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Carlos Decotelli: os erros do quase ministro negro que não podia errar

por: Kauê Vieira

O currículo de Carlos Decotelli, que sequer assumiu como ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro, é a coisa mais debatida dentro e fora das redes sociais nesta semana. Desde que o reitor da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, Franco Bartolacci, se manifestou dizendo que o oficial da Marinha não havia recebido o título de doutor por ter tido o projeto reprovado, uma enxurrada de desmentidos tomou conta do já conturbado universo político do Brasil. 

– Miguel e João Pedro: a morte pelo racismo que você, branco, finge não ver

Teve ainda parecer da Fundação Getulio Vargas (FGV) negando que Carlos Decotelli tenha sido professor em uma das escolas da instituição. Em seu currículo acadêmico, o escolhido por Bolsonaro para o comando do MEC se descreveu como professor colaborador, entre 2001 e 2018, na FGV. A Fundação informou que ele atuou como professor colaborador “apenas nos cursos de educação continuada, nos programas de formação de executivos”. 

O caso, porém, ganhou outros contornos na tarde de quarta-feira (1), quando Decotelli, em conversa com a revista Época, apresentou certificados atestando sua participação como professor da FGV. Decotelli criticou a postura da Fundação Getulio Vargas. “O fake da FGV destruiu minha carreira no MEC”, protestou.

Ainda sobre a situação na FGV, a coluna Painel da Folha de São Paulo ouviu Elizabeth Guedes, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), que classificou como ‘covarde’ a postura da entidade.

“A FGV foi covarde. Ele coordena MBA e é professor lá, sim. Era um professor que chegava e resolvia. Capacidade de comunicação incrível. Sempre rindo, miuto efetivo, conhece o que ensina”, protestou.

Carlos Decotelli foi desmentido também por uma universidade da Alemanha, que negou que o quase ministro tenha cursado o pós-doutorado no país europeu. O impasse, além de descrever o desencontro de um governo que não deu jeito para a o Ministério da Educação em quase 18 meses, é mais um exemplo do racismo brasileiro. Duvida? 

Carlos Decotelli ao lado de Jair Bolsonaro

Contrapondo FGV, Carlos Decotelli apresentou ceritficado de professor

O fato de Carlos Decotelli mentir no seu currículo acadêmico é grave. Gravíssimo. Os mais atentos, no entanto, devem saber que a cobertura da imprensa do Brasil para este episódio é bem diferente de outros casos de ministros de Estado que, assim como Decotelli, mentiram no currículo. Talvez a diferença esteja na cor de pele…

– Weintraub deixa o MEC com menosprezo ao ensino público, diversidade e erro no Enem

Carla Akotirene, mestra e doutoranda em Estudos Feministas pela Universidade Federal da Bahia fez uma reflexão fundamental para entender além da superfície de um assunto que tem tudo a ver com relações étnico-raciais no Brasil. 

A autora de ‘Interseccionalidade’ , parte da coleção ‘Feminismos Plurais’ de Djamila Ribeiro, lembrou o processo de invisibilização de pessoas negras dentro da academia e como isso contribui para o apagamento da presença africana ancestral e no presente desses alunos e alunas. Carla assinalou que embora respeite a propriedade intelectual, “a academia induz aos plágios ou deméritos”. E completou: 

“Sem falar nos sistemáticos apagamentos lingüísticos, filosóficos e espirituais, devido a Ciência possuir a fonte de regra à la pós doutorado na Alemanha. A academia empobrece nossos valores Bantus e éticas Yorubas pois o potencial para revoluções culturais é cooptado pela meritocracia, linguagem culta e hegemônica dos parâmetros ABNT”

Todos os ministros brancos do presidente 

Todos os ministros brancos do presidente

O plágio de trabalhos e teses acadêmicas entre figuras de grande expressão não é novidade alguma no Brasil. Uma simples busca na internet é o suficiente para a exposição de alguns nomes que, curiosamente, são ignorados pela chamada imprensa hegemônica. 

Ricardo Salles: 

Comandante de um dos maiores processos de destruição do verde amazônico do Brasil, o ministro do Meio Ambiente nunca estudou na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Conforme publicou o The Intercept, Salles faltou com a verdade ao dizer que obteve título de mestre em direito público pela prestigiada universidade norte-americana. 

Jair Bolsonaro e Ricardo Salles

Segundo reportagem do UOL, a informação foi veiculada inicialmente no programa ‘Roda Viva’, da TV Cultura. E a produção disse que os dados foram obtidos por meio de um perfil do ministro publicado no Nexo, que disse ter se baseado em um currículo do ministro publicado pelo jornal Folha de São Paulo. 

Salles, por sua vez, se limitou a dizer que o erro foi cometido por sua assessoria de imprensa. Diferente Carlos Decotelli, para a ele a vida seguiu. Como ministro, claro. 

Damares Alves: 

 A controversa ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, se apresentou inúmeras vezes como advogada formada e mestre em educação e direito constitucional e direito da família. Acontece que nada disso é verdade. Não sou eu quem está dizendo, a própria Damares Alves disse à Folha de São Paulo que se formou em nada disso. 

Damares Alves

Fazendo uso do privilégio branco de poder fazer o que bem entender, Damares ainda meio que debochou dizendo que “nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico”.  

Ricardo Vélez Rodríguez:

Visto como um dos piores ministros à frente do Ministério da Educação de todos os tempos (talvez atrás apenas de Weintraub) Ricardo Vélez, segundo análise do Nexo, tinha, pasmem, 22 ‘erros’ no currículo.  Entre os chamados equívocos, Vélez apresentou livros atribuídos ao seu nome. O problema é que ele não os escreveu. O currículo lattes teve ainda obras que não se enquadravam como artigos científicos. 

