Debate

Donald Trump e seu histórico de racismo são apostas para a reeleição nos EUA

por: Veronica Raner

Os sete tiros dados nas costas de Jacob Blake, um homem negro desarmado de Kenosha, no estado americano de Wisconsin, foram mais do que suficientes para times de basquete boicotarem jogos importantes de NBA. Foram absurdos o bastante para gerar inconformismo entre atletas de outros esportes, artistas e políticos. Mas não foram suficientes para fazer Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e candidato em 2020, a falar sobre o racismo institucional enraizado na polícia de seu país. 

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O presidente Donald Trump durante um discurso de campanha em 2015.

O silêncio de Trump não é surpresa para ninguém. O republicano, que está em campanha para ser reeleito no cargo máximo dos EUA, não vê importância no debate racial e muito menos o utiliza como pilar de governo ou plataforma de campanha — no sentido positivo. Muito pelo contrário: Trump faz do discurso negacionista uma de suas maiores forças políticas. 

Em 2017, manifestantes contrários à remoção da estátua do general confederado Robert E. Lee, em Charlottesville, na Virgínia, foram chamados de “pessoas muito simpáticas” pelo presidente. O protesto foi convocado e composto por nacionalistas brancos, representantes da extrema direita e pessoas ligadas a movimentos neonazistas no país, mas o presidente optou por dizer que “havia muitas pessoas naquele grupo, não só neonazis e nacionalistas brancos.” Ele ainda aproveitou para criticar o trabalho da imprensa ao afirmar que os jornalistas estavam sendo “totalmente injustos”. 

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Manifestantes protestam contra a tentativa de assassinato a Jacob Blake em Kenosha, no Wisconsin.

Naquele mesmo protesto, chamado de “Unite The Right” (“Direita unida”, em tradução livre), os manifestantes caminharam pelas ruas entoando frases como “sangue e solo”, slogan nazista usado na Alemanha de Hitler. 

Já este ano, Trump saiu em defesa de um casal de advogados que ameaçaram manifestantes do “Black Lives Matter” com armas de fogo durante uma passeata em St. Louis, no Missouri. A multidão caminhava em direção à casa da prefeita da cidade e, no caminho, atravessaram a rua da casa de Mark e Patricia McCloskey. A rua é fechada por portões nas duas extremidades, mas eles estavam abertos e as pessoas passavam pacificamente. Os gritos dos participantes do protesto pacífico (“Ninguém vai machucar vocês!”) e questionamentos de “por que vocês estão apontando essas armas para nós?” foram ignorados pelo casal, que segurava um rifle e uma pistola. 

O estado do Missouri permite o uso de armas contanto que elas não sejam utilizadas como forma de repressão ou ameaça. Por conta disso, um procurador local denunciou o casal McCloskey por uso indevido de arma e recomendou que os dois participassem de programas de reabilitação. Donald Trump, é claro, saiu em defesa do casal chamando a situação de “absurda” uma vez que eles estavam apenas “se protegendo de manifestantes violentos”. 

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Mark e Patricia participaram, no último dia 24, da Convenção Nacional do partido Republicano, pelo qual Trump concorre à reeleição. 

Patricia e Mark McCloskey na Convenção Nacional do Partido Republicano.

Ao comentar o ato violento contra Jake Blake, Trump ignorou os sete tiros pela polícia e se limitou a criticar os protestos que se sucederam ao fato. Também alfinetou a NBA por ter se tornado “muito politizada”, depois dos boicotes aos jogos dos playoffs. À imprensa, a mãe de Blake contou ter perdido uma ligação feita pela Casa Branca. Segundo um porta-voz do governo, o presidente gostaria de demonstrar apoio à família. O gesto soa muito mais como um “cumprir tabela” do que um lamento sincero. 

O silêncio sobre o uso extremo de violência policial contra a população negra segue profundo. Novembro vem aí e o presidente não pode — não quer e não entendo o motivo para — se arriscar.  

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Fotos: Getty Images


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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