Reportagem Hypeness

Maternidade solo e pandemia: especialistas refletem sobre o retorno às atividades normais

por: Veronica Raner

Com o retorno às aulas cada vez mais próximo, se aproxima também a hora de crianças e alunos em idades escolar saírem de casa. A experiência de aulas online transformou a vida das crianças mas, principalmente, a vida das mães solo, que assumiram a difícil tarefa de cuidar dos filhos sozinhas 24 horas por dia nos sete dias da semana. Em tempos de pandemia, a rede de apoio diminuiu e elas passaram a ver a carreira profissional se entrelaçar à vida doméstica. Algo que já acontecia antes, mas, desta vez, sem respiro, sem espaço e sem tempo. Gerenciar filhos, casa e vida se tornou um malabarismo com mais pinos do que as mãos (e a cabeça) da acrobata mais talentosa conseguiriam carregar. 

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Existe a expectativa social de que mulheres mães sejam verdadeiras guerreiras. Que nunca falhem, que tenham respostas para todas as perguntas e solução para todos os problemas. Essa construção coletiva cai sobre os ombros dessas mulheres como uma capa de ferro, que fica ainda mais pesada em tempos difíceis como os de uma pandemia. 

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É sempre lançado à mãe não o ‘fazer o que é possível’, mas esse olhar de ‘mãe supridora de todas as necessidades’. Então, quando a gente fala de ‘fazer o que é possível’, a gente precisa desconstruir essa ideia de que mãe é aquela que supre tudo, toda e qualquer necessidade material e emocional. Porque a grande realidade é que a gente acaba sendo a melhor mãe (que é) possível”, explica Vivian Alves, psicóloga clínica do Rio de Janeiro. 

Ela ressalta que, muitas vezes, as mães não conseguem admitir que não dão conta de tudo e que precisam de ajuda. Por medo, verbalizar esse tipo de pensamento seria sinal de fracasso, algo que a terapeuta discorda com veemência. “A criança que nunca se frustra, que não encontra uma falha na mãe, se torna uma criança narcisista. A criança precisa que essa mãe tenha falhas para que ela consiga se desenvolver como ser humano”, diz. 

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Não se pode pensar que a experiência da quarentena tenha sido igual para todas as mães solo. A diferenciação por classe existiu e existe. Críticas à parte, houve casas que mantiveram as babás no trabalho. Em lugares com alternativas de entretenimento, como televisão a cabo e internet, manter as crianças ocupadas se tornou uma tarefa menos extenuante. Se adultos ficaram entediados dentro de casa, o que dizer das crianças que não tiveram acesso a esse tipo de distração?

Se você tem um computador para você e outro para a criança, isso já faz uma diferença enorme. Mas se você pegar mães de classes mais baixas, que às vezes não têm um equipamento, já é outra história. A mãe solo que tem que fazer uma encomenda, que talvez trabalhe fazendo bolos e tem que entregar, o corre corre dela é muito maior, então ela tem que se desdobrar para dar atenção”, explica Andreia Dumas, também psicóloga. 

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‘A questão do home office é muito mais difícil para uma mulher que está entre ser mulher, mãe e funcionária’, reflete Dumas.

O home office e as mães solo

Andreia explica que, para aquelas mães que tem a possibilidade de trabalhar de casa, a oportunidade não é tão simples quanto parece a um funcionário sem filhos. A fusão do trabalho que gera a renda com o trabalho não remunerado do cuidar costumam intensificar crises emocionais.

A questão do home office é muito mais difícil para uma mulher que está entre ser mulher, mãe e funcionária. Esse método de trabalho para elas foge dos padrões que a gente observa em outros profissionais adultos”, diz a terapeuta. “Você acaba observando uma oscilação de humor, nada patológico, mas existe a questão de lidar com muitos altos e baixos emocionais ao longo do dia.

