Debate

Padres negros e o racismo que sustenta a branquitude da Igreja Católica

por: Redação Hypeness

A maioria da população brasileira é negra, mas o fato não se reflete no quadro de padres, bispos e cardeais da igreja católica no país. A situação veio à tona após o padre Gegê Natalino publicar uma carta desabafo em suas redes sociais. Com o título de “Padre preto é enxotado da PUC-RJ como ‘gado leproso’”, ele abriu suas feridas sobre o racismo vivido pessoalmente por ele na igreja católica, em especial, em um episódio relativo à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.  

Há quase uma década eu, padre Doutor Geraldo José Natalino (Pe. Gêge), tendo sido chamado para lecionar na PUC-RJ tive meu nome violenta e covardemente cortado na calada da noite pelo então bispo (branco) auxiliar da arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Paulo César Costa, hoje bispo da diocese de São Carlos (SP). O Caso de George Floyd se repete: um branco estrangula e os outros acobertam com o silêncio cúmplice”, escreveu o padre em suas redes sociais

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Número de padres negros no Brasil corresponde a menos de 3% do total, segundo a Pastoral Afro-Brasileira da CNBB.

Ele afirma que tentou dialogar com o poder diocesano para entender o porquê de não ter sido oficializado como professor no campus da universidade na Gávea, bairro de classe alta na Zona Sul carioca, mas nunca obteve explicação. Naquela época, ele dava aula de pós graduação do campus da PUC em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. 

Ora, por que em Duque de Caxias eu podia dar aula e na PUC da Gávea não? O que a Gávea tem que Caxias não tem? Por que padre preto não pode dar aula na PUC da Gávea? Diz Abdias Nascimento no livro Genocídio do negro brasileiro: ‘As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar.’ E diz ainda: ‘As populações afro-brasileiras são tangidas do chão universitário como gado leproso’. Não é esse, exatamente, o meu caso?

A repercussão dos desabafos de Padre Gegê, advogado histórico da causa racial dentro da igreja, começou depois de Natalino publicar um texto inspirado pelo assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, cujo título era: “George Floyd e o racismo eclesiástico: quando o chicote estala na batina (quando um padre negro não consegue respirar)”.

Segundo estimativas apuradas pelo jornal “Folha de São Paulo” junto à Pastoral Afro-Brasileira da Confederação Nacional de Bispos Brasileiros (CNBB), a realidade racial da população brasileira não se reflete no recorte eclesiástico católico. Apenas 380 dos 14 mil padres do Brasil são pretos. A discrepância também se reflete no número de cardeais — apenas três — e arcebispos: zero.

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O arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta.

As ações institucionais da igreja em reverter esse quadro se mostram parcas. Apesar da realização de palestras e cursos sobre o combate ao racismo, pouco é visto como resultado prático. “Dizer que a igreja católica — aliada histórica do colonialismo escravocrata — é estruturalmente racista é o mesmo que afirmar que o café preto e o leite é branco”, escreve Gegê. Ele ainda ressalta o tipo de atitude tomada pela igreja quando se vê confrontada sobre o tema.  

“Qualquer um, sobretudo um padre preto,  que ousar dizer que a Igreja é racista e, como tal, também produtora de um sem número de sofrimentos e adoecimentos, vai merecer a mesmíssima reação instintiva de negação (“mecanismo de defesa”) que a Igreja, historicamente, endereçou para as vítimas de pedofilia: ‘Cale a boca!’ Embora sejam questões distintas, o mecanismo de defesa da Igreja é o mesmo”, afirmou.  

O padre afirmou, à “Folha”, que, após sua denúncia sobre o fato vivido na década passada, dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, o convidou para uma reunião. Durante o encontro, foi informado que seria integrado ao corpo de professores da PUC-RJ. Porém, poucos dias depois, o padre teve que ser afastado por conta de um diagnóstico de estresse causado pela intensa repercussão de suas denúncias.

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O padre Gegê Natalino, em foto publicada nas redes sociais.

Em entrevista a veículos de comunicação, dom Paulo César Costa, responsável, segundo a denúncia de Gegê, por afastar o padre negro da PUC-RJ, afirmou não haver qualquer registro de reclamação sobre o ocorrido nem na universidade, nem na Justiça. 

O bispo diz que meu nome não consta em nenhum procedimento interno da PUC. Insinua que eu quisesse ‘entrar pela janela’ (por intermédio de um ‘amigo’). Em minhas mãos, no entanto, está a  cópia  da Ata da reunião da Cultura Religiosa (CRE) da PUC que consta o meu nome como aprovado para contratação, razão pela qual a secretaria, à época, me ligou pedindo que providenciasse a carteira de trabalho, o que feliz e inocentemente logo providenciei sem  imaginar a lâmina eugênica que me esperava na curva.

No texto, ele relembrou as palavras de Dom Helder Câmara durante a famosa Missa dos Quilombos, realizada no Recife em 1981: “Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavras, não fique em aplausos. O importante é que a CNBB, a Conferência dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros… Não basta pedir perdão pelos erros de ontem, é preciso acertar o passo hoje sem ligar ao que disserem… Mariama, mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grandes  problemas humanos, com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões… Basta de escravos!

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Foto 1 e 2: Getty Images / Foto 3: Reprodução/Facebook


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