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Angola apreende templos da Igreja Universal após acusações de fraudes e outros crimes

por: Yuri Ferreira

A Procuradoria Geral da República de Angola decidiu apreender sete templos da Igreja Universal do Reino de Deus no país. Após acusações de fraudes e discriminação contra pastores angolanos por parte dos comandantes brasileiros da organização neopetencostal, a Justiça do país africano tem tomado medidas contra a IURD.

Em junho, um racha que se desenrolava desde 2019 entre pastores angolanos e brasileiros ganhou uma nova fase. Os pastores naturais de Angola tomaram boa parte dos templos da Igreja no país e dezenas de manifestações contra a IURD foram realizadas em diversas cidades.

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Manifestantes protestam contra a Igreja Universal em Angola

Desde julho uma comissão foi aberta pelo parlamento angolano para apurar possíveis crimes cometidos pela IURD na Angola. A facção angolana da instituição acusa os brasileiros de racismo, fraude e crimes financeiros no país.

“Há casos de justiça e com indícios de crimes que têm se ser tratados em fórum próprio e pelas autoridades competentes para que seja dado o tratamento processual exigido por lei. Vamos esperar que os órgãos competentes se pronunciem para que se accionem os trâmites processuais e se respeitem as leis de Angola”, garantiu a Ministra de Estado para Área Social, Carolina Serqueira, no Parlamento. “Se há angolanos que desrespeitaram a lei, também terão de responder perante a Justiça”, reiterou.

A PGR angolana decidiu um confisco de templos angolanos na província de Luanda, onde fica a capital do país. As filiais são Alvalade, Lar do Patriota, FTU, Cazenga, Morro-Bento, Viana e Maculusso, sendo que a última é a sede da organização no país.

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“Até que se tome uma decisão final em Tribunal os patrimónios apreendidos ficam sob nossa responsabilidade”, afirmou Castro Maria, diretor do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR), eme entrevista coletiva.

“Esta medida foi adotada porque nos autos há indícios suficientes da prática de delitos como associação criminosa, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais, abuso de confiança e outros atos ilegais”, afirmou o procurador geral Hélder Fernando Pitta Gróz, em comunicado.

Durante o fechamento das Igrejas feito pelas autoridades angolanas, o Jornal de Angola, principal publicação do país, registrou manifestações a favor e contra a medida da PGR. Populares protestaram contra a IURD brasileira, aplaudindo a medida, alegando que os dirigentes da igreja seriam “charlatães” e “burladores”.

A IURD nega as acusações, julga como ilegais as decisões publicadas no Diário Oficial que ordenaram a apreensão dos templos, e também reiterou que vai reagir para retomar suas atividades no país.

Pressão do governo brasileiro

O Presidente Jair Bolsonaro tem tomado medidas diplomáticas para beneficiar a IURD na Angola. Aliado de Edir Macedo e com forte apoio entre as bases evangélicas brasileiras, o chefe de estado tem utilizado o aparato do Itamaraty para tentar agir em prol da igreja no país.

Edir Macedo, dono da Record, é um aliado importante para o Presidente Jair Bolsonaro

Recentemente, Bolsonaro ligou para o presidente da Angola, João Lourenço, para tentar favorecer a IURD  e proteger os interesses brasileiros no país. Lourenço afirmou que faria o possível e analisaria o caso com parcimônia, dialogando com a Justiça angolana.

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O filho do presidente e deputado federal do PSL de São Paulo,Eduardo Bolsonaro, afirmou que se trata de um caso de desrespeito às liberdades religiosas: “Por trás das agressões e expulsões há tb o desrespeito à liberdade religiosa, de imprensa e direitos humanos. Esperamos que as autoridades angolanas resolvam eventuais conflitos de maneira civilizada”, disse o parlamentar no Twitter.

Não é a primeira vez que a IURD causa conflitos e entra nas páginas policiais em países do continente africano. Em São Tomé e Príncipe, uma crise diplomática que desencadeou revoltas contra a Igreja e até mortes aconteceu no fim do ano passado.

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Fotos: Destaques: Divulgação/IURD Foto 1: Reprodução/Portal Disparada


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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