Arte

As polêmicas e controvérsias por trás de ‘O Juízo final”, de Michelangelo

por: Vitor Paiva

O teto da Capela Sistina, localizada dentro da residência papal no Vaticano, em Roma, é provavelmente o mais celebrado afresco de Michelangelo ou de qualquer outro artista na história. Na mesma sala, porém, na parede ao lado, outro afresco imortal criado pelo artista traz não só o olhar de Michelangelo sobre um dos mais emblemáticos momentos da mitologia cristã, como também oferece uma série de pequenos símbolos, detalhes e mensagens escondidas em sua pintura: com 13,7 m x 12,2 m, o Dia do Juízo Final representa a segunda vinda de Jesus e o julgamento divino – mas não somente.

“O Dia do Juízo FInal”, de Michelangelo © Domínio público via Wikipedia

A pintura levou sete anos para ser concluída, e foi finalizada em 1541, 30 anos depois da conclusão da Criação de Adão, no teto da Capela Sistina, quando Michelangelo já tinha 67 anos. Na icônica representação, vemos um Jesus sem barba e praticamente nu ao centro, de mão levantada virado para os condenados, no canto inferior direito do afresco, sendo empurrados ao inferno por Caronte, barqueiro de Hades presente na mitologia grega e romana, e de costas para os que vão para o céu. À esquerda de Jesus está Maria, olhando para os salvos, e ao redor do par central estão São Pedro com as chaves do paraíso, e São João Batista – ambos retratados por Michelangelo em escala equivalente a Jesus.

Mas quais são os mistérios e as controvérsias do emblemático afresco?

Acima, Maria e Jesus; abaixo, Caronte empurrando os condenados ao inferno © Domínio público via Wikipedia

Ao pé esquerdo de Jesus está a primeira representação dita polêmica: São Bartolomeu aparece segurando uma faca com a qual teria arrancado sua pele em uma mão – e, na outra, sua própria pele, esfolada, como símbolo de seu sofrimento. Segundo consta, o rosto na pele pendurada seria um estranho autorretrato do próprio pintor: representando a si como um pecador. Entre os condenados ao inferno, a figura mitológica de Minos com orelhas de burro e uma cobra enroscada em seu corpo e mordendo suas “partes íntimas” trazia  um rosto muito semelhante ao de Biagio de Cesena, mestre de cerimônias do Papa Paulo III – e próprio teria se reconhecido na pintura.

Biagio de Cesena retratado como Minos no afresco © Domínio público via Wikipedia

E não parou por aí: Jesus não está sentado no trono, como diz a Bíblia, e muitos oficiais da igreja se incomodaram com a maneira como Michelangelo misturou representações religiosas com figuras de outras mitologias, além de reagirem com veemência a quantidade de corpos nus presentes no seu Juízo Final. Assim, outros pintores interferiram no afresco, especialmente após o Concílio de Trento, para “vestir” santos e personagens que antes estavam nus na pintura – em um sacrilégio artístico muito mais grave que qualquer representação pintada por Michelangelo: na restauração realizada nos anos 1990, 15 dessas coberturas foram retiradas, corrigindo assim um sacrilégio muito mais grave do que qualquer provocação cometida por Michelangelo nessa que é uma de suas tantas obras-primas.

São Bartolomeu segurando a própria pele © Domínio público via Wikipedia

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© arte: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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