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J.K Rowling compara transição de gênero com cura gay em novo desserviço contra diversidade

por: Karol Gomes

A autora J.K. Rowling enfureceu novamente não só a comunidade LGBT, mas também os fãs de ‘Harry Potter’ como um todo, ao realizar comentários transfóbicos. Nesta segunda-feira (6), Rowling comparou o tratamento hormonal para pessoas que procuram fazer a transição gênero com tratamentos de terapia de conversão sexual, conhecida como ‘cura gay‘. 

“Estamos assistindo a um novo tipo de terapia de conversão para jovens gays”, escreveu a escritora em seu perfil do Twitter, referindo-se a prescrições hormonais para jovens que questionam sua identidade de gênero como os “novos antidepressivos”.

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Rowling citou artigos e estudos para afirmar a terapia hormonal no processo de transição pode levar a efeitos colaterais sérios, que ela acredita serem “ignorados por ativistas”; ela afirmou que hormônios podem causar problemas com “fertilidade e/ou função sexual completa” e disse que “se o sexo não é real, não há atração pelo mesmo sexo”.

A autora J.K Rowling

Os ativistas que Rowling criticou logo se manifestaram sobre a declaração da autora entre eles, Christine Burns, advogada norte-americana que faz campanha por direitos trans desde os anos 90, que afirmou: “a sugestão de que alguém submeta uma criança a um tratamento de mudança de gênero para evitar que ‘cresça gay ou lésbica’ é uma calúnia para todos os pais que cuidam destas crianças”

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Homofobia e transfobia de J.K Rowling 

Esta não é a primeira vez que Rowling provoca revolta por causa de declarações LGBTfóbicas e parece que a população trans é o que mais a incomoda. No início de junho, a escritora se mostrou ressentida com um artigo de opinião do site de desenvolvimento global Devex, que dizia “criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam”

Em resposta, a autora de ‘Harry Potter’ tuitou: “Pessoas que menstruam’. Tenho certeza que costumava haver uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude? Wumben? Wimpund? Woomud? (modificações propositais da palavra “Woman”, inglês para mulher)”, a declaração conservadora exclui propositalmente outras pessoas que menstruam, como homens trans e pessoas não binárias.

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E não foram só ativistas que se manifestaram contra Rowling: o ator Daniel Radcliffe, que deu vida ao personagem principal da saga criada por J.K nos cinemas, escreveu que “mulheres trans são mulheres” no site do Trevor Project, uma organização sem fins lucrativos dedicada à intervenção de crise e à prevenção de suicídios para pessoas da comunidade LGBT+.

“Qualquer declaração ao contrário apaga a identidade e a dignidade de pessoas transgênero e vai contra todos os conselhos dados por associações profissionais de saúde que têm muito mais experiência no assunto que Jo ou eu”, argumentou Daniel. 

Daniel Radcliffe (Harry Potter), J.K Rowling, Emma Watson (Hermione Granger) e Rupert Grint (Rony Weasley)

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No texto, o ator explica que sua manifestação não é uma disputa ou desavença entre ele e Rowling, apenas uma maneira que ele encontrou de se manifestar em prol de um grupo discriminado. Ele lembra ainda que “78% dos jovens transgênero e não-binários relatam que foram alvo de preconceito por causa de sua identidade de gênero. Está claro que precisamos fazer mais para apoiar as pessoas transgênero e não-binárias, não invalidar suas identidades, e não causar maior dano

Já Emma Watson, atriz que viveu Hermione Granger na franquia Harry Potter nos cinemas e é ativista feminista, usou seu Twitter para afirmar apoio a comunidade LGBT. “Pessoas trans são quem dizem ser e merecem viver suas vidas sem serem constantemente questionadas”, ela escreveu. 

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O protagonista mais recente de J.K Rowling, Eddie Redmayne, que faz Newt Scamander em ‘Animais Fantásticos‘, também criticou os tuítes da escritora em relação a identidade de gênero. 

Eddie Redmayne (Newt Scamander)

“Como alguém que trabalhou tanto com J. K. Rowling quanto com membros da comunidade trans, quero deixar absolutamente claro qual a minha posição”, afirmou o britânico, que foi indicado ao Oscar por seu trabalho no filme “A Garota Dinamarquesa”, em que interpreta a primeira mulher trans a fazer cirurgia de mudança de sexo. Em comunicado enviado à revista Variety, Redmayne disse: “Eu discordo dos comentários de Jo”.

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Os fãs de Harry Potter argumentam online, muitas vezes diretamente no perfil de Rowling, que o mundo de fantasia criado por ela ajudou muitas pessoas a se tornarem tolerantes e aceitarem diversidade. Logo, o posicionamento de Rowling sobre a comunidade LGBT não condiz com a história sobre amor e aceitação que ela mesma criou. 

Rowling não pode contar nem mesmo com o colega de profissão Stephen King. Ela apagou um tuíte em que o elogiava após o autor de ‘O Iluminado’ e ‘A Torre Negra’ responder ao questionamento de um seguidor afirmando que “mulheres trans são mulheres”.

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A interação entre os dois escritores começou quando King retuitou uma postagem de Rowling, em que ela citava uma frase da ativista feminista Andrea Dworkin.

“Andrea Dworkin escreveu: ‘Homens frequentemente reagem às palavras de mulheres — faladas ou escritas — como se fossem atos de violência; às vezes, homens reagem às palavras das mulheres com violência’. Não é odioso que as mulheres falem de suas próprias experiências, e elas não merecem ser vivificadas por fazer isso”, disse Rowling.

Após notar que King havia retuitado, Rowling fez uma nova postagem elogiando o colega, dizendo que sempre admirou suas personagens femininas. “É muito mais fácil para homens ignorarem as preocupações de mulheres, ou diminuí-las, mas eu nunca vou esquecer os homens que se pronunciaram quando não precisavam se pronunciar. Obrigada, Stephen”, dizia ela.

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No entanto, pouco tempo depois, King respondeu a um seguidor que cobrava seu posicionamento sobre a causa trans, explicando que Rowling tinha falas transfóbicas: “Você devia dizer a nós, leitores constantes, se acredita que mulheres trans são mulheres”. O escritor respondeu positivamente. Em seguida, Rowling apagou o tuíte falando bem do amigo. 

Em resposta às críticas, Rowling provocou mais controvérsia ao publicar um artigo em seu site oficial em que vinculava sua experiência com abuso sexual no passado à sua preocupação com o acesso de mulheres trans a espaços exclusivos para mulheres cis. A escritora disse que permitir, por exemplo, o uso do banheiro feminino às pessoas trans é “acobertar predadores”.

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O acesso aos espaços exclusivos para um sexo, como casas de acolhimento de vítimas de violência e banheiros públicos, por exemplo, são pontos de tensão para a comunidade LGBT. Há alegações discriminatórias que apontam que homens poderiam se passar por mulheres trans para obter acesso a esses lugares e cometer violência.

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Fotos: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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