Debate

‘Cancelamento’ e luta contra racismo, homofobia e preconceitos são coisas diferentes

Redação Hypeness - 17/08/2020

Ainda pouco conceituada, a chamada “cultura do cancelamento” parte do princípio de que atitudes ou posicionamentos desrespeitosos, preconceituosos ou incoerentes de marcas e de personalidades influentes devam ser punidos com perda de trabalhos, de credibilidade, de fãs e de dinheiro. Se, por um lado, o tal cancelamento colabora para gerar debates sobre questões como racismo, homofobia e machismo, o fenômeno online também deturpa e banaliza o que são e para que servem as lutas de movimentos sociais.

Em meio a discussões em redes sociais sobre “cancelar” alguém ou não, reivindicações por melhores condições de vida para minorias sociais acabam esvaziadas do propósito de promover mudanças estruturais concretas.

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Com boicotes efêmeros, argumentações superficiais para “lacrar” e unfollows em massa, a tal “cultura” passa a ser interpretada como instrumento de luta social, quando, na verdade, não combate a raiz de opressão alguma.

Mas o que é a cultura do cancelamento?

Cultura do cancelamento é apenas um novo envelopamento de algo que já conhecemos e experienciamos durante décadas: o linchamento, o boicote, o ódio e a humilhação, explica o estudo “Cultura do Cancelamento: o que é, do que se alimenta, como se reproduz”, divulgado em 2020 pela Mutato, agência de conteúdo de São Paulo.

“Esse linchamento acontece quando não há o poder maior — no caso, o poder do Estado — e aí a população se sente no direito de se tornar o júri, o juiz e o executor da sentença dessa pessoa [‘ré do julgamento’] “, diz Bruno Honório, analista de pesquisa e estratégia e responsável pelo estudo ao lado de Camilla Pereira de Oliveira.

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Durante participação na edição online da conferência YOUPIX Talks, realizada em julho de 2020, Bruno diz ainda: “Nossa sociedade é baseada na punição. ‘Eu preciso punir alguém por algum ato; se eu não punir, consequentemente eu não fiz minha parte enquanto ser social, enquanto pessoa’.”

Também convidada para o painel “Cultura do Cancelamento e Exposed”, a youtuber, podcaster e produtora Andreza Delgado levanta contrapontos importantes para o tema.

Uma das criadoras da PerifaCon, a Comic Con da favela, a baiana argumenta que, de outro ângulo, as raízes dos linchamentos físicos no Brasil se relacionam à violência contra pessoas à margem da sociedade, principalmente negras e pobres, enquanto o “cancelamento” da internet diz respeito à cobrança de responsabilidade por falas e atitudes problemáticas do ponto de vista dos ativismos sociais.

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“As pessoas que são canceladas, em maior parte, que não conseguem voltar a produzir ou não conseguem mais tantos contratos ou deixam de aparecer, são mulheres, mulheres negras, homens negros e homens negros LGBT, pessoas negras LGBT”, completa Bruno no debate.

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“Os personagens oficiais que não conseguem retornar de um cancelamento, em maioria, são pessoas que também passam pelo processo de apagamento identitário, de apagamento social”, diz.

‘Cancelamento’ é luta?

Ainda no mesmo painel do YOUPIX Talks, Bruno adiciona: “Quando alguém tem um comportamento racista [no contexto online da ‘cultura do cancelamento’], a gente o chama de ‘cancelado’, a gente não o chama de racista. Isso [o racismo] é um crime. Quando um cantor bate na própria esposa, a gente o chama de ‘cancelado’. Não, ele é um agressor, é um criminoso.”

Se lutas de ativistas forem lidas como meras tentativas de “cancelamento” — um termo genérico, sem credibilidade —, isso continuará a encorajar autores de condutas problemáticas a se colocarem c0mo vítimas de uma cobrança nociva, que não questiona, apenas pune.

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Enquanto os movimentos sociais vêm, há décadas, construindo bases para o questionamento sem censura do status quo da opressão, a “cultura do cancelamento” não propõe diálogos nem ferramentas que colaborem para a transformação das estruturas da sociedade, pelo contrário; ao tornar discussões sérias superficiais, promove a deslegitimação de pautas extremamente importantes para a reivindicação de direitos ainda negados a minorias políticas.

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Fotos: Getty Images


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