Ricardo Vélez Rodríguez

Ricardo Vélez Rodríguez saiu, mas não pelos, digamos, detalhes controversos no currículo. 

Abraham Weintraub:

Eis o nome mais polêmico do governo Bolsonaro e um exemplo de privilégio branco. Em todos os sentidos Abraham Weintraub, que proferiu ofensas racistas contra os chineses, ameaçou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de prisão e os chamou de vagabundos’, também também não foi totalmente sincero com o currículo. 

Abraham Weintraub chamou os ministros do STF de ‘vagabundos’

Considerado o pior ministro da Educação que o Brasil já teve, Abraham, que se voltou contra políticas de diversidade, acusou universidades públicas de utilizarem laboratórios para a produção de drogas e participou de protestos que pediam o fechamento do Congresso e do STF, foi anunciado por Jair Bolsonaro como doutor. O problema é que o economista nunca conseguiu o título. Ficou por isso mesmo…

No Brasil, preto não pode errar

Para bom entendedor, meia palavra basta. Pois é. Todos os ministros de Estado acima foram sim citados pela imprensa, mas não passaram nem perto da exposição de Carlos Decotelli. Além disso, os que saíram de seus cargos, pediram o boné por outros motivos, não pela falta de transparência. 

Com Carlos foi diferente. Teve e continua tendo seus erros expostos e está absolutamente desmoralizado diante da sociedade brasileira. Ele errou? Certamente que sim. Onde já se viu mentir no currículo e assumir uma pasta tão vital quanto a da educação? O problema, para quem ainda não entendeu, é que negro no Brasil não tem direito ao erro. Errou, está fora. 

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Querido Mestre Carlos Decotelli, Queria te abraçar forte. Porque sei que toda promoção pessoal negra tem repercussão na autoestima da família, comunidade e DNA ancestral. Seu corpo antigo na tez preta, dificilmente nega a carreira intelectual consolidada bem depois de Abrahan Weitraub, Damares Alves e Ricardo Salles. Especialmente os últimos, são ministros brancos respeitados por mentirem sobre Lattes que nunca vão morder ninguém, em virtude da falta de créditos. Desde a colonizacão essa gente trapaceia e comunga com os setores progressistas a moralidade de viver, pensar e se proteger como brankkos. Nunca precisaram de liberdades sexagenárias de nível superior. Se o Senhor fosse realmente da direita, terias capitais simbólicos, políticos e econômicos para se manter na Argentina, não retornaria para cá por falta de condição financeira… Professor, tu acreditas que já participei de várias bancas de especialização as quais havia plágio? Contra minha vontade, quase todas decidiram primar pela cerimônia de humilhação solene diante das famílias ali presentes. Por quê? A academia é responsável pela colonialidade do saber, revestida em poder ou não conquistarmos credenciais. Foi graças a reconfiguração demográfica implantada durante a era Lula que muitas gentes acessaram o ensino superior. Respeito a propriedade intelectual, porém, sei também, como a academia induz aos plágios ou deméritos, sem falar nos sistemáticos apagamentos lingüísticos, filosóficos e espirituais, devido a Ciência possuir a fonte de regra à la pós doutorado na Alemanha. A academia empobrece nossos valores Bantus e éticas Yorubas pois o potencial para revoluções culturais é cooptado pela meritocracia, linguagem culta e hegemônica dos parâmetros ABNT. Na conjunção subordinativa, nada de adjetivos para o preto teórico pronto a criar divisões de poder entre o conhecimento dos livros e a inteligência da boa leitura de mundo. Pouco importa se o Senhor falou “menas verdade.” A academia tem objetivos gerais em prol da miséria e desonra daqueles malquistos. Nossos ancestrais exigem excelência no atabaque, entendem bem e dançam as letras mandadas nas cantigas. Saúdo vosmicê!!

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Voltemos ao post da mestra, escritora e intelectual Carla Akotirene que diz, “pouco importa se o Senhor falou ‘menas verdade.’ A academia tem objetivos gerais em prol da miséria e desonra daqueles malquistos. Nossos ancestrais exigem excelência no atabaque, entendem bem e dançam as letras mandadas nas cantigas. Saúdo vosmicê!!

E e ela segue: “A academia é responsável pela colonialidade do saber, revestida em poder ou não conquistarmos credenciais”.

Mais uma vez, não só apenas eu quem está falando ou defendendo este ponto de vista. Outro intelectual, o rapper Mano Brown, líder do Racionais MC’s, descreveu o que é ser preto no Brasil com perfeição na introdução da música ‘A Vida é Desafio’.  

“Tem que acreditar. Desde cedo a mãe da gente fala assim: filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. Aí, passado alguns anos eu pensei. Como fazer duas vezes melhor se você está pelo menos 100 vezes atrasado? Pela escravidão, pelo preconceito, pela história, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo que aconteceu? Ser duas vezes melhor como? Você é o melhor ou é o pior de uma vez. Sempre foi assim. Se você não vai escolher o que estiver mais perto de você ou o que estiver dentro da sua realidade, você vai ser duas vezes melhor como? Quem inventou isso aí? Quem foi o pilantra que inventou isso aí? Acorda pra vida, rapaz”. 

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Fotos: foto 1: Divulgação/PR da República/foto 2: Reprodução/Revista Época/foto 3: EBC/foto 4: Getty Images/foto 5: Getty Images/foto 6: EBC/foto 7: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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