Debate

Jovem estuprada no Cafe de la Musique expõe manipulação de fotos feita por defesa de acusado

por: Karol Gomes

A blogueira Mariana Ferrer publicou mais um relato em suas redes sociais sobre a longa luta por justiça, após ter sido estuprada em 2018, enquanto trabalhava no Cafe de la Musique, em Santa Catarina.

No Instagram, ela mostrou que a defesa de seu agressor manipulou algumas de suas fotos, anteriormente publicadas para uma campanha de skincare. Mariana, como é possível ver mais abaixo, aparece sem a parte de cima do biquiní nas fotos adulteradas – como se isso fosse justificativa para o crime de violência sexual cometido contra a jovem. 

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O caso de Ferrer, que repercutiu muito na mídia, apresenta uma série de evidências claras que apontam André de Camargo Aranha, cujo material genético foi encontrado nas roupas da vítima, como culpado pelo crime. 

Na publicação, a blogueira mostra comparações das imagens falsas com as verdadeiras e pede apoio dos seguidores para que ela consiga a quebra do sigilo processual, de maneira que todos tenham acesso ao conteúdo jurídico. 

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“Gostaria que todos pudessem ter acesso ao processo que estranhamente ainda corre em sigilo (mesmo eu tendo inúmeras vezes solicitado, inclusive durante a instrução, a quebra do segredo de justiça). Venho pedir publicamente apoio (SEM VIOLÊNCIA FÍSICA OU VERBAL) para que me ajudem a conseguir a QUEBRA DO SIGILO PROCESSUAL perante a lei”, escreveu ela.

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a defesa de forma sórdida e ardilosa protocolou dentro do processo fotos manipuladas, como se eu estivesse nua (nunca fotografei assim) e anexou junto um site indevido fazendo correlação ao produto de skincare que já divulguei como influenciadora juntamente das imagens deturpadas se caso fosse real, eu poderia ser DOPADA E ESTUPRADA? justificaria um crime hediondo? a resposta é óbvia: NÃO. mas a forma que a defesa encontrou – em vão – foi de FORJAR descaradamente provas maliciosas para um crime que não tem justificativa. querem a todo custo me “transformar” no todas as envolvidas(os) são e fazem cometeram contra mim, ASSÉDIO MORAL e PERJÚRIO durante minha oitiva. o advogado do réu ousou em dizer: “muito bonita por sinal, muito sensual”. fui constrangida, humilhada, desrespeitada e cheguei a ser ofendida com palavras que prefiro não repeti-las, por um homem que também tem idade para ser meu pai. é preciso no mínimo ter ética ao se dirigir a uma vítima durante uma oitiva de instrução criminal. gostaria que todos pudessem ter acesso ao processo que estranhamente ainda corre em sigilo (mesmo eu tendo inúmeras vezes solicitado, inclusive durante a instrução, a quebra do segredo de justiça). venho pedir publicamente apoio (SEM VIOLÊNCIA FÍSICA OU VERBAL) para que me ajudem a conseguir a QUEBRA DO SIGILO PROCESSUAL perante a lei De acordo com o parecer assinado pela subprocuradora-geral da República Mônica Nicida Garcia, a Constituição da República estabelece como regra a publicidade dos atos processuais e não o sigilo. “Tem-se que o sentido teleológico da imposição do segredo de justiça é de resguardar a privacidade da vítima, e não de seu algoz, de modo que este dispositivo legal deve ser interpretado levando-se em consideração o fato de que a imposição de sigilo destina-se à proteção da vítima, não havendo nenhuma razão para entender-se a benesse ao acusado”, afirma no documento POR SFT – A publicidade dos atos processuais é mais do que uma regra, é uma garantia importante para o cidadão, na medida em que permite o controle dos atos judiciais por qualquer indivíduo integrante da sociedade.

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Ferrer também apontou o machismo dos advogados da defesa, que estão tentando construir uma má reputação para ela diante do juiz. “Se caso fosse real (as imagens), eu poderia ser DOPADA E ESTUPRADA? Justificaria um crime hediondo? A resposta é óbvia: NÃO”, argumentou a blogueira.

Entenda o caso:

O crime hediondo do qual ela se refere aconteceu em 2018, no Café de Lá Musiqueum beach club de alto padrão na cidade Florianópolis, Santa Catarina. Na noite em que ocorreu o estupro, Mari estava trabalhando como embaixadora de uma festa no Cafe de La Musique, que possui mais 13 unidades no Brasil. 

