Viagem

As famosas mini janelas de vinho de Florença voltaram a funcionar com a pandemia

por: Vitor Paiva

Na Itália, o mínimo detalhe pode ser parte de uma bonita e antiga tradição, e caminhar por uma cidade como Florença é colecionar esses pequenos traços e sinais presentes na arquitetura, nos hábitos e nos símbolos da vasta e ancestral cultura italiana. Na cidade toscana considerada berço do Renascimento no país, um desses detalhes se revela como símbolo de um curioso hábito que marca Florença desde o Século XVI: pequenas janelas do tamanho de uma garrafa de vinho na parede dos palacetes em vinícolas da região como traços exclusivos da arquitetura florentina – que antigamente serviam para justamente permitir que qualquer passante, com um punhado de moedas e desejo de vinho, pudesse comprar uma garrafa ou uma taça sem precisar adentrar os locais.

Conhecidas como buchette del vino (que em tradução literal significa buraquinhos do vinho) as pequenas janelas conectavam – e ainda conectam – a rua à cozinha dos edifícios, por onde as garrafas podiam ser vendidas ou onde copos eram diretamente servidos. Outros produtos, como azeite, carnes curadas, farinha ou vegetais produzidos pela família também costumavam ser vendidos pelos “buraquinhos”, mas o vinho era mesmo produto preferencial. As janelas costumam ter cerca de 18 centímetros por 35 centímetros de altura, e serem perfeitas reproduções da porta principal da vinícola ou do palácio em questão.

No atual contexto da pandemia, as janelas do vinho em Florença vêm sendo utilizadas em abundância e de volta à sua função original, para isolar o cliente das pessoas dentro dos palácios. Tal retomada não é, no entanto, coincidência mera em forma alguma: entre os anos de 1347 e 1351 a Peste Negra assolou a Europa como a maior pandemia da história, e o impacto sobre Florença foi especialmente devastador – estima-se que a cidade só recuperou sua média populacional no Século XIX. Assim, os buchette del vino não só permitiam que os produtores de vinho vendessem diretamente para a população sem intermediário, como também o fizessem respeitando um isolamento social que ainda se fazia necessário – seja como medida sanitária, seja como trauma e paranoia.

Assim, as janelas atualmente voltaram a ser utilizadas de tal forma que a Associação das Janelas de Vinho emitiu uma nota explicando o fenômeno em seu site. “Durante o período de quarentena por conta da pandemia da Covid-19, os proprietários da janela do vinho na Via dell’Isola delle Stinche na sorveteria Vivoli decidiram reativar sua janela para oferecer café e sorvete, ainda que não vinho. Outras duas janelas próximas também nos levaram nessa viagem no tempo ao utilizarem-nas em seu propósito original – a venda de vinho com distanciamento social”, diz a nota.

“Durante a terrível epidemia de peste bubônica que ocorreu na Europa na época, os produtores de vinho que vendiam pelas janelas nos palácios florentinos entenderam o problema do contágio. Eles passavam a garrafa para o cliente pela janela, mas não recebiam o pagamento diretamente: ao invés, passavam uma paleta de metal onde as moedas eram depositadas, e o vendedor então as desinfetava com vinagre antes de guarda-las”.

Atualmente somente 4 ou 5 janelas em Florença estão sendo utilizadas, mas existem, na cidade, mais de 150 outros buchette del vino que podem voltar à ativa – e quem sabe trazer um pouco de alegria para um momento tão embriagado de dureza como o atual.

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© Fotos: Messy Nessy/Buchette Del Vino


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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