Reportagem Hypeness

Coronavírus: pesquisador da Fiocruz detalha processo de desenvolvimento de vacina e alerta sobre negacionismo

por: Kauê Vieira

A pandemia do novo coronavírus precisa ser analisada em camadas. Como se fosse uma obra em construção. A epidemia viral que transformou as relações humanas e expôs a falta de liderança e egoísmo que alimentam desigualdades sociais e ceifam milhares de vidas todos os dias, vai deixar sequelas profundas em todos nós. 

Ansiedade, medo, estafa mental, cansaço, tristeza, euforia e otimismo. Estes são apenas alguns dos sentimentos que se confundem e fazem um verdadeiro nó na cabeça de todas as pessoas que, de certa forma, vivem a expectativa para a resposta de uma pergunta que tem de tudo, menos simplicidade: afinal, quando teremos uma vacina? 

Antes, vamos aos números. Desde meados de março, a covid-19 vitimou ao menos 90 mil pessoas no Brasil que até a noite de 29 de julho contabilizava oficialmente 2.555.518 diagnósticos positivos da doença. Embora sejam graves, os números ganham ainda mais força em um cenário de ampla subnotificação. Com mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil é um dos países que menos testa pessoas no mundo. 

A inércia de um governo federal que não só lutou contra o isolamento social, mas minimiza os efeitos da maior crise sanitária da história recente da humanidade, é uma das culpadas para a falta de direção. O maior país da América do Sul faz uma média de 13,7 testes para cada mil habitantes, segundo matéria do UOL. O portal faz uma comparação com o vizinho Chile, que com número de óbitos duas vezes menor, testou quatro vezes mais. Os dados são da Universidade de Oxford, que não consegue atualizar o cenário caótico do Brasil com precisão pela falta de transparência da gestão de Jair Bolsonaro

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Além dos já citados efeitos psicológicos, a sensação de carro desgovernado faz com que as pessoas vivam apenas com a esperança de uma vacina. Como se um passe de mágica fosse capaz de resolver todos os problemas e fazer com que a vida volte ao sonhado normal. Não é bem assim. 

O Hypeness ouviu profissionais de saúde e gigantes do mercado farmacêutico para tentar traduzir a complexidade de um processo que tem de tudo, menos a agilidade e suposta simplicidade vendida aos quatro ventos por políticos.  Pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o cientista brasileiro Rodrigo Stabeli dá mais detalhes sobre a criação de uma vacina segura, que segundo ele demoraria até 10 anos em um cenário de normalidade. 

Para que se faça uma vacina que seja eficaz e segura, ela precisa passar por alguns passos científicos muito importantes. Geralmente estes passos demoram quase 10 anos porque levam em consideração o estudo da própria biologia – o antígeno, aquele bicho que você quer fazer a vacina. Seja ele um agente patogênico viral ou bacteriano, você precisa conhecer a história dele, o relacionamento dele com o corpo humano e com o sistema imunológico de quem se quer vacinar, porque existem vacinas tanto para humanos, quanto para animais

Como estamos? 

O Brasil se tornou um dos protagonistas na corrida para o desenvolvimento de uma vacina. O país tem até o momento 4 frentes trabalhando na criação de um antídoto contra o coronavírus. São ensaios clínicos realizados por Oxford/AstraZeneca (Reino Unido, fase 3), Sinovac Biotech (China, fase 3) e um esforço coletivo entre Pfizer/BioNTech (EUA/Alemanha, fase 2). O quarto elemento é a farmacêutica chinesa Sinopharm, que fechou parceria com o governo do Paraná e aguarda sinal verde da Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes. 

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Rodrigo Stabeli, que leciona medicina na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e é membro da Academia Brasileira de Ciências, explica o que acontece em cada estágio do processo. 

Fase 1: 

“Em seres humanos, temos a fase chamada de pré-clínica que realiza estudos in-vitro. O processo se inicia com testes em células isoladas, depois em animais, inclusive podendo chegar aos macacos para, depois, entrar num estudo chamado de fase clínica. 

Este estudo possui três etapas: a primeira testa e aplica a vacina em até 200 pessoas absolutamente saudáveis. O estágio é importante para saber se a vacina possui segurança para ser administrada em humanos. Ou seja, se ela é tóxica ou não”. 

Fase 2: 

“Na fase 2, são feitos testes entre 200 e 1 mil pessoas. A segurança segue sendo o principal, além de saber se o sistema imunológico é acordado. Ou seja, se o complexo que você está aplicando como vacina pode estimular a produção de moléculas protetoras”. 

Fase 3: 

“Depois vem a fase 3, que é aplicada em até 30 mil pessoas e busca saber se a vacina produz segurança, antigenicidade e proteção. É aí que você aplica em doentes e não doentes. Assim como na fase 2. Mais um processo para saber se a vacina é eficaz. Uma vacina tem que passar por essas três fases para poder garantir segurança, eficácia e o funcionamento prolongado”.