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A influenciadora digital publicou uma fotografia com uma calcinha manchada de sangue ao lado de uma solicitação de exame pericial. Ela acusa a Polícia Civil de omissão e de proteger a identidade do autor do crime por se tratar de uma pessoa com poder. 

O delegado responsável pelo caso foi afastado. Ele é acusado por Mariana de entrar em sua casa sem mandado judicial. Em busca por apoio e justiça, decidiu contar sua história no Twitter. 

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“Não é nada fácil ter que vir aqui relatar isso. Minha virgindade foi roubada de mim junto com meus sonhos. Fui dopada e estuprada por um estranho em um beach club dito seguro e bem conceituado da cidade”, afirma.

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Mariana revelou, em seu relato, que foi dopada e que, por isso, não se lembrava do rosto do agressor. Ela precisou tomar coquetel de remédios contra a incidência de possíveis doenças durante 30 dias. 

“Ele não se aproximou de mim quando eu estava lúcida. Eu não tenho lembranças dele. Fui levada para um lugar desconhecido por mim e acredito que também seja para a grande maioria das pessoas que lá frequentam. Nenhuma das pessoas que me acompanhava no dia me socorreu, pelo contrário, me abandonaram”, relembrou. 

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Mariana Ferrer horas antes de ser violentada

Leonardo Pereima de Oliveira Pinto, advogado do Cafe de La Musique, afirma que o estabelecimento de luxo trabalhou junto da polícia, mas não procurou Mariana depois do ocorrido ou deu algum tipo de assistência. 

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A defesa explica que a ausência se deu pela ‘postura’ da jovem nas redes sociais. “Mariana passou a atacar o Cafe como se tivesse participado daquilo tudo”, declarou Leonardo ao site Universa, da UOL.

Hoje, Mariana segue trabalhando com redes sociais, mas sempre busca falar sobre como foi afetada pelo crime e sobre a busca por justiça. Uma delegada está agora à frente das investigações, no entanto ainda não passou os autos do inquérito para a defesa. 

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assista ao vídeo completo e mais detalhado no yt (caso Mariana Ferrer no canal Jaqueline Guerreiro) compartilhe e marque cobrando justiça e transparência processual: @cnj_oficial @mptsc @mptrabalho @policiafederal #justiçapormariferrer atualizações processuais: na segunda feira (20/07) acontecerá as últimas audiências de instrução e julgamento, que será realizado através de videoconferência aonde eu e minha mãe seremos finalmente ouvidas, também será ouvido uma testemunha de defesa e em sequência o réu. todos no mesmo dia. peço que reforcem as orações pois Deus esteve, está e estará sempre no comando. espero imparcialidade dos órgãos @tjscoficial @ministeriopublicosc havendo assim justiça na íntegra – condenando o réu e todos os cúmplices do crime (que ainda não foram indiciados) mas devem ser devidamente punidos perante a lei. seguimos todos atentos, orando e clamando por justiça. muito obrigada a todos pelo apoio. obs: não compactuo com nenhum tipo de violência verbal ou ataques virtuais. minha luta é exclusivamente pelos meus direitos como cidadã, mulher e vitima de um crime hediondo que precisa haver punição aos culpados independente de suas contas bancárias e grau de influência. crime é crime seja quem for o autor.

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Justiça para todas:

Em junho deste ano, Ferrer usou as redes sociais para contar que recebeu diversos relatos de casos similares no mesmo estabelecimento e que, com sua influência, irá dar oportunidade a quem não pode denunciar ou não teve justiça a partir de sua denúncia.

“Estou com uma equipe de advogadas e estamos reunindo relatos de outras vítimas que já foram dopadas e sofreram algum tipo de abuso dentro do mesmo estabelecimento que fui dopada e violentada”, escreve Mariana na postagem, que acrescenta: “Esse é o momento de quebrar o silêncio feito durante todo esse tempo”.

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De acordo com sua advogada, Jackie Francielle Anacleto, a repercussão nacional do caso fez com que outras mulheres comentassem na postagem e enviassem mensagens à Mariana falando que passaram por situações similares no mesmo beach club. 

“Estamos reunindo os relatos para depois enviar ao Ministério Público de Santa Catarina e abrir uma ação penal”, explicou a advogada em entrevista ao Correio SC.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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