Debate

Bolsonaro ameaça jornalista e lembra general da ditadura militar: ‘Encher tua boca de porrada’

por: Karol Gomes

A seguinte frase:“Presidente, por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?” foi repetida mais de 1 milhão de vezes em menos de 24 horas no Twitter. A questão chegou a ser o assunto mais discutido da plataforma no Brasil. As manifestações começaram depois que Jair Bolsonaro ameaçou um jornalista que fez a mesma pergunta – a resposta dele, no domingo (23), foi: “vontade de encher tua boca com uma porrada, tá? Seu safado”.

Nomes influentes da rede social replicaram o questionamento. A exemplo, o músico Caetano Veloso, a atriz Bruna Marquezine, a cartunista Laerte, a cantora Anitta, o ator Bruno Gagliasso e os influenciadores Felipe Neto, Hugo Gloss e Felipe Castanhari. Eles somam mais de 65 milhões de seguidores no Twitter.

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Entidades jornalísticas e de defesa dos direitos humanos criticaram a atitude do presidente. Em nota, o jornal O Globo afirmou que “tal intimidação mostra que Jair Bolsonaro desconsidera o dever de qualquer servidor público, não importa o cargo, de prestar contas à população”.

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Também em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disse que “o discurso hostil e intimidatório de Bolsonaro contra a imprensa vem incentivando sua militância a assediar jornalistas nas redes sociais nos últimos meses, inclusive com ameaças de morte e agressões aos profissionais e a seus familiares”.

Durante a mesma entrevista, Bolsonaro foi questionado se sua declaração era uma ameaça à imprensa, mas ele não respondeu. A postura agressiva do líder de Estado com profissionais de comunicação não é uma novidade. 

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O cercado do Alvorada

Em maio deste ano, Folha, UOL, Band e Rede Globo decidiram suspender a cobertura jornalística na porta do Palácio do Alvorada, em Brasília, para manter seus profissionais em segurança com relação às seguidas hostilidades de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Os xingamentos e até lixo revirado em busca de supostos documentos dificultaram a vida dos jornalistas que fazem a cobertura presidencial. Os apoiadores nada mais fizeram do que repetir atitudes do próprio Bolsonaro.

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Dias antes da decisão, a repórter Clarissa Oliveira havia sido agredida durante um ato contra a quarentena em Brasília. Enquanto se preparava para entrar ao vivo e olhava o celular, a profissional foi atingida na cabeça por uma bandeira do Brasil presa em um mastro manuseado por uma manifestante em frente ao Palácio do Planalto. Pessoas ao redor presenciaram a agressão e nada fizeram.

Logo depois, a emissora pela qual Clarissa trabalhava, a Rede Bandeirantes, se pronunciou por meio de nota: “A agressão à nossa repórter durante manifestação em frente ao Palácio do Planalto, ofende a liberdade de imprensa e a todos os jornalistas”, declarou a empresa, que pediu ainda “punição exemplar a esse ato inaceitável de selvageria”, lamentando “mais essa prova de desrespeito ao trabalho da imprensa”.

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Bolsonaro lembra general da ditadura militar

A grosseria de Jair Bolsonaro fez lembrar um momento emblemático da ditadura militar no Brasil. Em 1983, o general Newton Cruz convocou uma coletiva de imprensa que seria realizada no intuito de “prestar contas à nação” a respeito da proposta de Emenda Constitucional Dante de Oliveira, que não fora aprovada, deixando brasileiros frustrados e desesperançosos com o futuro do que viria a ser a democracia no país.

A lei tinha como objetivo reinstaurar, finalmente, novas eleições diretas para presidente, visto que isso não acontecia há quase 20 anos. Mas a não aprovação da reforma também trouxe outras consequências drásticas. Inúmeras cidades brasileiras estavam em Estado de sítio na época, desde 19 de outubro daquele ano. As medidas de emergência estavam sendo sentidas de forma ainda mais dura na capital federal.

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‘Cale a boca, deixa eu falar’

Logo no começo do evento, o militar já começava a ofender jornalistas, acusando a imprensa nacional de noticiar mentiras em seus veículos diários. Também contestou o teor das publicações, alegando que os correspondentes de Brasília agiam de má-fé perante os governantes. 

Foi quando Honório Dantas, jornalista da Rádio Planalto, fez uma pergunta que irritou o general Newton. Questionado a respeito da falta de democracia no país pelo radialista, Cruz respondeu: “democracia é cumprir a lei”.

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O gravador muito próximo ao seu rosto também incomodou o general. Irritado, pediu para falar enquanto Dantas o interpelava novamente. O jornalista respondeu: “pode falar General”. E ouviu como resposta: “cale a boca, deixa eu falar e desligue essa droga”

Em dado momento, a intimidação deixou de ser apenas em palavras e tornou-se uma agressão física, em pleno ao vivo da TV. Alguns colegas do oficial ainda tentavam tampar as lentes das câmeras que registravam o insólito momento.

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Newton Cruz deu uma chave de braço em Honório Dantas e o episódio se tornou uma das maiores representações da repressão à imprensa durante a ditadura militar. Não se sentindo acuado nem pela presença de câmeras que gravavam ao vivo, o general agrediu e ameaçou um jornalista em plena coletiva de imprensa.

E o Queiroz?

De volta ao caso deste domingo (23), no fim das contas, as dúvidas dos jornalistas sobre os depósitos na conta de Michelle Bolsonaro também continuam sem resposta.

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O escândalo envolvendo a primeira-dama da República ganhou destaque no fim de 2018, quando foi deflagrada a investigação contra Fabrício Queiroz, amigo de Bolsonaro há décadas e ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Ele e o filho do presidente, que também é senador pelo Rio de Janeiro, são suspeitos de integrarem um suposto esquema de lavagem e desvio de dinheiro do gabinete parlamentar de Flávio. Ambos negam.

O presidente Jair Bolsonaro ao lado da esposa Michelle

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À época, um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontou uma série de movimentações bancárias suspeitas de Queiroz entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, somando R$ 1,2 milhão. Umas das transações era o depósito de R$ 24 mil na conta da esposa de Bolsonaro.

Questionado em dezembro de 2018, o presidente disse que se tratava do pagamento por uma dívida que Queiroz tinha com ele. Afirmou também que o dinheiro foi depositado para Michelle porque ele não tem “tempo de sair”.

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“Emprestei dinheiro para ele (Queiroz) em outras oportunidades. Nesta última agora, ele estava com um problema financeiro e uma dívida que ele tinha comigo se acumulou. Não foram R$ 24 mil, foram R$ 40 mil. Se o Coaf quiser retroagir um pouquinho mais, vai chegar nos R$ 40 mil”, explicou Bolsonaro na época.

Sua fala aponta duas contradições: a primeira é que a quebra de sigilo mostrou que não há depósitos do presidente na conta de Queiroz que comprovariam o empréstimo alegado por Bolsonaro, segundo os veículos da imprensa que tiveram acesso ao documento.

Fica a pergunta que quase levou o  Jair Bolsonaro às vias de fato: “Presidente, por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?”

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Foto: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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