A experiência da jornada contínua — que exige atenção sem intervalos entre os trabalhos — provoca ainda mais alterações de humor quando o ambiente profissional e a própria casa estão no mesmo lugar. Ao mesmo tempo em que a mãe se sente feliz por ter tido mais oportunidades de estar com o filho, ela se culpa por não conseguir cumprir com as exigências do trabalho ou até mesmo pela falta de tempo de qualidade com a criança. “É uma situação muito individualizada que foge muito do padrão de um adulto que não tenha criança”, reflete Dumas.   

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Mães solo são sozinhas?

A definição de “mãe solo” não se aplica necessariamente a mulheres que vivem sozinhas com os filhos. O conceito é amplo e diverso, como é a realidade daquelas que estão debaixo desse guarda-chuva. A pesquisadora Ana Liési Thurler, doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e autora de “Em Nome da Mãe — O não-reconhecimento paterno no Brasil”, explica a origem da expressão. 

“As mulheres questionaram a designação mãe solteira. Essa expressão é de grande interesse do patriarcado, que insiste ser o casamento o espaço legítimo para nascimento. Ora, toda maternidade é legítima, todo filho é legítimo. As novas gerações de mulheres recusam firmemente a expressão mãe solteira, por ser preconceituosa e estigmatizada, e adotaram a designação mãe solo”, explica Ana.

Nem toda mãe solo é de fato sozinha. A presença física de um parceiro ou parceira pode existir, mas a atuação no cuidado junto aos filhos é ausente. “Muitas mães são casadas com os pais de seus filhos, mas se tornam mães solo de dois e de três porque aquele companheiro acaba sendo um filho que exige horas de dedicação a mais. Porque aquele companheiro não faz o mínimo dentro da residência”, explica Vivian. 

Entre as mães solo, há ainda aquelas que viram seus parceiros virarem às costas e deixarem elas e as crianças para trás. Segundo Ana, No no Brasil, entre 400 e 500 mil crianças nascidas anualmente, podem ficar sem reconhecimento paterno. O número representa entre 15 e 20% do total. Também existem as que decidiram ser mães sem a presença de uma figura paterna, por meio de adoção ou inseminação artificial. Há ainda aquelas mães que moram com seus parceiros, pais de seus filhos, mas que acabam se tornando mais um alvo do cuidado materno.  

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‘Maternidade é uma função social e todos os setores da sociedade são corresponsáveis pela reprodução social’

Ana Liési Thurler lembra que cuidar das mães é papel do Estado e também de seus patrões. Para ela, empresas deveriam oferecer berçários e até creches para suas funcionárias. “Toda cidadã – mãe ou não – deve ter viabilizado seu direito ao trabalho. Estado e sociedade devem apoiar toda maternidade – especialmente o segmento de mães solo, mais frágeis – sempre detentora de direitos”, diz. 

Durante a retomada de aulas, há estados que adotaram diferentes datas para instituições públicas e privadas. Para Andreia, o mundo modelo seria aquele em que as empresas disponibilizassem espaços para que as mães solo que ainda estão com os filhos em casa pudessem deixar suas crianças enquanto trabalham. “Se grandes companhias pudessem dar esse auxílio para elas, seria muito importante, ainda mais nesse momento de retorno, mapear essas mulheres e criar um espaço dentro da empresa seria o ideal.”

Thurler insiste que o mercado de trabalho não pode se ausentar da questão. Para ela, olhar apenas para lucros de “proprietários e acionistas” é um erro já que, para produzir, “é preciso da força de trabalho de homens e mulheres em bons estados de saúde física e mental”.  

A maternidade é uma função social e todos os setores da sociedade são corresponsáveis pela reprodução social. Estamos passando pela experiência da pandemia com o novo coronavírus, nos ensinando que o suposto e sagrado mercado não dá conta de sobreviver com trabalhadoras e trabalhadores adoecidos. A pandemia nos mostra, com intensidade, quanto o mercado depende das pessoas e quanto o mercado deve respeitar e promover a dignidade em todas as dimensões também da vida das mulheres mães solo, as mães mais vulneráveis”, conclui. 

  

 

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Foto 1: Getty Images / Foto 2: Unsplash


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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