Debate

Mulher negra que teve pescoço pisado por PM mostra que lógica racista da polícia só acaba com refundação

por: Karol Gomes

Durante uma confusão por causa de atividade comercial em um bar na zona sul de São Paulo, durante a pandemia do novo cornavírus, um policial militar foi flagrado pisando no pescoço de uma mulher negra para imobilizá-la. Um vídeo gravado por moradores da região foi divulgado pelo ‘Fantástico’ no programa deste domingo (12). 

Tudo começou por causa de uma ocorrência na tarde de sábado, 30 de maio, em Parelheiros, por causa de um cliente cujo veículo estava com som em alto volume. Os policiais alegaram que foram atacados com uma barra de ferro e que estavam se defendendo. A vítima nega. 

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Viúva, com cinco filhos e dois netos, ela tem 51 anos e é negra. A mulher, que preferiu não revelar o nome com medo de represálias, afirma ter pedido ao policial para não bater mais no homem que era seu cliente,  já que, segundo ele, ele estaria desfalecido por causa de agressões com joelhadas no rosto. 

Um segundo policial, que estava armado e abordando outras pessoas, aproximou-se da mulher e a empurrou contra uma grade. A vítima diz ter sido agredida com três socos e derrubada com uma rasteira. Na queda, ela teria fraturado a tíbia, um osso da perna.

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O vídeo não mostra esta parte da cena, mas na sequência, a mulher aparece deitada de bruços, no meio-fio, ao lado de um carro e sendo imobilizada por um policial militar que pisa em seu pescoço. O policial chega a apoiar todo o peso do corpo sobre a vítima. Depois, o PM algema a senhora de 51 anos e a arrasta até a calçada. Sem ser identificada, a comerciante disse à reportagem do programa que, quanto mais ela se contorcia para se soltar, mais sentia que o PM apertava a boca em seu pescoço.

Ela chegou a desmaiar quatro vezes por causa da pressão no pescoço. A comerciante foi atendida num hospital com ferimentos no rosto, nas costas e com a perna quebrada. Depois, foi levada para uma delegacia, onde ficou detida até o dia seguinte.

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O governador João Doria declarou, na noite de domingo (12), por meio de redes sociais, que “os policiais militares que agrediram uma mulher em Parelheiros, na Capital de SP, já foram afastados e responderão a inquérito. As cenas exibidas no Fantástico causam repulsa. Inaceitável a conduta de violência desnecessária de alguns policiais. Não honram a qualidade da PM de SP”.

Racismo e agressividade da polícia 

O caso de Parelheiros é mais um exemplo do comportamento repetidamente racista e agressivo da Polícia Militar que, mesmo em meio à uma pandemia, com a redução do número de pessoas nas ruas, segue repetindo este tipo de comportamento. É o que demonstra o levantamento feito pelo O Globo, junto às secretarias estaduais de Segurança. 

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Durante o período de isolamento social em função do coronavírus, em março e abril, a violência policial atingiu um pico no país: houve 1.198 mortes em decorrência de intervenções policiais no bimestre, 26% superior às 949 contabilizadas no mesmo período do ano passado.

O aumento foi alavancado por abril, que registrou 719 mortes, frente aos 477 óbitos de 2019 — houve crescimento em dez estados, queda em três, e em dois os números ficaram estáveis. O volume expressivo de mortes por ações da polícia em abril fez com que o primeiro quadrimestre do ano superasse o do ano passado — até março, os dados indicavam uma queda em 2020. Já o volume total de crimes violentos letais intencionais (homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte) cresceu 8% em abril frente ao mesmo período de 2019, segundo o ‘Monitor da Violência‘, do G1.

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Episódios recentes de violência em São Paulo levaram o governador João Doria (PSDB) a determinar que os policiais militares passem por novo treinamento. Uma das primeiras promessas por parte do político aconteceu depois de um caso parecido: um outro vídeo que viralizou nas redes sociais mostrou um jovem negro de 19 anos sendo estrangulado duas vezes por um policial militar em Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo. A vítima desmaiou em ambas as vezes e foi colocado desacordado numa viatura da PM. 

Viatura da PM arrastando o corpo de Claudia Ferreira, no RJ

Outro caso que gerou revolta foi o de Guilherme Silva Guedes, de 15 anos, que saiu da casa da avó em uma tarde de domingo (14 de junho) e nunca mais voltou. Após ser sequestrado por dois homens armados e fardados, o jovem foi encontrado morto, na segunda-feira (15), em Diadema, na Grande São Paulo, cidade vizinha ao bairro da Vila Clara, onde morava, na zona sul da cidade. Ele tinha marcas de tiros nas mãos e na cabeça. 

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A perda de Guilherme revoltou a população do bairro. Moradores indignados fecharam a Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira em protestos pedindo justiça. Eles queimaram ônibus e enfrentaram barreiras policiais. A família da vítima acredita em envolvimento da polícia militar. 

No Twitter, o escritor Luiz Antonio Simas fez uma retrospectiva histórica que explica – mas não justifica – o comportamento racista da polícia. Com fatos, o historiador demonstra como as polícias brasileiras seguem uma logísca racista e de mortes em massa que segue assim desde o período da escravidão. O Brasil precisa repensar sua ideia de segurança pública. Não adianta falar em reciclagem de policias, quando o sistema éw viciado e tem o negro como alvo

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Fotos: foto 1: Reprodução/Twitter/foto 2: EBC/foto 3: Reprodução


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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