Reportagem Hypeness

Queernejo: movimento LGBTQIA+ quer transformar o sertanejo (e a música) no Brasil

por: Veronica Raner

Ao longo de toda a infância e adolescência, Gabriel Felizardo tentou fugir de tudo que remetesse ao sertanejo. Apesar de ser filho de um dos maiores nomes do gênero nas décadas de 1980 e 1990 (o cantor Solimões, da dupla com Rio Negro), ele, um jovem gay, não se sentia representado no estilo. Durante boa parte de sua juventude, Gabriel viveu uma relação de amor e ódio com o sertanejo, até que percebeu que poderia usar sua indignação para revolucionar a cena. Aos 21 anos, sob o nome artístico de Gabeu, ele é um dos expoentes do Queernejo, um movimento que pretende transformar não só o sertanejo, mas toda a indústria da música. 

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Gabeu mistura sertanejo ao pop e é um dos ‘fundadores’ do movimento Queernejo.

A palavra queer vem do inglês e se refere a todo aquele que não se entende como parte do padrão heteronormativo ou cisgênero (quando alguém se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer). Antigamente, usava-se dela para fazer chacota de pessoas LGBTQIA+. Porém, a comunidade gay se apossou do termo e passou a utilizá-lo com orgulho. Algo muito próximo do que os artistas do Queernejo pretendem fazer.  

A representatividade nunca foi uma coisa importante dentro desse meio e desse gênero. Todas as figuras importantes do sertanejo sempre foram homens, em sua maioria cisgênero e brancos. Algo bem padronizado mesmo”, explica Gabeu, em entrevista ao Hypeness. 

Em suas músicas, o cantor costuma abordar temáticas gays de forma divertida, contando histórias que não necessariamente aconteceram com ele, como nas letras de “Amor Rural” e “Sugar Daddy”. “Eu acho que todo esse tom cômico eu herdei um pouco do meu pai. Porque ele é essa figura que faz as pessoas rirem. Crescer com essa figura também me influenciou, não só na música mas na persona também”, reflete.

Gali Galó tem uma história parecida com a do amigo, que conheceu graças à música. Na infância, ela ouvia tudo o que o sertanejo oferecia. De Milionário e José Rico até Edson e Hudson. Mas a eterna narrativa do homem hétero branco pesou quando Gali entrou na adolescência e começou a entender a sua própria sexualidade. Ela não se sentia representada nem na música sertaneja, nem nos locais onde ela tocava. Anos mais tarde, voltou às raízes com o intuito de transformá-las. 

Assim como Gabeu, ela também enxerga em algumas de suas composições um tom mais chistoso. “Uma vez eu li uma frase que dizia que a comédia é uma forma engraçada de falar coisas sérias. Ali foi o momento que eu fechei a minha personalidade artística, não só de resgatar as minhas raízes, de assumir a minha identidade de gênero, a minha sexualidade, mas também de assumir a minha graça, o meu humor e usar isso a meu favor”, diz a autora de “Caminhoneira”. 

No despertar da adolescência, Gabeu encontrou alento nas divas da música pop internacional, como Lady Gaga, de quem é fã. O mesmo aconteceu com outros de seus colegas de movimento, além de Gali, como Alice Marcone e Zerzil. As histórias dos quatro são bastante semelhantes nesse sentido. “O pop sempre abraçou o público LGBT”, explica Zerzil. 

Agora, o grupo pretende fazer do sertanejo um lugar que abrace narrativas da comunidade gay e represente também as suas histórias. “Eu não posso falar por todos, mas o meu objetivo enquanto cantor de Queernejo é fazer com que pessoas, especialmente os LGBTs do interior, se sintam representadas e comecem a se enxergar na música sertaneja, que foi algo que eu busquei durante muito tempo e não encontrei”, diz Gabeu.

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Nascido em Montes Claros, em Minas Gerais, Zerzil cresceu cercado da cultura sertaneja. A história se repete e, durante os primeiros anos da juventude, no auge da retomada do sertanejo catapultado pelo estilo universitário no fim dos anos 2000, ele se apegou ao pop. “Na adolescência a gente se afasta porque quem a gente conhece que curte sertanejo são aqueles ‘heterotops’ em lugares que não te aceitam. Lugares em que você chega sendo ‘gay demais’ e acaba sendo excluído. A gente acaba evitando locais mais heteronormativos.

Zerzil se reaproximou do sertanejo depois de um rompimento amoroso.

