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Interseccionalidade LGBT: intelectualidade negra luta contra opressão em movimentos por diversidade

por: Kauê Vieira

A pluralidade dos caminhos tomados para a construção da sexualidade e da orientação sexual de uma pessoa nunca esteve tão em alta. A soma dos debates nas redes sociais com a mudança do perfil dos estudantes universitários no Brasil abriu espaço para uma reflexão que vai além da tradicional e, talvez ultrapassada, visão sobre o que significa ser hétero, gay, lésbica, trans, assexuado e por aí vai. 

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A efervescência trouxe consigo questões antigas, mas que ganham nova roupagem e um protagonismo que vai ao encontro dos processos de democratização dos movimentos de luta e defesa da liberdade de ser o que se quer ser. Mas afinal, em que pé está a interseccionalidade dentro dos movimentos LGBTQI+?

A interseccionalidade é decisiva na luta por diversidade

O emprego da interseccionalidade é uma luta histórica e constante dos movimentos negros brasileiros. O termo, no entanto, ganhou força junto do aumento do coro de mulheres negras cansadas dos apagamentos ao se falar sobre feminismo. 

Entre tantos nomes, o de Carla Akotirene logo permeou nossos pensamentos. A baiana, bacharel em estudos sobre mulheres, gênero e feminismo pela Universidade Federal da bahia (UFBA), lançou um livro com o termo no título: ‘O Que é Interseccionalidade?’, parte da coleção ‘Feminismos Plurais’,  coordenada pela filósofa Djamila Ribeiro. 

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Pensamentos de mulheres negras 

A luta histórica de mulheres negras é vital para a interseccionalidade

Em entrevista à Folha de Pernambuco, Akotirene traçou uma linha histórica sobre o surgimento e uso do termo interseccionalidade destacando sua ligação direta com os pensamentos de mulheres negras. 

“É uma ferramenta teórica e metodológica usada para pensar a inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, e as articulações decorrentes daí, que imbricadas repetidas vezes colocam as mulheres negras mais expostas e vulneráveis aos trânsitos destas estruturas. Infelizmente agora sofre os perigos do esvaziamento, pois caiu no gosto acadêmico das branquitudes. Fala-se muito de feminismo interseccional sem trabalhar o paradigma afrocêntrico, de forma desconexa da origem, fundamento e propostas epistemológicas das feministas negras”, destacou Carla Akotirene. 

Para entender melhor os impactos gerados e sentidos por sujeitos negros membros ou não de movimentos LGBTQI+, o Hypeness conversou com Ana Claudino, publicitária, pesquisadora e criadora do canal ‘Sapatão Amiga’ e o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), entidade pioneira no mapeamento da realidade da comunidade LGBTQI+ no país. Pessoas de tons de pele e gerações diferentes que em comum possuem a luta pela liberdade, mesmo que a partir de pontos de vista distintos. 

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Ana Claudino, em entrevista feita por e-mail com o Hypeness, inicia destacando justamente a já citada pluralidade. A publicitária explica que para o exercício da interseccionalidade é necessário que se entenda “que somos uma sigla plural e cada letra tem uma demanda específica que precisa ser atendida e respeitada”. 

Luiz Mott, por sua vez, destaca uma relação com o movimento negro classificada por ele como “muito intensa”. 

O Grupo Gay da Bahia foi fundado em fevereiro de 1980 e em 13 de maio do mesmo ano, nós participamos pela primeira vez de um ato público enquanto organização não-governamental. Foi a manifestação do Movimento Negro Unificado contra a falsa abolição [da escravidão]. O nosso contato com movimentos negros sempre foi muito intenso, já que na Bahia por volta de 70% da população é afrodescendente. É a mesma composição demográfica entre os membros do GGB.  Mais de 70%, 80% dos membros do Grupo Gay da bahia são afrodescendentes.

A luta contra o racismo e hmofobia se atravessam

A presença negra nesses espaços é uma realidade bastante conhecida, como já adiantou um dos fundadores do Grupo Gay da Bahia. Agora, até que ponto a quantidade de pretos e pretas se traduz em protagonismo dentro dos movimentos de luta contra a homofobia? Há um ruído, uma constatação de afro-brasileiros sobre a dificuldade de emplacar pautas e debates que equilibrem a luta contra o racismo e discriminação por orientação sexual. 

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Ana, criadora do ‘Sapatão Amiga’, dá algumas pistas ao falar sobre como os corpos de negros e negras são vistos por alguns membros da comunidade LGBTQI+. 

