Debate

Cabeleireiro sugere que ‘patrão comeu e gerou isso’ ao falar de cabelo crespo de modelo

por: Yuri Ferreira


O cabeleireiro Wilson Eliodorio, bastante conhecido na universo moda por trabalhar com cabelos crespos, fez um comentário racista enquanto trabalhava nas madeixas de Mariana Vassequi. Ao explicar a natureza do cabelo da modelo negra, ele disse que, pasmem, “o patrão comeu e gerou isso”, um comentário infeliz, assustador e revelador do racismo no Brasil.

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Cabeleireiro famoso fez associação racista com cabelos crespos

Apesar de Wilson Eliodorio se autodeclarar como negro, isso não impediu que a postagem fosse alvo de debate e o cabeleireiro criticado. Ele tem um extenso trabalho no mundo da moda com especificidade em cabelos crespos, tendo trabalhado com diversas celebridades negras – Taís Araújo e Cacau Protásio entre ela – mas, mesmo assim, fez um comentário extremamente racista, associando o cabelo de mulheres negras aos relacionamentos entre escravizadas e patrões da época da escravidão. Relacionamentos estes, diga-se, frutos de estupro.

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““Filhote do patrão, né? Patrão comeu e gerou isso. Esse também é um cabelo brasileiro, pela ascendência étnica, mas aqui é mais comum. Esse é um cabelo que a gente encontra mais na Europa”, disse, em um momento desconfortável, revelando uma visão extremamente racista.

Você pode conferir o vídeo aqui, na íntegra:

O racismo choca e imobiliza 

A modelo Mariana Vassequi se pronunciou nas redes sociais afirmando que o ambiente foi repleto de eventos de racismo e que a “falta de contexto” não reduz o racismo do discurso de Wilson.

“Vou te dizer uma coisa, querido. Nós não somos filha de patrão nenhum, você conhece minha família? Sabe quem é meu pai, minha mãe? Então cala a boquinha. E parem de diminuir toda uma ancestralidade, diminuir toda uma história reduzindo sempre o negro (a), sempre o cabelo cacheado/afro/crespo à escravidão. Meu amor, a gente existe muito antes desse pequeno detalhe ter acontecido na história da humanidade! Se você olha pra mim e acha que eu sou só isso você está muito enganado e atrasado“, afirmou.

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“Não foi nada sem contexto! E não foi só o que foi gravado, foi horas de show de horrores! Você disse o que queria dizer e o que pensa! Você disse o que não fala na cara das famosas, mas fala pra modelos que não são famosas, mas mesmo assim nós temos valor! Meu valor não está no que eu tenho, ou em números mas no meu caráter coisa que diploma e fama nenhum compra. Outra frase citada: ‘Esse cabelo é um cabelo que vem do morro, e agora essas mulheres tem dinheiro e agora elas querem ir em salão chique por isso nós temos que saber mexer com elas'”, completou Vassequi.

Confira a nota de esclarecimento da modelo:

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NOTA DE ESCLARECIMENTO – PARTE 1 Fala galera! Beleza? Pra quem não me conhece eu sou a Mari! Sejam bem vindos a minha página e pra quem já me conhecia eu vou contar um pouco do que aconteceu. Eu não posso citar nomes nem locais por motivos de segurança. Eu fui contratada por uma marca de cosméticos para cabelos, para ser modelo do lançamentos do novo produto linha cachos! A marca escolheu a locação em um salão bem lindo e requintado da cidade de SP e também convidou um terceiro. Um suposto “cabeleireiro profissional” para ministrar uma palestra e o que seria um pequeno curso sobre “como tratar cabelos étnicos”, em meio ao evento, em um dos momentos eu e a @ruthmorgamoficial (outra modelo companheira de trabalho que também estava sendo contratada) nos deparamos ouvindo diversas frases muito ofensivas e racistas! ? Foi triste mesmo! A gente ouviu tudo, percebeu tudo mas naquele momento por medo de sermos demitidas, por medo de acabar a diária e a gente não receber (pois com a pandemia os jobs trabalhos de modelos caíram muito e cada uma já tinha saído de longe pra estar lá eu saí até de outro estado!) e também pela pressão da profissão por naquele momento se tratar de um ambiente de trabalho onde a modelo já é vista como apenas a boneca sem voz, a boneca que tá lá apenas pra provar roupa, desfilar ou ser fotografada. Então diante desse medo e dessa estrutura sim machista e opressora! Que silencia mulheres, que silencia a modelo! Que silencia a minha cor! E foi tudo tão rápido, que eu me calei. Mas quando cheguei em casa foi um desmorono e reflexões. Por que nos calamos? E por que ninguém na hora falou nada? Não só nós mas por que dentro de um salão com +10 pessoas, por que ninguém interveio? Acredito que alguns não ouviram, mas a maioria foi pior por que OUVIU mas NATURALIZOU! gente como assim? Que país é esse que mundo é esse que você ouve alguém falar que “esse cabelo ou essa pessoa é um filhote de patrão, por que o patrão comeu uma escrava e gerou isso.” Gente! Como isso pode ser normal? Você sabe o que isso significa? Vou te explicar: – (não cabe o texto inteiro, vai ter textão sim então tive que dividir em dois). Tá no post do lado! ?? #naoaoracismo

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Após uma chuva de críticas merecidas, o empresário, que já trabalhou com Elza Soares, Iza, Cris Viana, Tais Araújo, Gaby Amarantos e Naruna Costa, decidiu se desculpar pela fala em suas redes sociais.

O cabeleireiro se retratou pelo comentário completamente racista em seu Instagram. “Eu estou arrasado, eu estava tentando explicar o que era a miscigenação e a mistura de cabelos e fiz uma expressão péssima e aí tirada de contexto fica mais horrível ainda. Preciso pedir desculpas e me redimir. É uma vida defendendo esse cabelo. E só tenho que pedir desculpas”, afirmou.

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Confira o vídeo de desculpas:

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Fotos: Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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