Debate

Ele acredita que o homem não tem que ajudar em casa ‘porque ele é homem’

por: Karol Gomes

Os argumentos não são dos mais estruturados, mas ele mantém seu posicionamento: com mais de um milhão de seguidores Ítalo Marsili, que se intitula ‘médico psiquiatra’, respondeu perguntas em seu Instagram sobre a ‘psique‘ do homem que colabora com as tarefas de casa. 

Para ele é difícil conceber a ideia. Quando uma seguidora questionou “o que a mulher deve fazer para que o homem assuma mais tarefas domésticas?”, ele respondeu com outra pergunta: “por que diabos um homem deveria assumir as tarefas domésticas?”.

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Se Marsili não responde, os números os fazem: de acordo com a publicação ‘Outras Formas de Trabalho’ 2018 – com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, as mulheres brasileiras ainda trabalham quase o dobro de horas que os homens nos afazeres domésticos e cuidados de familiares. 

Enquanto elas se dedicaram em média 21,3 horas semanais aos afazeres ou cuidados de parentes, os homens só empenharam 10,9 horas nesse tipo de tarefa. A divisão simplesmente não é justa. 

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Pensamentos primitivos como o de Marsili é o que faz esse comportamento se repetir na sociedade. Quando questionado por seguidores sobre o porquê do homem ‘não poder‘ assumir tarefas domésticas, ele respondeu um simplista “porque ele é homem”. Depois, quando o assunto era a divisão de contas na casa, ele afirmou que a natureza dita que o homem é responsável por este quesito e não a mulher. 

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Mais uma vez, ele está errado. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) diz que o percentual de domicílios brasileiros comandados por mulheres saltou de 25% em 1995 para 45% em 2018, principalmente por causa do crescimento da participação feminina no mercado de trabalho.

Na casa de Marsili, segundo ele mesmo, a mulher trabalha lecionando múltiplos idiomas, poema e artes plásticas, mas sem deixar de cuidar da casa, ‘administrar as empregadas‘ e se manter bonita com tênis Gucci, por exemplo.  

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Quem é Ítalo Marsili 

Como se a influência de Marsili nas redes sociais já não fosse perigosa o suficiente, ele tem ganhado ainda mais destaque na mídia por ser um dos cotados para substituir Nelson Teich, no Ministério da Saúde do governo do presidente Jair Bolsonaro

Admirador do escritor Olavo de Carvalho, ele associou, em vídeo veiculado em seu canal do YouTube, o direito de voto das mulheres à crise na democracia e afirmou que basta “seduzir uma mulher para convencê-la a votar”.

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Ele é médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Estas declarações machistas do médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) são de uma transmissão virtual com fundadores do estúdio revisionista Brasil Paralelo, da qual ele foi o entrevistado. Marsili compartilhou o vídeo em 2 de maio nas suas próprias redes.

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Já o crédito de psiquiatra de Marsili está a prova. A Associação Brasileira de Psiquiatria já declarou que ele não integra seu quadro de associados. O registro dessa especialidade também não consta em sua ficha de inscrição no Conselho Federal de Medicina. 

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Fotos: Reprodução / Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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