Arte

Beyoncé é acusada por Lilia Schwarcz de ‘glamorizar negritude’ em texto cheio de equívocos

por: Karol Gomes

O novo álbum visual de Beyoncé, intitulado ‘Black is King‘, ainda não está disponível para os fãs brasileiros, mas ainda assim é um dos assuntos mais comentados no Twitter por aqui – entre fãs, críticos de arte ou pessoas que foram impactadas pela obra da diva pop. Em meio aos muitos pontos positivos, um artigo da antropóloga Lilia Schwarcz, na Folha de São Paulo, chamou atenção. 

Ninguém está isento a críticas, nem mesmo aquela que é considerada a rainha do pop, mas o texto de Lilia beira a injustiça, principalmente porque a autora tenta determinar como Beyoncé, supostamente, deveria falar sobre racismo por meio de seu trabalho. 

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Beyoncé recebeu críticas de colunista sobre como conduzir seu trabalho

No artigo, Lilia se refere a Beyoncé como uma mulher negra diversas vezes. Então, vale a pena fazer o mesmo e lembrar que a autora da crítica é uma mulher branca. Como disse a jornalista Aline Ramos em sua coluna para a UOL, “não são apenas pessoas negras que devem criticar ou analisar o trabalho de Beyoncé. Não acredito que seja necessário um “lugar de fala” para isso. Mas quando uma mulher branca diz como uma mulher negra deve lutar contra o racismo, isso nada mais é do que racismo”.

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E é exatamente o que Lilia faz com seu texto, a começar pelo título, que minimiza a grandeza do trabalho em ‘Black Is King‘. “Filme de Beyoncé erra ao glamourizar negritude com estampa de oncinha”, diz a chamada do artigo

Beyoncé em cena de ‘Black is King’

Beyoncé mostra conexão com a ancestralidade de África

O novo álbum visual da americana, disponível no Disney+ e inspirado na história do remake de ‘O Rei Leão’  lançado em 2019 e que tem a cantora norte-americana emprestando sua voz para a personagem Nala, vem como o ponto de expressão mais alto daquilo que influencia sua carreira nos últimos anos: sua ancestralidade. 

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Para Lilia, Beyoncé estaria se aproveitando da cultura africana para comunicar um história que não condiz com o momento que os Estados Unidos está passando, principalmente após o assassinato de George Floyd, e que tampouco reflete a realidade do continente africano. 

Muito dos argumentos da antropóloga são baseados em seus estudos de raça, mas ela esquece de considerar que a violência policial que afetou Floyd é constante e que artistas negros não deixam de criar por este fator. Ela também desconsidera que África é um continente constantemente explorado por colonizadores e pela mídia e o que faz Beyoncé é mudar sua imagem para mostrar suas belezas e riquezas. 

Beyoncé em cena de ‘Black is King’

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Há três anos, ela subiu ao palco do ‘Grammy’ para apresentar canções do disco ‘Lemonade‘, grávida de gêmeos, homenageando a orixá Oxum com sua coroa e projeções de tom amarelo. No ano seguinte, quando foi a primeira mulher negra a ser a atração principal do festival ‘Coachella’, Beyoncé surgiu com roupa prateada e turbante inspirados na rainha egípcia Nefertiti. 

Talvez o endeusamento de Beyoncé nos faça esquecer que ela é uma mulher negra como muitas outras e que ela parece estar passando, também como muitas outras, por um momento de reconexão com sua identidade e ancestralidade. A diferença é que ela transforma suas descobertas em arte.

Lilia Schwarcz, ainda na noite de domingo (2), usou suas redes sociais para se defender e pedir desculpas aos que, segundo ela, se sentiram ofendidos.“Penso que faz parte da democracia discordar. Faz parte da democracia inclusive apresentar com respeito argumentos discordantes”, argumentou

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Agradeço a todos os comentários e sugestões. Sempre. Gostaria de esclarecer que gostei demais do trabalho de Beyoncé. Penso que faz parte da democracia discordar. Faz parte da democracia inclusive apresentar com respeito argumentos discordantes. Já escrevi artigo super elogioso à Beyoncé, nesse mesmo jornal o que só mostra meu respeito pela artista. E por respeitar, me permiti comentar um aspecto e não o vídeo todo. Agradeço demais a leitura completa do ensaio. Penso que o título também levou a má compreensão. Dito isso, sei que todo texto pode ter várias interpretações e me desculpo diante das pessoas que ofendi. Não foi minha intenção. Continuamos no diálogo que nos une por aqui.

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Foto: Reprodução/Black is King/Disney +


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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