Debate

‘Gari magia’ reforça fixação da sociedade por padrões de beleza quase inatingíveis

por: Yuri Ferreira


A internet já escolheu um novo ícone de beleza para adorar: o ‘gari magia’ de Belo Horizonte. Essa história é cíclica nas redes sociais; o ‘mendigo gato’, o ‘socorrista gato’ e tantos outros da fórmula profissão “inusitada + padrão de beleza” já se tornaram influenciadores (ou não). Mas será que isso não é um pouco sintomático?

O bola da vez é Thales Alves, modelo e gari de Belo Horizonte que se tornou uma figuraça no TikTok e no Instagram por ter um belo sorriso, músculos definidos e uma barba rente. Branco e atlético, ele se encaixa no padrão de beleza e inclusive sofre uma espécie de preconceito por ser gari. Em entrevista ao Estado de Minas, ele contou.

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Thales é modelo da Thwa Agency e candidato a Mister BH

“Era eu quem fazia o descarte de lixo da empresa. A alegria dos garis que passavam para recolher o material sempre me chamou a atenção. Daí pensei: ainda vou mexer com isso. Procurei então um conhecido que trabalhava nessa empresa onde estou hoje e pedi que ele me ajudasse. No início, ele me zoava, falava que eu tinha cara de playboy. Eu respondia assim: ‘Já viu playboy que rala em supermercado?'”, contou, sobre seu início de carreira.

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Thales segue uma rígida disciplina de musculação, algo inalcançável para boa parte da população. “Comecei lá pelos 13 ou 14 anos. Na época, não podia pagar academia, treinava com barras de concreto. Quando consegui meu primeiro emprego, ainda como menor aprendiz, me matriculei em uma academia e nunca mais saí”, afirmou ao EM.

Confira um pouco do conteúdo que o ‘gari gato’ posta nas redes sociais:

@talesgari##foryou ❤Investe em mim ❤♬ som original – simonemendes565

Beleza e classe dominante 

A ideia de muitas pessoas de que a existência de um “mendigo gato” ou de um “gari magia” implica em algum tipo de controvérsia é no mínimo preconceituosa. Existem pessoas belas em todas as profissões: do banqueiro ao pescador, do político à empregada. Acreditar no contrário é reforçar o estereótipo que a beleza é uma possessão de uma classe dominante, que define os padrões e enfraquece a auto-estima das pessoas mais vulneráveis da sociedade.

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Se Thales faz seu gosto, sem dúvida siga-o, não há porque não. Mas cabe a reflexão de que a sua profissão não deveria ser um motivo de espanto nessa relação de beleza e que esse tipo de visão é bastante preconceituosa, não é?


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Fotos: @pattyreisfotografia/Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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