Arte

Governo retira obra clássica dos Orixás do Palácio do Planalto em novo ataque contra religiões negras

por: Yuri Ferreira

Por decisão do Governo Federal, a clássica obra ‘Orixás’, da artista plástica Djanira, foi retirada do Palácio do Planalto. De acordo com informações da revista Piauí, a obra está desde dezembro de 2019 lounge do Salão Nobre da casa do Presidente da República. A retirada do quadro é considerada um ataque às religiões negras, em um claro exemplo de racismo e intolerância religiosa por parte de Jair e Michelle Bolsonaro, que ocupam a casa e ordenaram a remoção.

Desde dezembro de 2018, antes de assumir o posto de primeira dama, reportagens já apontavam que a evangélica Michelle Bolsonaro iria retirar do Planalto as obras de arte com referência ao catolicismo e, em especial, peças que representassem as religiões de matriz africana.

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Obra de Djanira foi retirada do Salão Nobre do Palácio do Planalto

O último chefe do executivo a ordenar a retirada da obra do Palácio do Planalto foi Ernesto Geisel, de religião luterana, o penúltimo ditador do Brasil. Desde então, todos os presidentes – e com exceção de FHC, todos cristãos – mantiveram a obra, que é uma importante representação da cultura afro-brasileira em um dos centros de poder do nosso país.

Em 2018, se especulou que a peça de Djanira seria cedida ao MASP, mas a apuração de Rubens Valente para a Piauí certificou que a obra se encontra em um arquivo do Palácio do Planalto desde dezembro de 2019, o que é ainda mais triste.

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“Essa notícia, para mim isso é muito óbvio, representa a intolerância e o abuso de poder. A ignorância do presidente da República, que não sabe o que é cultura, é tão assustadora, é tão terrível. Talvez eles [o presidente e a primeira-dama] nem saibam que isso é abuso de poder, não sabem a diferença entre público e privado”, afirmou o professor do Departamento de Artes visuais da UnB Nelson Inocêncio à Piauí.

“O Planalto tem um acervo que representa a sociedade brasileira. Você tirar uma obra daquela por não estar em conformidade com sua crença é violento, violento. Se a cultura é diversificada, o quadro está ali representando um pouco dessa diversidade. O que estamos vivendo em relação a todas as formas que visam aniquilar a presença negra no Brasil mostra o quanto a gente ainda tem que caminhar como sociedade. A população negra sempre foi objeto de perseguição, mesmo depois da escravidão. Se a pessoa é perseguida, as religiões também serão perseguidas. E a perseguição tem a ver com o próprio racismo”, completa.

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Além disso, levar uma obra de Djanira da Motta e Silva para o arquivo do Palácio do Planalto é menosprezar uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos. O traço icônico e a temática essencialmente brasileira de Djanira são reverenciados ao redor do mundo. A artista está no Vaticano, para se ter uma ideia. É uma peça fundamental na arte brasileira.

Relegar o quadro ‘Orixás’ a uma sala trancafiada na casa ocupada por Bolsonaro não é somente um atentado à diversidade religiosa no nosso país, não é somente um atentado às religiões negras e um ato claro de racismo: é uma derrota para a arte brasileira como um todo.

Escalada racista 

Mas além disso, vale ressaltar a contínua tentativa do Executivo de acabar com as religiões de matriz africana: Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, também conhecido como ‘o cara que pintou no paint uma camisa vermelha de azul para não parecer comunista’, foi denunciado por uma mãe de santo, a Mãe Baiana, por intolerância religiosa. Em um áudio, o chefe da instituição que visa valorizar o negro no país racista em que vivemos disse:

“Tem gente vazando informação aqui para a mídia, vazando para uma mãe de santo, uma filha da puta de uma macumbeira, uma tal de Mãe Baiana, que ficava aqui infernizando a vida de todo mundo”. 

Dá muito desânimo, viu? A gente já falou aqui sobre como as religiões de matriz africana são as principais vítimas de intolerância religiosa no Brasil. Nesse mês, vimos a mãe que perdeu a guarda de sua filha por iniciá-la no Candomblé. Parece que o racismo religioso só cresce – e que o Estado é conivente com tudo isso. Dá muito desânimo.

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Fotos: Reprodução/Facebook


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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