Fase 4: 

A fase 4 é quando o produto já está no mercado e milhares de pessoas são vacinadas. Esta fase é chamada de farmacovigilância, pois são vistos quais são, de fato, os efeitos adversos mais comuns desta vacina e por quantos anos ela é capaz de garantir a proteção. 

O pesquisador titular da Fiocruz alerta que “é importante que a gente respeite estas fases” mesmo em um cenário de urgência provocado por uma pandemia. “São elas que nos garantem a segurança e eficácia, fazendo com que a gente não tome um remédio ou vacina que seja insegura e cause mal ao ser humano”, completa. 

A busca pela vacina esbarra no capitalismo sem freio

As pessoas são cobaias? E o negacionismo? 

A pandemia contribuiu para a valorização da ciência, mostrando como o investimento nesta área é crucial para a existência humana. Antes de irmos ao assunto ‘cobaia’,  é necessário dizer que o Brasil, embora tenha grande tradição e respeito entre os países que encaram a vacina como uma medida sanitária necessária, deixou a ciência de lado. 

Nos últimos 10 anos, o Brasil passou por uma transformação no perfil de pessoas que acessam o ensino superior. Medidas afirmativas de reparação ao racismo e outros tipos de preconceitos foram fundamentais, inclusive, para valorizar os profissionais de trabalham pelos avanços científicos no país. Entre tantos resultados, o aumento em 70% da publicação de artigos científicos. Isso, no entanto, não foi suficiente para frear o desmonte da educação que, claro, atinge a área da ciência, tão vital em tempos como os atuais. 

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A política negacionista mira bolsas de estudos oferecidas pelo Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que teve redução de 30% na oferta. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), também sofreu. Corte, pasmem, de 80%. O panorama até outubro de 2019, como mostra o G1: Brasil perdeu 17.892 bolsas de estudos por causa da falta de investimentos na área. 

Rodrigo enxerga o negacionismo como um dos responsáveis pelo retorno de doenças já erradicadas como o sarampo. “Existe um movimento muito grande do negacionismo contra a vacina. O Brasil tem o programa nacional de imunização, que faz cerca de 300 milhões de doses ano para 19 doenças diferentes, tratando crianças, jovens e adultos. É um dos maiores programas nacionais de imunização do mundo. Gratuito e oferecido com a segurança devida“.

Ele completa: 

Nós conseguimos erradicar muitas doenças no Brasil, por exemplo a varíola em 1973, tínhamos erradicado o sarampo e por causa desse negacionismo a gente teve a volta do sarampo. Vale lembrar que a Anvisa é tão rígida quanto o FDA (Anvisa dos EUA). São as duas agências mais rígidas em termos de regulação do mundo. Muito mais rígidas do que as regulações que existem na Europa e na própria Ásia. 

O negacionismo contribui para o descontrole da pandemia

Quanto ao conceito de ‘cobaias’, o pesquisador titular da Fiocruz esclarece que este não é um termo usado por profissionais da área. Rodrigo faz questão de enfatizar a humanização das etapas, que segundo ele é um diferencial da pesquisa no Brasil. 

“Veja, genericamente quando a gente é um sujeito da pesquisa, você usa terminologia cobaia. No Brasil, nós temos um sistema único de saúde que além de olhar para as complexidades, para os transplantes, a hemorrede, os bancos de leite, também olha para o caráter humano do atendimento. Toda a pesquisa que é feita dentro da rede brasileira de ciência e tecnologia, a gente não usa essa terminologia para humanos. Cobaias”

O cientista destaca que os termos corretos são senhor, senhora ou sujeito de pesquisa

“Não tem como desenvolver qualquer outro tipo de medicamento ou vacina se você não fizer os testes em humanos. Se você está desenvolvendo uma medicação, uma vacina, principalmente vacina, que diz respeito a ativação do sistema imune humano, precisa testar em seres humanos. Por isso a importância das etapas vacinais. Nós precisamos garantir que as fases aconteçam com segurança para que a pessoa possa receber uma vacina de qualidade”

O presidente Jair Bolsonaro, que testou positivo para a covid-19

A corrida para o sucesso na era do capitalismo  

Os males do capitalismo sem freio estão escancarados na era da precarização da vida. A produção de uma vacina não deixa de fazer parte deste contexto. Isso se dá de diferentes formas, como na postura egoísta dos Estados Unidos, que recentemente foi acusado de adquirir todas as doses de uma vacina contra a covid-19 produzida pela Pfizer. E empresa nega. 

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“O governo americano não comprou todas as doses que serão produzidas em 2020. O acordo estabelecido prevê uma compra inicial de 100 milhões de doses, seguida por uma compra de 500 milhões de unidades, com entregas a serem realizadas ao longo de 2020/2021. A Pfizer estima ter uma produção de 1.3 bilhão de doses entre 2020 e 2021. A companhia está em contato com os governos de todo o mundo, incluindo o Brasil, para disponibilizar sua futura vacina à população”, disse a gigante farmacêutica em nota. 

