. Aí eu falei: ‘Caralho, bagulho chegou onde eu queria. Chegou certinho onde eu queria’. Pra mim, isso é missão cumprida.”

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Fotos: Reprodução


Bárbara Martins
Criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é jornalista, fotógrafa e videomaker. Envolvida pela cultura, história e arte de subúrbios e periferias, dedicou pouco mais de dois anos à cobertura de pautas relacionadas à música como redatora do site Reverb, antigo parceiro do Rock in Rio. Em formação pela UFRJ, também tem experiência com produção de conteúdo para redes sociais, assessoria de imprensa e gravação de sessions e entrevistas.

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