Debate

MP investiga influenciadora que classificou racismo como ‘algo natural’ e ‘instinto de defesa’

por: Yuri Ferreira

A influenciadora Luisa Nunes Brasil está sendo investigada pelo Ministério Público de São Paulo após suas declarações sobre o racismo, consideradas extremamente preconceituosas por parte do movimento negro. Em vídeo comentando as manifestações do Black Lives Matter, Nunes reforçou estereótipos que criminalizam a população negra e reforçam a política de segurança pública que culmina no genocídio do povo preto.

Nunes chegou a afirmar que o racismo era “algo natural, um instinto de defesa” e que sempre existiria “enquanto a maioria dos crimes for causada pela população negra”. Isso tudo apenas 9 dias após o brutal assassinato de George Floyd, em Minneapolis, EUA, que levantou a onda de protestos que persiste até hoje no país.

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Influenciadora digital fez declarações racistas e se defendeu dizendo que estava sendo mal interpretada

Em um momento do vídeo, ela chegou a afirmar que “se você está num parque à noite, escuro, e você vê uma pessoa andando e essa pessoa é negra e ela tem os trejeitos de uma pessoa que parece ser um criminoso você vai ficar com mais medo do que se você visse uma pessoa branca de terno e gravata. Isso é natural do ser humano”, reforçando estereótipos completamente racistas para seu público de mais de 50 mil seguidores.

Após as declarações, advogados e ativistas se uniram para abrir uma representação no Ministério Público contra a influenciadora, que agora está sendo investigada. Ela terá de prestar depoimento e seus dados estão sendo levantados em cartório.

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“Os danos sociais são quando a pessoa provoca algo que atinge a sociedade como um todo ou uma parte relevante. No momento em que essa moça faz essas colocações em relação as pessoas negras, ela está afetando, no mínimo, 50% da população brasileira”, explicou Nauê Bernardo, um dos advogados que assinou a representação contra a influenciadora ao Jornal de Brasília.

“Ela fala que está baseada em dados, mas em momento algum apresenta qualquer pesquisa que dê embasamento a opinião dela, e ainda que ela traga alguma coisa, é errado, pois ela não pode categorizar pessoas negras simplesmente por achar que essas pessoas estão associadas ao crime”, completou.

Confira o vídeo que fez com que a influenciadora fosse processada:

Após o caso, Nunes apagou suas redes sociais, mas logo reativou sua conta para cerca de 58 mil seguidores. Agora, de maneira privada. Em um e-book publicado no início do mês, a influenciadora afirmou que não se arrepende dos comentários, mas que foi mal interpretada:

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“A minha opinião, manifestada naquele dia, não mudou: O nosso pré-julgamento ou preconceito de alguma coisa ou pessoa é algo natural, e isso, é na verdade, exatamente o que os movimentos legítimos contra o racismo buscam explicar e combater. Não é natural no sentido de ser desejável [nem aceitável!] e, muito menos no sentido de já nascermos com ele. [O óbvio também precisa ser dito]. É natural no sentido de acontecer sem intenção. Pensar que o racismo é sempre intencional é infantilidade. Pensar que o racismo deve ser aceito é um absurdo, além de ser um crime. Mas o fato é que ele existe“, registra o livro.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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