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Blog hipersexualiza homem negro, menospreza profissão de pedreiro e recebe duras críticas

por: Yuri Ferreira

Existe um blog LGBT chamado PontoGay.com.br,  repleto de contos contos eróticos e outros conteúdos pornográficos focados para o público gay. Seu conteúdo é inclusive replicado em outros portais LGBT não pornográficos, que possuem como foco a representatividade e a desconstrução da homofobia.

Entretanto, ao ver os materiais divulgados por esses mesmos locais, assistimos ao reforço de estereótipos raciais e de classe absolutamente problemáticos, ou, em outras palavras, pornografia racista.

O texto que utilizaremos pra partir pra reflexão é o de nome: ‘Fantasia: gay perdendo a virgindade com o pedreiro hétero’. Primeiramente, vamos começar: como um pedreiro HÉTERO poderia transar com um homem? Começa por aí um dos motes mais curiosos de certos homens gays: a fetichização “do armário”. A ideia do “amor proibido” entre dois homens – e um deles vivendo a vida no sigilo – é o reforço de estereótipos homofóbicos que estigmatizam o próprio LGBT. Em aplicativos como Grindr, Hornet e outros destinados a homens gays, homens sem fotos – ‘sigilosos’ – pipocam por tudo que é canto; e há o gay assumido que fetichiza isso. Mas partamos para o ponto central da história: o racismo.

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Ilustração do conto erótico mostra homem gay branco e contraste com o hétero negro. E não é a gente que está caçando pelo em ovo; o Ponto Gay já foi alvo de um TCC sobre hipersexualização do homem negro

O negro como objeto sexual do imaginário branco 

O conto narra a história de um menino de classe média alta que fica louco por um pedreiro que está fazendo um serviço em sua casa. Partimos já de uma narrativa estereotípica e clichê: a luta de classe em conflito. O branco – que provavelmente é o público alvo do texto – hiperssexualiza um homem mais fraco socialmente e, ao longo do conto, vemos as famosas tendências de brutalização e objetificação do homem preto.

Primeiramente, o que “deixa o menino louco” é a “marreta” do pedreiro: escolha profissional também curiosa, afinal, trata-se de uma profissão (também estereotipada) de força física, brutalidade, erroneamente desassociada do pensar técnico. Na ilustração, a decisão é por retratar o pedreiro como negro. Citamos o cientista social Clarck Hammer Soares Garcia, em seu TCC ‘A Hipersexualização do Homem Negro’, que analisa as histórias do site pontogay de uma perspectiva racial:

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“O negro objetificado pelo seu corpo viril e pênis grande pode ser visto, aos olhos da sociedade, como privilegio em ser desejado e apreciado pelos seus corpos, porém, essa ‘superioridade’ é fálica. Isso quer dizer que o negro ao ser desejado dessa forma, a sociedade o categoriza como apenas corpo. Como se o negro fosse essencial apenas para prazeres sexuais e não para se conviver em sociedade. O racismo institucional, como foi descrito neste trabalho, mostra como a imagem das pessoas não-brancas são de seres desprovidos de inteligência, violentas, criminosas e fadadas a trabalhos físicos”, afirma o trabalho.

A decisão por transformar o homem negro em um pedreiro, uma profissão de menos renda e menor da divisão social do trabalho, além é claro de representá-lo por uma ‘grande marreta’, tornando ele mais um bruto com um pênis enorme do que um ser humano, são alguns dos pontos que tornam claro como muitos aspectos da pornografia gay está entrinchada em estereótipos racistas.

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“O negro ser representado socialmente, em especial nas manchetes jornalísticas, como um ser agressivo, bandido, fadado a marginalidade, está relacionado com a masculinidade hegemônica. A falsa superioridade dos negros hiperssexualizados (ativos, dominantes) é, na verdade, alimento para sua opressão. Como sempre, representando o gay negro na pornografia gay como mais corpo do que mente, ou seja, como objeto devido ao seu órgão sexual ‘monstruoso’ como foi analisado nas HQs do pontogay.com.br”, conclui o trabalho de Clarck.

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É necessário repensar o desejo, a pornografia e a fetichização dos corpos pretos na pornografia num geral. No caso gay, é hiperssexualização dos pretos e o “sigilo” como condicionante para um reforço da homofobia. No pornô hétero, refletir também sobre a hiperssexualização de mulheres negras, do estupro, da violência e tantos outros temas que refletem o machismo e o sexismo na nossa sociedade. No pornô lésbico, a forma como os homens héteros – que, em sua maioria, são donos e enriquecem com as filmagens – fetichizam a relação entre duas mulheres. No fim, acabamos percebendo o quanto a pornografia é nociva e um caminho que impede o fim de diversas opressões na nossa sociedade.

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Fotos: Reprodução/PontoGay


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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