Ciência

Como um astrônomo usou seres humanos nus para se comunicar com extraterrestres

por: Yuri Ferreira

E se uma de nossas sondas enviadas ao espaço sideral fossem encontradas por extraterrestres? Como eles poderiam entender de onde veio aquele objeto e quem foi responsável pela sua construção? Foi nisso que Carl Sagan e Frank Drake pensaram ao desenvolver a ‘Placa Pioneer’, um dos maiores marcos da exploração espacial durante o período da Guerra Fria. Com informações da BBC Brasil.

Depois do lançamento da missão Apollo que fez o ser humano pisar na Lua em 1969, a NASA estava pensando em dar um passo maior na corrida espacial. A sonda ‘Pioneer 10’ foi planejada e seria enviada em direção a Júpiter.  Seus objetivos eram explorar o meio interplanetário para além da órbita de Marte, investigar a cintura de asteroides e verificar os perigos que esta representa para as sondas nas missões para além da órbita de Marte, e explorar o sistema de Júpiter. Após ultrapassar Júpiter, a Pioneer 10 seguiria seu rumo para além do planeta e rumo ao infinito.

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As informações da placa de ouro da Voyage devem ser reconhecidas por civilizações intergaláticas

Sagan acreditava que seria importante colocar algum tipo de informação de origem sobre os seres que desenvolveram a sonda no equipamento. Por isso, as ‘Placas Pioneer’ foram desenvolvidas: sem utilização de linguagem humana, elas demonstram a localização do sistema solar no meio do Universo com um código de aproximação binária. Além disso, eles inseriram a imagem de dois seres humanos, um de cada sexo biológico, para representar os seres que o emitiram. As placas seriam de ouro para que não fossem danificadas ao longo do trajeto.

A NASA não gostou muito da ideia, especialmente porque a primeira ideia não parecia realmente factível (desenvolver uma linguagem simples e de fato universal para os extraterrestres). Quando Sagan e Drake finalmente conseguiram estabelecer a posição do sol através dos pulsares, a artista Linda Salzman Sagan desenhou dois seres humanos. A mão estendida do homem quer dizer boa vontade – e também informa dez dedos e um polegar opositor. A altura da mulher está descrita em comparação com o tamanho da nave (formas geométricas atrás dos humanos).

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“Queria que cada figura tivesse traços raciais diferentes. A mulher tem olhos muito amendoados e cabelos lisos. Fiz o homem com cabelos encaracolados e nariz achatado, para que eles fossem multiculturais. Como ia vesti-los? Em trajes tribais? Em roupas de alta costura? Não, decidimos deixá-los nus”, contou a artista à BBC.

A sociedade puritana da época ficou assustada com a imagem do homem nu. Linda ainda havia ocultado a genitália da mulher por considerar que o público e a NASA não iriam reagir bem a uma vagina rodando o espaço (sem problemas para o pênis, aparentemente).

“Lembro-me de ter sido convidado para um programa nacional de televisão pela manhã no Canadá e, quando terminei de descrever a placa, olhei em volta e todos ficaram horrorizados. Perguntei e eles responderam: ‘Vamos ser todos demitidos.’ É a primeira vez que um humano nu é exibido na televisão canadense e isso é proibido!”, completou.

Tem mais, um diagrama da posição dos planetas no nosso sistema foi incluído na parte inferior do mapa para facilitar a localização quando chegarem os visitantes. A imagem de um átomo de hidrogênio também foi adicionada à placa porque se acreditou que as civilizações teriam domínio do elemento mais presente no universo.

Hoje, a Pioneer 10 já está bem distante do Sol, mas longe de sair do Sistema Solar (vai demorar uns 50 mil anos para chegar à Nuvem de Oort, ponto final de influência gravitacional e eletromagnética do Sol). A Pioneer 11, lançada posteriormente, também contém a mesma placa, mas segue para outra direção do espaço.

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Fotos: Wikimedia Commons


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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