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Médico que fez aborto de criança estuprada cobra ética e critica exposição; tio confessa crime, diz polícia

por: Yuri Ferreira

No último domingo (16), o Brasil viu um escândalo grosseiro acontecer. Uma criança de 10 anos estuprada pôde fazer um aborto legal em Recife (PE). Centenas de conservadores e fundamentalistas religiosos protestaram em frente ao hospital contra a realização do procedimento, amparado pela legislação brasileira. Grupos extremistas tentaram invadir a maternidade para impedir a interrupção da gestação, que foi comandado pelo médico Olímpio Moraes Filho.

Ele denunciou a posição de grupos fundamentalistas, criticou a exposição dos dados sobre a criança – que corriam em segredo de Justiça e foram vazados – e cobrou ética dos profissionais da medicina capixaba que se recusaram a fazer o procedimento na criança. Em 2008, o mesmo obstetra foi excomungado da Igreja Católica por realizar a interrupção da gestação de outra criança, essa de 9 anos, que estava grávida de gêmeos após ser estuprada por seu padrasto.

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O obstetra Olímpio Moraes Filho, responsável pela interrupção da gestação, está sofrendo ameaças de grupos religiosos fundamentalistas

Para entender o caso: a criança de dez anos foi estuprada por anos por seu tio – que confessou o crime hoje (leia mais abaixo) – e, com a descoberta a gravidez originada do crime de pedofilia, os familiares da vítima se dirigiram ao HUCAM (Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes), em Vitória, no Espírito Santo.

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Lá, os profissionais de saúde se recusaram a fazer o procedimento pois a descoberta da gravidez já havia ultrapassado as 12 semanas, período previsto pela lei. Após decisão judicial em favor da vítima, a criança foi a Recife e fez o procedimento na capital pernambucana. Em entrevista ao UOL, Olímpio confirmou que a vítima está bem.

Ela está bem aliviada. O sofrimento nesses últimos dias foi terrível, as ameaças que ela sofreu. Eu espero que esse sofrimento daqui para a frente seja atenuado, e vai depender muito de como o caso vai ser conduzido, respeitando o sigilo, para que ela possa recuperar a sua vida.

Médico cobra ética de profissionais de saúde

Olímpio Moraes Filho, ainda em conversa com o UOL, criticou a atitude dos médicos capixabas. “O código de ética médico permite a objeção de consciência verdadeira, isso acontece. Mas ele [o médico] tem a obrigação também de não inviabilizar o direito a saúde. Deve ser dada uma opção, não pode ser negada”. Vale ressaltar que a Grande Vitória, que engloba a capital capixaba e cidades ao redor, é a segunda maior região metropolitana em número de evangélicos (36,45%), de acordo com dados do IBGE.

O histórico de Olímpio em defesa do aborto legal e seguro é amplo. Em um discurso na Câmara dos Deputados, em 2017, o obstetra defendeu a posição. Além de relembrar que a recuperação de abortos clandestinos e caseiros é o segundo processo que mais tira recursos da obstetrícia no SUS, o médico reiterou as dimensões de classe da questão no país:

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 “Acho que a gente está salvando vidas, porque essas mulheres morrem. Essas mulheres que morrem não estão sentadas aqui. Se fosse as nossas filhas, filhas de senadores, de deputados, que morressem de aborto, isso aí já tinha mudado. Como são mulheres que não estão sentadas aqui, são mulheres pobres… No Brasil, o aborto não é crime para uma parcela da população, que tem um aborto seguro, nos hospitais, disse na ocasião.

“Um dos médicos mais ricos de Pernambuco, que é muito católico, faz aborto e toda sociedade sabe. Mas ninguém vai prender porque ele atende as amantes dos deputados e senadores. Se atendesse pessoas pobres, estaria preso”, questionou.

Veja o vídeo:

Pedófilo responsável pela gravidez confessa crime

Muito se questionou porque os fundamentalistas religiosos perseguiram a criança e os profissionais de saúde envolvidos no caso e não foram atrás do pedófilo estuprador que cometeu o crime – lembrando que esses grupos adoram levantar a bandeira anti-pedofilia.

Eles não foram, mas a polícia foi: desde a denúncia do crime, o homem havia desaparecido de São Mateus, no norte do Espírito do Santo. Posteriormente, buscas na Bahia e em Guriri (ES) foram mal-sucedidas. Então, finalmente, as autoridades descobriram o paradeiro do estuprador. Ele estava em Betim, Minas Gerais.

A prisão do estuprador e pedófilo foi confirmada pelo governador do ES, Renato Casagrande (PSB), que comentou o caso no Twitter. “Que sirva de lição para quem insiste em praticar um crime brutal, cruel e inaceitável dessa natureza”.

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O Ministério Público Federal investiga o HUCAM (Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes), que se recusou a fazer o procedimento e estendeu o sofrimento da vítima. A Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que administra o hospital, tem de se pronunciar até quinta-feira (20), às 17h. O MPF também apura a responsabilidade pelo vazamento dos dados da criança, que tem sido achacada, assim como seus familiares, por realizar procedimento amparado pela lei brasileira.

HUCAM, em Maruípe, em Vitória, também passará por investigação do MPF

Agora, a maternidade responsável pela interrupção da gestação vai colher amostras de DNA do homem e comparar com o encontrado na menina para comprovar o estupro e a paternidade criminosa. “Vamos traçar os perfis de DNA dessas duas amostras, enquanto o perfil de DNA do preso vai ser traçado no outro estado. O normal é ele negar, dizer que não foi ele, mas com isso, se apresentam provas materiais do crime de estupro e do que chamamos de paternidade criminosa”, disse a chefe da Polícia Científica de Pernambuco, Sandra Santos.

Segundo apuração da imprensa regional, o tio da criança assumiu o crime de maneira informal às autoridades. “Informalmente, aos policiais, ele afirmou que realmente possuía alguma intimidade com essa menina e fez abusos contra ela. Contudo, a equipe da delegacia vai explorar todas as hipóteses que foram apresentadas”, afirmou o Chefe da Polícia Regional Norte do ES, Ícaro Ruginsk.

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Fotos: Reprodução/Youtube Foto 1: Reprodução/Youtube Foto 2: Divulgação/UFES


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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