Eu não posso falar sobre as vivências dos homens negros GBTQIAP+, mas enquanto sapatão preta, sinto que essa hipersexualização nos corpos lésbicos negros aparece no sentido de retirar a nossa humanidade. Somos vistas como corpos animalizados onde as pessoas brancas querem buscar o prazer mas nunca nos enxergar como seres humanos que querem dar e receber afeto. A intelectual negra Lélia Gonzalez, em seu artigo ‘Racismo e Sexismo na Cultura do Brasil  analisou os estereótipos que rondam as mulheres negras, ela identificou dois: a ‘mulata do samba” e ‘a mucama’, o racismo como ferramenta de manutenção do poder da branquitude, construiu esses estereótipos colocando mulheres negras sempre a serviço das vontades da branquitude: seja na parte da hiperssexualização ou de trabalhos domésticos. As lésbicas negras vem num outro ponto dessa narrativa porque dizemos não para relações afetivos-sexuais com homens cisgêneros. A partir disso, começa um enfrentamento para legitimar a nossa existência e desejo.

Angela Davis, em artigo escrito no jornal Folha de São Paulo, reforçou o elo de ligação entre a luta dos negros e LGBTs. Segundo a escritora, ativista e professora da Universidade da Califórnia, “há um elo direto entre as lutas históricas por direitos civis para pessoas de ascendência africana nos EUA e as lutas contemporâneas por direitos civis para comunidades LGBTs. Isso significa que precisamos erguer a voz contra os esforços dos evangélicos negros que se recusam a reconhecer essas conexões”.

Angela Davis fala em elo histórico entre luta antirracista e LGBT

E a interseccionalidade na prática? 

Embora exista, a conexão entre povos oprimidos requer estímulos para que seja reconhecida e cultivada em prol da liberdade de todos. A educação é um dos elementos para que o protagonismo branco e a hipersexualização sejam suprimidos e lógicas racistas deixem de ser reproduzidas por quem também sofre opressões. 

Ana Claudino enxerga as ações afirmativas como pilar indispensáveis para o alcance do objetivo. Segundo ela, as cotas raciais “contribuem para a formação de saberes acadêmicos produzidos por pessoas negras, deixamos de ser apenas objetos de estudo e passamos a os tornar pesquisadoras e pesquisadores”

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Este, talvez, seja o ponto mais interessante da chegada nas universidades de negros e negras de origens e condições sociais diferentes. A mudança do perfil requer novos posicionamentos e implica principalmente na perda do protagonismo. Perceba, caro leitor, cara leitora, que a resistência se faz presente em todos os espaços. A nova moda para não mudar as peças do tabuleiro é a tal ‘cultura do cancelamento’, bobagem que se tornou um bode expiatório para brancos que não conseguem lidar com críticas e apontamentos. 

A dificuldade é tão grande, que encontraram o tal termo para que sirva como uma espécie de escudo. Os não brancos, mais uma vez, são colocados na posição de raivosos, bárbaros intolerantes. Nada de novo. Portanto, como Ana Claudino nos mostra a seguir, é indispensável que se dê voz aos pensamentos de intelectuais negras para jogar por terra tentativas de cristalizar e concretizar a interseccionalidade. 

Acompanho a produção de várias intelectuais negras que estão na academia e ao mesmo fomentando os debates e trazendo discussões acadêmicas para as redes sociais ou produzindo cursos acessíveis. Gosto bastante do trabalho da professora Fátima Lima da UFRJ e da poeta/pesquisadora Tatiana Nascimento, ambas são lésbicas negras fazendo essa ponte entre os dois territórios. Além delas, aprecio bastante o trabalho da Djamila Ribeiro que com a coleção Feminismos Plurais conseguiu popularizar discussões que antes estavam restritas apenas ao ambiente da academia ou alguns coletivos de movimentos sociais. Também tem a Joice Berth, Carla Akotirene e Juliana Borges que utilizam o Instagram para produzir conteúdo sobre esses debates teóricos.

Luiz Mott destaca o pioneirismo do Grupo Gay da Bahia, que segundo ele percebeu desde cedo que a interseccionalidade era o caminho. O antropólogo, todavia, reconhece que, como adiantou Angela Davis, teve algumas falhas na conexão entre a luta contra o racismo e homofobia. 

“Nós consideramos sim a importância do diálogo. Embora no início nunca tenhamos, reconheço isso com humildade e honestidade, considerado que a o combate à homofobia era impossível de ser feito sem o debate da luta contra o racismo”, pontua o fundador do Grupo Gay da Bahia. 

