Sustentabilidade

Elefante viaja quase 3 mil km em plena pandemia e encerra 50 anos de confinamento em santuário

por: Veronica Raner

Uma elefanta chamada Mara foi a responsável por abrir a fronteira entre o Brasil e a Argentina durante a pandemia do coronavírus. Com uma comitiva ladeada pela Polícia Rodoviária Federal, o animal recebeu uma autorização especial para cruzar a Ponte Internacional da Fraternidade — como é conhecida a Ponte Tancredo Neves, que liga os dois países — e seguir rumo ao Santuário de Elefantes do Brasil, no Mato Grosso do Sul. Depois de mais de 50 anos de vida em cativeiro, Mara pode, finalmente, entender o que é ser livre. 

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A elefanta Mara aproveita o sol no Santuário de Elefantes, no Mato Grosso do Sul.

A história da elefanta daria tudo para ser filme. Ela nasceu na década de 1960, em um cativeiro na Índia, e foi levada ainda filhote para outro, em Hamburgo, na Alemanha. De lá, na década de 1970, seguiu para o Uruguai, onde virou atração de circo e, depois, foi para a Argentina pelo mesmo propósito. Em 1995, o animal foi levado para um zoológico de Buenos Aires que quase vinte anos depois foi denunciado por maus tratos contra animais. O espaço privado foi retomado pelo governo argentino e passou a ser chamado de Ecoparque. Durante essa transição, ficou decidido que animais de grande porte seriam realocados em ambientes mais adequados e foi assim que Mara chegou ao Santuário de Elefantes.   

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O processo de translado não foi fácil. Foram meses de busca por autorizações e exames sobre o bem estar do animal. Tudo estava pronto e certo para que Mara fizesse a viagem no fim de março, até que veio a pandemia e as fronteiras entre Argentina e Brasil se fecharam no dia 30 daquele mês. A liberação para que o comboio atravessasse a fronteira só veio mais de um mês depois, no começo de maio.

Durante o percurso, a equipe que acompanhava Mara fez paradas para dormir (dentro dos carros mesmo!) e também para alimentar o animal. Mara esteve tranquila ao longo de todo o processo, que durou cinco dias e quase três mil quilômetros de viagem. 

No Santuário de Elefantes, localizado na Chapada dos Guimarães, Mara, que tem idade estimada entre 50 e 54 anos, encontrou a liberdade e aprendeu a conviver com outros animais da sua espécie. Três meses após sua chegada, ela já convive bem com os outros elefantes e tem em Rana sua melhor amiga. As duas mal se desgrudam e desenvolveram uma ligação de manada. O dia a dia dos elefantes pode ser acompanhado pelas redes sociais. Quase que diariamente, a organização da instituição publica atualizações sobre o cotidiano dos animais e suas interações entre si e com a natureza. 

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Mara (atrás) e sua amiga Rana (mais à frente) aproveitam o dia no Santuário de Elefantes.

A vida em cativeiro deixa traumas para os animais. Mara, por exemplo, precisou de algum tempo para entender que não precisava temer ao passear pela área protegida pelo Santuário. A elefanta também aprendeu que não precisava mais pedir o que queria aos humanos e que poderia se alimentar da vegetação local como quisesse. Apesar disso, os animais do Santuário recebem duas refeições ao dia. 

Mara, assim como os outros que vivem ali, não poderia retornar à vida na selva. Como não cresceram livres, não se adaptariam se voltassem para a natureza sem cuidados especiais. 

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O Santuário de Elefantes no Brasil

A iniciativa para criar o Santuário de Elefantes no Brasil veio da ElephantVoices, uma ONG americana que promove o cuidado e a proteção aos animais da espécie. A organização se juntou a Scott Blais, cofundador do Santuário de Elefantes no Tennessee, nos Estados Unidos, e o projeto para tornar o espaço protegido no Mato Grosso do Sul começou a tomar forma em 2013. 

O Santuário fica situado em uma antiga fazenda de gado que tem cerca de mil hectares. O projeto conta com a contribuição de doadores voluntários e não é aberto a visitantes, algo essencial para a preservação dos animais. 

Alguns dos elefantes do Santuário passeiam no fim de tarde no Mato Grosso do Sul.

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Fotos: Santuário de Elefantes Brasil/Facebook/Instagram


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.


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