Rodrigo Stabeli mostra ciência sobre o assunto e a desigualdade que perpassa o debate sobre o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus. O cientista, porém, ressalta o acordo firmado pelo país sul-americano de parceria para a transferência tecnológica das vacinas. 

É óbvio que quando olhamos para a geopolítica mundial, a desigualdade social é patente. Quando a gente vê a pandemia do coronavírus no Brasil, a desigualdade do país é estampada na nossa cara. O fato do Brasil ter firmado o acordo de parceria de transferência tecnológica destas vacinas para solo brasileiro – sendo estas vacinas eficazes e seguras – , garante ao Brasil doses para a sua população. Portanto, dentro deste pacto na transferência de tecnologia, a população brasileira terá prioridade na imunização porque teremos a tecnologia da produção desta vacina

Rodrigo, que também dá aulas na Universidade Federal de São Carlos, aproveita a oportunidade para exaltar o trabalho realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, que segundo ele, “tem sido pautada por mitigar as desigualdades sociais no Brasil”

“Foi justamente o plano de Oswaldo Cruz no ato de sua criação há 120 anos e nós temos trabalhado, por exemplo, na mitigação da desigualdade social  da produção de medicamentos como retrovirais para o tratamento do HIV em Moçambique e na África. Se a Fiocruz tiver a capacidade de produção de doses a mais – fazendo a cobertura vacinal da população brasileira, certamente ela será ofertada para outros países – sejam eles da América do Sul ou qualquer país que precise de ajuda para a imunização neste momento tão importante de crise econômica, social e, principalmente, humanitária causada pela covid-19”

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O Hypeness também ouviu a Jonhson & Johnson para saber se empresa tem algum plano que leve em consideração os abismos sociais que separam países pobres e ricos. A companhia dos Estados Unidos pretende realizar um teste final para a vacina em meados de setembro. 

Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, diz que a empresa está “comprometida em levar ao público uma vacina acessível, sem fins lucrativos, para uso de emergência durante a pandemia”. Ela reforça o trabalho com “autoridades de saúde locais e internacionais, organizações governamentais, reguladores e ONGs para garantir que, se o desenvolvimento for bem-sucedido e os produtos aprovados, alcançaremos acesso amplo e oportuno às nossas soluções de assistência médica”.

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Brasil, protagonista pelos motivos errados 

Brasil, Estados Unidos e Índia são os protagonistas na luta contra o coronavírus. A história pode formar um trevo em nossas cabeças, pois pelo menos Brasil e EUA são destaques negativos no trabalho de contenção da doença. Segundo Rodrigo, atenção dos cientistas se dá por dois fatores além, claro, de administrações desastrosas: incidência da doença e vulnerabilidade. 

“Não é uma questão de geopolítica, mas de incidência da doença. Você precisa testar uma vacina onde existam casos novos.  Temos uma população vulnerável. Veja, se você testar uma vacina na Alemanha ou Espanha – que teve incidência alta da doença – vai se deparar com um cenário de muita gente imunizada e não será possível testar 50 mil pessoas”, ressalta o pesquisador da Fiocruz. 

Rodrigo apresenta ainda outro aspecto: a diversidade genética continental. “Em estudos multicêntricos da fase três, ou seja, na fase 3 você testa muitas pessoas em muitos lugares diferentes e precisa ter essa diversidade genética continental. Por isso a busca por países que tenham diversidade genética e alta incidência da doença. Nós temos uma incidência alta da doença pelo descontrole dado pelo Ministério da Saúde. É uma pandemia que não se pode enxergar o fim da ascensão na população brasileira. Por isso ele [Brasil] é bom modelo para, infelizmente, se testar a vacina”

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Trocando em miúdos, há espaço para otimismo, afinal? O que nos cabe antes de tudo é cautela e cuidado. Lavar as mãos, usar álcool gel e manter o distanciamento sempre que possível. E o mais importante: usar máscaras. Pensar em vacina e numa possível cura é trabalho de especialistas e cientistas como Rodrigo Stabeli, que falando sobre o acordo fechado pelo nosso país, ajuda a encerrar esta matéria com uma boa notícia. 

“Sendo segura e eficaz, esta vacina será transferida tecnologicamente para o Brasil dando garantia de doses para populações vulneráveis e de alto risco no início de 2021. Depois, para a população em geral. Isso é uma grande vantagem porque a ciência e tecnologia no Brasil possuem equipamentos de ponta para a ciência básica, mas ainda falta muito equipamento para a ciência aplicada e de desenvolvimento farmacológico. Portanto, a transferência da tecnologia de 3 vacinas com potencial pode trazer soluções importantes neste ramo para o Brasil”

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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