Matéria Especial Hypeness

Música no espaço: quando a arte chegou em lugares que nem o homem pisou

por: Yuri Ferreira

Vamos supor que os alienígenas cheguem na Terra com a ameaça do destruir todo mundo ou nos colonizar. Um dos poucos argumentos para justificar a existência da vida humana – ao menos na minha cabeça – é a arte que nós produzimos. Não é como se a história fosse repleta de paz, amor e boas ações (o Hypeness mostra muito do que tem de bom sendo feito no planeta, mas, dependendo da sua lente de mundo, o equilíbrio pode pender para o lado negativo.) A arte, entretanto, ao longo da história, sempre foi encantadora, aos nossos olhos e, talvez, fosse uma boa ponte de contato para estabelecer uma comunicação e intercâmbio com os povos intergaláticos.

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Foi a partir dos anos 1960 que os cientistas começaram a pensar em enviar produções culturais terráqueas para o espaço sideral. Em plena corrida espacial, alguns ideólogos da pesquisa científica no Universo acreditaram que a música e as artes poderiam ser uma boa forma de tentar mostrar nossas melhores qualidades para os extraterrestres.

Nesse artigo, vamos contar um pouco sobre as vezes em que a música foi pro espaço – literalmente – e, caso os ETs descubram a gente, que tipo de som eles vão ouvir.

Disco Voyager de Carl Sagan

Instruções de reprodução do disco de ouro enviado na missão Voyager

Em 1972, o astrofísico Carl Sagan idealizou as placas Pioneer. Elas eram objetos de ouro que indicariam como são os humanos, qual o seu tamanho e em que posição do universo nós estamos. Acopladas à missão Pioneer 10, que faria algumas observações em Marte e depois seguiria seu rumo para fora do Sistema Solar, a ideia de Sagan era mostrar a possíveis seres extraterrestres inteligentes como são os seres humanos. A proposta polêmica foi aceita com resguardo da comunidade científica, especialmente porque continha a figura de pessoas nuas no objeto.

Cinco anos depois, Sagan quis expandir sua proposta. Na missão Voyager 1, de 1977, ele reuniu um time de cientistas para fazer uma coletânea de sons, imagens e músicas que explicassem aos extraterrestres quem somos. Os discos de ouros foram enviados com 116 imagens de coisas comuns na terra, como salas de aula, fórmulas matemáticas e monumentos históricos.

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“Nosso objeto só será encontrado e o disco só sera reproduzido se houver uma sociedade realmente avançada fora do planeta Terra. Mas o lançamento dessa garrafa no mar cósmico diz algo muito esperançoso sobre nós mesmos”, afirmou Sagan, à época.

Quando falamos de música, a coleção compilou músicas tradicionais de todos os continentes: há canções de povos indígenas latino-americanos, hits de Chuck Berry, cantos gregorianos e composições eruditas de Beethoven, Bach e Stravinsky. Nessa playlist do Spotify, você pode conferir as quase duas horas que os aliens escutarão caso descubram (e consigam dar play) no disco:

(Atualmente, as Voyagers 1 e 2, que contém os discos, se encontram na parte mais longínqua do sistema solar, mas só irão sair desses domínios em 300 anos.)

Beth Carvalho em Marte

Manchete do Estadão de 1997 sobre o samba que acordou o Sojourner em Marte

Sim, o samba já tocou em Marte. Em 1997, durante a missão Pathfinder, os cientistas da NASA decidiram escolher algumas canções para servir de despertador para o pequeno robozinho pioneiro na exploração da superfície marciana, o Sojourner, uma espécie de rover Pré-Curiosity. Foram tocados diversos clássicos da música americana, majoritariamente, como Madonna e U2, além de algumas composições eruditas, mas teve uma que saiu da curva.

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‘Coisinha do Pai’, composição de Almir Guineto, Luiz Carlos e Jorge Aragão, imortalizada na voz de Beth Carvalho, foi reproduzida no dia 12 de julho de 1997 para o robôzinho, em decisão da engenheira aeroespacial brasileira Jacqueline Lyra, que fazia parte da equipe que comandava a missão. Entretanto, a versão escolhida para os ouvidos marcianos não foi a de Beth, mas de Elba Ramalho e Jair Rodrigues, que você pode escutar aqui:

Revolução Cultural no espaço

A música foi a forma de celebrar o envio do primeiro satélite chinês ao espaço, em 1970

primeira vez que alguém tocou música no espaço foi em 1965, quando dois astronautas estadunidenses levaram uma gaita na missão Gemini 1A e tocaram MUITO MAL (sério), a canção Jingle Bells dentro da nave. Mas a primeira música a ser tocada e transmitida no espaço e na Terra foi ‘East is Red’ (O Leste é Vermelho), uma canção da Revolução Cultural chinesa que glorifica o controverso líder da China comunista, Mao Zedong.

Foi na missão Dong Fang Hong I, que enviou o primeiro satélite chinês ao espaço, em 1970, que a canção tocou no espaço e a retransmitiram para a Terra, em um símbolo de demonstração de poder e consolidação tecnológica de um país que, 50 anos depois, seria o principal concorrente dos EUA na corrida espacial.

A primeira cantada no Espaço

Foram os astronautas da Missão Apollo 17 que cantaram pela primeira vez uma canção em solo lunar

Não, não uma cantada cantada, de dar em cima. Mas a primeira vez que se cantou fora da terra foi na Missão Apollo 17, quando os astronautas Harrison Schmitt e Eugene Cernan mandaram aquela cantoria em terreno lunar. A canção ‘Fountain in the Park’, um tema clássico da cultura americana, teve sua letra alterada: ao invés de uma caminhada no parque, os astronautas cantaram sobre sua caminhada na Lua. (Dá um pouquinho de inveja, né?)

Desde então, muita gente começou a fazer gravações e canções no espaço sideral. Em 2016, o Comandante Chris Hadfield, da Nasa, cantou David Bowie na Estação Espacial Internacional, em um dos clipes mais legais dessa década:

Elon Musk e David Bowie

Tesla Roadster abandonou a Terra para escutar David Bowie no espaço sideral

Já puxando o David Bowie daqui de cima e passando para um dos mais conhecidos exploradores do espaço recentemente, vamos falar de Elon Musk. Em fevereiro de 2018 ele lançou um Tesla Roadster no Espaço Sideral. O carro, que se move a uma velocidade de 12 mil quilômetros por hora e foi uma dos primeiros empreendimentos midiáticos da exploração espacial comandada por Musk.

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Caso algum alienígena um dia cruze com o manequim-astronauta que dirige um carro no sistema solar, e caso ainda haja baterias no carro da Tesla, o extraterrestre vai poder ouvir dois clássicos de David Bowie nos fones de ouvido do piloto: de um lado está tocando ‘Life on Mars?’ e do outro, ‘Space Oddity’. Desde o lançamento do carro ao espaço, a primeira música tocou 248,918 vezes e a segunda, 335,406 vezes.

Dá uma olhada:

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Fotos: Destaques: Wikimedia Commons


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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