Debate

Por que o embaixador do Brasil boicotou evento que homenageava Marielle Franco na França?

por: Veronica Raner

Telegramas enviados pelo embaixador do Brasil na França, Luis Fernando Serra, ao Itamaraty, no Brasil, mostram que o diplomata, deliberadamente, não foi a um evento que homenagearia Marielle Franco, em Paris. A decisão foi tomada após ele tomar conhecimento de que a prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo, anunciaria que a vereadora daria nome a um jardim da cidade. A informação foi dada pelo colunista Jamil Chade, do UOl.

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Os documentos mostram que no dia 6 de agosto de 2019, o embaixador demonstrou ter ciência de o Congresso da Associação de Brasilianistas na Europa aconteceria em um local cedido pela prefeitura de Paris. Ele relata que a prefeita aproveitaria a ocasião para prestar uma homenagem a Marielle. No evento, estariam cerca de 540 professores e pesquisadores brasileiros residentes no continente. 

Ante o exposto, tomei a iniciativa de cancelar a minha participação no referido evento”, escreveu o embaixador ao governo brasileiro. 

No fim de setembro, quase dois meses após essa troca de mensagens, o embaixador comunicou o Itamaraty sobre a inauguração do espaço, que havia ocorrido no dia 22 daquele mês, informando que a embaixada não havia sido convidada. 

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O ex-ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, o embaixador Luis Serra e o presidente da República, Jair Bolsonaro.

Serra costuma ignorar indagações sobre a morte de Marielle. No começo deste ano, ao receber uma carta da senadora francesa Laurence Cohen, presidente de um grupo de amizade França-Brasil, que questionava sobre o andamento das investigações do assassinato, a resposta do embaixador teve tom semelhante aos de Bolsonaro sobre o tema. 

O diplomata afirmou que era com profunda consternação que percebia que “o assassinato de Celso Daniel e o ataque à vida de Bolsonaro não tiveram o mesmo eco na França que o assassinato de Marielle, que foi até objeto de uma mobilização da Assembleia Nacional”. A carta foi publicada pela própria senadora em suas redes sociais. 

Os documentos escritos por Serra foram divulgados após deputados do Partido Socialista (PSOL) pedirem informações ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sobre a existência de instruções oficiais que teriam sido passadas a diplomatas para caso precisassem falar sobre a morte de Marielle Franco. 

Lembrando que Marielle, Franco, 5ª vereadora mais votada pelo Rio de Janeiro, foi assassinada a tiros em um crime há mais de 2 anos sem solução. A pergunta ecoa, ecoa e não encontra respostas. Afinal, a quem interessava matar Marielle?

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Foto 1: Getty Images / Foto 2: Presidência da República/Agência Brasil / Foto 3: Getty Images


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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