Arte

5 grandes documentários brasileiros para melhor pensarmos nossa realidade

por: Vitor Paiva

Um documentário é capaz de não só registrar a realidade, como também alterar, revelar, redimensionar, denunciar e celebrar aspectos da vida dita real com a força de algo que supera o entretenimento e eleva a arte de filmar à condição especial – como o próprio nome sugere, trata-se enfim de um documento, algo de suma importância para a história do cinema, de um país, de nossa memória e cultura. 

E apesar do pouco interesse oficial que oferecemos enquanto nação à arte de realizar documentários por aqui, o fato é que o Brasil é um dos grandes produtores do gênero no mundo: alguns dos melhores documentários já feitos foram realizados e assinados por cineastas brasileiros.

Cena de “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade

 Grandes temas, entre tragédias e maravilhas da realidade nacional, é o que não faltam por estes lados – e a prova está na obra de artistas que dedicaram a vida a fazerem documentários no Brasil.

Estão na lista dos maiores docs em todos os tempos (e em todo o mundo), por exemplo, obras-primas como ‘Di’, de Glauber Rocha, ‘Garrincha, Alegria do Povo’, de Joaquim Pedro de Andrade, ‘Santiago’ e ‘Entreatos’, ambos de João Moreira Salles, ‘Ilha das Flores’, de Jorge Furtado, ‘Jango’, de Silvio Tendler, ‘Democracia em Vertigem’, de Petra Costa, ‘Que Bom Te Ver Viva’, de Lucia Murat, ‘Janela da Alma’, de João Jardim e Walter Carvalho, e tantos outros – assim como todo e qualquer documentário de Leon Hirszman (com especial destaque para ‘Nelson Cavaquinho’ e ‘ABC da Greve’) e toda a filmografia de Eduardo Coutinho, os dois maiores documentaristas da história do Brasil.

Acima, cena de “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado; abaixo, detalhe de “Nelson Cavaquinho”, de Leon Hirszman

E a lista só começou: talvez seja pela própria complexidade do Brasil enquanto nação que desde sempre e até hoje o país seja um grande produtor de filmes que buscam registrar, debater e ampliar nossa realidade como um meio plural de se conhecer e compreender melhor a nós mesmos.

Assim, selecionamos 5 documentários feitos no Brasil e para o Brasil por brasileiros, como uma pequena parcela de uma forma de se fazer cinema que é também uma forma de se enxergar o país – e de convidar o espectador a repensar e até mesmo alterar essa ‘realidade‘ tão inventada a que chamamos de vida.

A lista foi selecionada em parceria com o Telecine, e a maioria dos documentários escalados para representar o país nesta página está disponível no próprio Telecine – para serem vistos e revistos como se o espectador mirasse um espelho que mostrasse uma de tantas faces do Brasil. 

O documentarista Eduardo Coutinho

1. ‘Cabra Marcado para Morrer’ (Eduardo Coutinho)

 Quando falamos de Eduardo Coutinho estamos tratando de um verdadeiro gênio: possivelmente o maior documentarista brasileiro em todos os tempos. Assim, qualquer um de seus filmes, fosse ‘Edifício Master’, ‘Jogo de Cena’, ‘Peões’, ‘Moscou’, ‘Um Dia Na Vida’, ‘As Canções’ ou mais, poderia constar com justiça em qualquer lista.

Mas ‘Cabra Marcado Pra Morrer’ é possivelmente sua obra mais celebrada, e a engenhosidade da incrível história de João Pedro Teixeira, líder camponês paraibano assassinado em 1962 alçaram o cinema de Coutinho: o golpe militar interrompeu as filmagens, e a obra só pôde ser finalizada 17 anos depois, já em 1984, quando o cineasta retorna ao cenário para reencontrar os personagens passados tantos anos de ditadura e tantas dores para tornar o filme em muito mais do que somente o registro de um personagem.

2. ‘Lixo Extraordinário’ (Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley)

 

Para falar sobre um dos maiores aterros controlados no mundo e, assim, da legião de catadores de lixo e outras famílias que vivem do despejo, o trio de diretores pega carona na obra e nos métodos de trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz.

Passado no aterro do Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, ‘Lixo Extraordinário’ mostra a produção de obras de arte produzidas a partir do material coletado no lixão. Curiosamente o aterro também serviria de cenário para outro grande documentário brasileiro, Estamira, dirigido por Marcos Prado em 2006.

3. ‘O Corpo é Nosso’ (Theresa Jessouroun)

 Dirigido pela carioca Theresa Jessouroun, o documentário ‘O Corpo é Nosso’, de 2019, busca enfrentar um dos grandes dilemas ligados ao racismo, o machismo e a sexualidade feminina de modo geral: a objetificação do corpo da mulher.

Mergulhando em universos como os da música, da dança e da própria sexualidade, o doc mistura relatos e ficção a fim de enfrentar racismos e preconceitos profundos da sociedade em geral. O tema é a liberdade do corpo feminino, e o abismo entre o trato do corpo da mulher negra e da mulher branca, assim como tantos outros abismos a partir do tema.

4. ‘Indianara’ (Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa)

 

Ativista, política, revolucionária, a vida e a luta de Indianara Siqueira são o tema do doc ‘Indianara’, dirigido por Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa, em seu trabalho pela defesa das pessoas transgênero.

Coordenadora da Casa Nem, no Rio de Janeiro, um local de apoio às pessoas transgênero especialmente em situação de risco, o filme se aprofunda no trabalho e na vida de Indianara com enfoque íntimo e contundente, entre a denúncia e o registro, de uma vida de luta pela própria sobrevivência e a vida de outras pessoas trans, passando por temas como disputas partidárias, preconceito, intolerância, violência e o combate frontal aos governos opressores que tornaram Indianara uma referência no movimento.

 4. Aeroporto Central’ (Karim Aïnouz)

 Assinado por Karim Aïnouz, mesmo diretor por trás de filmes como ‘A Vida Invisível’, ‘Madame Satã’ e ‘O Céu de Suely’, o documentário Aeroporto Central’ pousa seu olhar sobre o extinto Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, construído por Hitler para ser o maior do mundo e que, entre 2015 e 2019, seus hangares foram utilizados como abrigo para receber refugiados que buscavam abrigo na Alemanha.

Acompanhando alguns personagens específicos, o doc examina a chegada no país, o cotidiano desses refugiados, a relação com os serviços e a burocracia na recepção alemã, assim como os sentimentos profundos, como saudade, ansiedade, arrependimento e medo que marcam a difícil trajetória dos refugiados não só em Tempelhof, mas em qualquer lugar do mundo.

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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