O racismo torna LGBTs mais vulneráveis ao preconceito e homofobia

O fundador do GGB destaca a criação ainda na década de 1990 do ‘Quimbanda Dudu’, de acordo com ele mais uma ponte em busca da interseccionalidade. “[O ‘Quimbanda Dudu’ foi criado] para fazer o levantamento da presença afro no movimento LGBT.  Temos uma lista com quase uma centena de personagens históricos e contemporâneos. Pretendemos construir um diálogo com o movimento negro para erradicar a homofobia entre os negros e erradicar o racismo entre a população LGBT. Esse grupo, o ‘Quimbanda Dudu’, publicou seis boletins que conta toda a nossa história na luta contra a Aids”

Mott ressalta que a interseccionalidade era uma compreensão rara entre movimentos sociais do Brasil. “Nem o Movimento Negro achava que o combate à homofobia era fundamental na luta global contra o racismo”. 

É preciso respeitar a fala de Luiz Mott, importante figura de luta pela liberdade de orientação sexual e fundador há mais de 30 anos do Grupo Gay da Bahia. Ao mesmo tempo que se deve pontuar a insatisfação de muitas pessoas negras com o ambiente vivido dentro dos movimentos LGBTQI+. 

“Dizer que todo um movimento é antirracista é uma generalização perigosa, acredito que seja melhor dizer que existem pessoas brancas LGBTQIAP+ que são antirracistas. Para mim foi importante porque pude mensurar as opressões que sempre me atingiram e eu nunca me deu conta, pontua Ana.

Ações afirmativas estão mudando o debate interseccional

‘O mundo é diferente da ponte pra cá’ 

O jornal O Globo ouviu ativistas negros que militam também contra a homofobia para entender a disparidade e a urgência da aplicação de medidas interseccionais. O que ficou evidente nas respostas dos entrevistados é justamente a realidade distinta vivida por sujeitos negros e brancos. Uma resposta chamou a atenção por descrever perfeitamente ação do racismo na vida brasileira. 

“Há questões diferentes. Enquanto os gays brancos lutam por matrimônio e igualdade, a realidade para a imensa maioria dos negros gays é lutar pelo sobrevivência” —  declarou ao jornal Washington Dias, diretor da rede Afro LGBT.

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Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), das secretarias de Atenção Primária em Saúde e de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) se uniram para mapear os registros de violências contra a população LGBTQI+ no Brasil. 

O resultado se baseia em notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ligado ao SUS. Como esperado, entre 2015 e 2017, metade das agressões contra LGBTQI+ teve pessoas negras como alvo. Dá, em média, 1 notificação a cada hora.  Total de 50% de negros em comparação com 41,4% de brancos vítimas de violência por causa da orientação sexual

“A luta por uma sociedade diversa sem opressões, deve contemplar todas as pessoas oprimidas, não adianta pedir libertação apenas para um determinado grupo social. Isso não é romper com as estruturas que nos oprimem e sim manutenção de poder, é ser reformista apenas”, dá o papo Ana Claudino. 

Luiz Mott reconhece que muito precisa ser feito, de ambos os lados. O fundador do Grupo Gay da Bahia, porém, pontua que a proximidade entre os dois movimentos, digamos, vem se intensificando. 

As diferentes implicações de assumir a orientação sexual no Brasil

“O Geledés, Fala Preta e outros, têm se manifestado favoravelmente ao que é defendido pelo movimento LGBTQI+“, diz Mott. 

Os ruídos estão presentes e cada vez mais expostos. A ideia de que a luta por diversidade abrange automaticamente todo o tipo de opressão está mais do que ultrapassada. A força das redes sociais e o crescente acesso ao ensino superior de pessoas pretas escancarou um abismo quando o papo é interseccionalidade. Afinal, o que significa ser branco e não hétero? E ser negro e ter uma orientação sexual diferente das hegemônicas? 

Não se trata apenas de criticar ou fingir que tais debates não eram levantados por Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e a própria Angela Davis. Eram. E suas ideias ecoam na mente de jovens negros e negras que compreendem a máxima de que não há como viabilizar uma sociedade saudável sem lutar contra TODAS as opressões, inclusive o racismo e a homofobia.  

“O processo de desumanização é uma das ferramentas do racismo alinhado a LGBTQIAP+Fobia para aniquilar subjetividades que fogem da norma padrão: pessoas brancas- cisgêneras-heterossexuais. Além disso, uma vida ‘fora do armário” ainda não é uma possibilidade para muitas pessoas LGBTQIAP+ e quando estamos falando de corpos negros  LGBTQIAP+ , o racismo também é uma ferramenta não apenas de impedir uma vida plena com as nossas sexualidade mas também de aniquilar nossas existências, seja pela morte física ou de nossas subjetividades”, sacramenta Ana Claudino. 

Para saber mais: 

Grupo Gay da Bahia (GGB): https://grupogaydabahia.com.br/

Sapatão Amiga: https://www.youtube.com/channel/UCM9ZfAhjedr1_GDrlr5s3Yg

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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