Debate

Os bairros e cidades onde a cultura negra florescia nos EUA e que foram destruídos pelo racismo e o abandono

por: Vitor Paiva

O racismo é capaz de destruir as bases de qualquer possibilidade de igualdade, civilidade, justiça e paz – mas não somente: a discriminação racial destrói até mesmo bairros e cidades inteiras. É o caso dos diversos locais nos EUA onde, apesar das leis de descriminação racial, apesar do racismo como política oficial de perseguição e desigualdade, diversas populações negras conseguiram se estabelecer e se desenvolver econômica e socialmente em verdadeiros tesouros arquitetônicos e sociais – feito bairros típicos do subúrbio costumeiramente branco das classes médias no país, mas que acabaram destruídos e transformados em redutos de abandono e pobreza por conta da força do racismo que ainda tanto impera nos EUA e no mundo.

Acima, família no bairro; abaixo, uma casa majestosa em Sugar Hill

É o caso, por exemplo, do bairro de Sugar Hill, na cidade de Jacksonville, na Flórida, estabelecido no século XIX como um endereço da classe média negra do país. Advogados, médicos, professores, construtores e muitos outros que conseguiam superar os grilhões e o horror do preconceito racial e do contexto absolutamente desigual do fim da escravidão construíram Sugar Hill como um típico bairro da classe média estadunidense – mas habitado pela mais proeminente população negra.

Outra casa em Sugar Hill, em tempos áureos…

Era um bairro dos sonhos, mas a deliberada construção de uma estrada expressa destruiu a região quase que por inteiro – hoje o bairro é símbolo do abandono ao redor de estacionamentos, viadutos, ruínas e pobreza.

…e nessa e nas próximas fotos a realidade de Sugar Hill hoje

O mesmo aconteceu numa praia intitulada American Beach, localizada próxima a Sugar Hill, ao norte de Jacksonville. No abjeto período em que negros não podiam frequentar a mesma praia da população branca nos EUA, a praia de American Beach foi estabelecida como justamente a faixa de areia em que o racismo não imperava – e que a população negra podia estar, ser, viver e se divertir. Ray Charles, Cab Caloway e James Brown eram personagens frequentemente vistos em suas areias, assim como nos hotéis, restaurantes e boates que funcionavam na efervescente região.

A praia de American Beach

Com o fim da segregação oficial, em meados dos anos 1960 em todo o país, a região de American Beach foi aos poucos abandonada pela população e pelo interesse do estado – e hoje não passa de um fantasma de seu glorioso passado.

Os exemplos são muitos, e podem ser notados por todo os EUA – assim como evidentemente por todo o planeta, e não seria preciso muito esforço para pensar na geografia e na arquitetura de cidades como Salvador, São Paulo e o Rio de Janeiro para ter certeza que o mesmo fenômeno aconteceu e acontece aqui. A matéria original, trazendo mais exemplos desse processo nos EUA, pode ser lida no site Messy Nessy.

Prédio abandonado em American Beach atualmente

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© fotos: Messy Nessy/créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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