Debate

Modelo noiva de enfermeiro indígena fala sobre apropriação cultural e comentários racistas

por: Yuri Ferreira

A modelo Aline Weber, que já fez trabalhos para dezenas de marcas da alta costura, é noiva de Pigma Amary, um enfermeiro indígena do alto Xingu. A inusitada conexão entre uma top model dos altos circuitos de moda internacional com um trabalhador da saúde indígena tem atraído atenção da mídia e gerado debates sobre apropriação cultural, racismo e sobre a própria natureza do amor.

Em reportagem de Marcos Candido para o Ecoa, do UOL, o casal comentou os temas polêmicos que circundam o relacionamento, que já dura dois anos e se transformou em noivado. Prestes a se casarem, o membro do povo Xingu e a catarinense se conheceram em uma viagem. Ela estava turistando e ele tomava um barco para voltar do trabalho. Ela se aproximou do jovem, um pouco pacato, e logo rolou o encanto.

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Casal se conheceu em 2019 e pretende se casar logo depois da pandemia

Um dos importantes debates que o relacionamento levou é justamente a questão da apropriação cultural no mundo da moda. Notórios casos de exploração de símbolos e artefatos de povos indígenas já aconteceram, como a relação entre Victoria’s Secret e os índios norte-americanos e Carolina Herrera com os povos originários mexicanos. Para Aline, o relacionamento com Pigma foi importante para levantar esses debates.

“Nos últimos dois anos, passei a prestar atenção e a me incomodar [com o uso elementos indígenas]. Penas eu não uso, pois gosto muito de animais. Mesmo que às vezes use couro no trabalho, não sou a favor de usar penas e essas coisas”, afirmou a modelo ao Ecoa.

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O relacionamento gerou debates sobre amor e apropriação cultural

“Esses dias, a gente estava em um mercado e tinha um produto com alguma coisa sobre índios. Até pensei: será que estão pagando alguma coisa [para eles]? É uma responsabilidade”, completou. Pigma fica mais incomodado quando o tom o é satirizante, mas acredita que há casos em que a utilização não é necessariamente ofensiva: “depende”, disse ao UOL.

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Pigma ajudou nos esforços de combate à covid-19 como enfermeiro nas terras do Xingu. Ele perdeu a mãe para a doença. Até a última sexta-feira, 5 indígenas morreram e cerca de 80 foram infectados na Terra Indígena do Xingu, de acordo com a Sesai. A modelo afirma que alguns comentários racistas foram feitos sobre a relação, mas que, no fim das contas, a maioria das pessoas apoia o namoro entre Pigma e Aline.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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