Um rompimento amoroso foi um dos fatores a trazer Zerzil — que se define no Instagram como um “integrante do complô mundial pra deixar a música sertaneja mais viada” — de volta para suas raízes: a famosa sofrência. “Me mudei para São Paulo por causa de um amor e, quando eu me mudei, ele terminou comigo pelo WhatsApp. Eu só conseguia ouvir sertanejo porque parecia que era a única coisa que saberia entender a minha dor”, relembra. Zerzil tinha lançado um disco pop em 2017, mas se viu obrigado a voltar para o sertanejo, com uma nova motivação. “Quando eu vi, eu estava cheio de músicas sertanejas (compostas) e falei: ‘eu vou abraçar isso! Não tem gay no sertanejo, é hora de começar esse movimento.

Foi no ano passado que o Queernejo abriu suas asas. Gabeu e Gali Galó decidiram lançar uma música juntos dentro do projeto de “pocnejo”, voltado para o público gay e iniciado por Gabeu. “Nesse dia a gente pensou que deveríamos ampliar o movimento para todas as siglas. Decidimos chamar de Queernejo e começamos a formar essa turma”, explica a cantora. 

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O feminejo e suas influências no queernejo

A segunda metade dos anos 2010 foi fundamental para preparar o terreno da chegada do Queernejo. Quando Marília Mendonça, Maiara e Maraísa, Simone e Simaria e Naiara Azevedo começaram a ganhar espaço de destaque no gênero musical, o território pareceu menos hostil. O feminejo, como ficou conhecido o movimento, mostrou que havia lugar para as mulheres dentro do sertanejo. Por outro lado, ele não afastou o discurso heteronormativo e até machista, mesmo entre mulheres, que o sertanejo moderno se acostumou a cantar. 

O feminejo já é um passo além do sertanejo, politicamente falando, mas a gente só vê temáticas heteronormativas. Mulheres com cabelos alisados ou lisos tentando alcançar um padrão de beleza que a indústria ainda alimenta. E algumas delas não têm essa consciência política de que poderiam estar desconstruindo essa heteronormatividade”, reflete Gali. 

Gali Galó é uma das integrantes do movimento Queernejo: sertanejo, pop e todos os ritmos que quiserem entrar.

Há poucas semanas, Marília Mendonça foi a prova do espaço que o Queernejo precisa ocupar. Durante uma live, a cantora fez piada com uma história contada por músicos de sua banda. O alvo da chacota era um deles, que havia se relacionado com uma mulher trans, como Alice Marcone, outra expoente do movimento queer. Para ela, a cantora mais ouvida do Brasil não tem que ser “cancelada”, como a internet diz. Alice acredita que a grande questão que o episódio revela é que toda a estrutura da música sertaneja é cercada por uma cultura machista, masculina, hétero e branca e isso não vem dos artistas somente, mas de todo o sistema de produção. 

A Marília estava ali cercada por homens da banda dela. A piada é levantada pelo  tá ali cercada de homens. A piada é levantada pelo tecladista e ela dá corda. Isso me fez pensar que a gente pode ter feminejo à vontade, mas o sertanejo ainda é pautado por uma visão machista, masculina e hétero e branca por causa de um sistema de produção dos músicos, das gravadoras, dos empresários, do dinheiro que banca esses artistas. Esse dinheiro é muito hétero, muito branco, muito cis. É dinheiro do agronegócio, de Barretos… É esse o capital que sustenta o sertanejo hoje e esse é o ponto. Não existe algo que o Queernejo possa refazer se você não pensar nessa estrutura. Como que a gente vai construir estratégias subversivas dentro desse contexto?”, questiona.

Alice Marcone acredita que episódio transfóbico de Marília Mendonça precisa ser usado para conscientização, não para o ‘cancelamento’.

Apesar do cenário, nem Alice nem nenhum dos artistas do Queernejo se sente desmotivado para seguir a caminhada. Muito pelo contrário. Antes da pandemia do coronavírus frustrar a maioria dos planos individuais de cada um deles, havia a ideia de se fazer o primeiro festival de Queernejo do Brasil em 2020, o Fivela Fest. O evento ainda vai acontecer, mas de forma virtual, nos dias 17 e 18 de outubro. 

Queernejo não é só sertanejo, é um movimento

Diferente do sertanejo tradicional, o Queernejo se permite debruçar sobre outros ritmos. O movimento não é sobre um gênero apenas, mas sobre beber na fonte da música rural e reverberá-la nos mais diferentes formatos. 

A música de Zerzil já mergulhou no bregafunk nordestino e da bachada caribenha. O cantor conta que tem buscado cada vez mais repercutir novas sonoridades em suas músicas. O principal mote de suas canções, além do fortalecimento da cena LGBTQIA+, é também experimentar novos ritmos dentro do sertanejo. “O objetivo é fortalecer a cena. Quanto mais junto a gente estiver, quanto mais gente a gente tiver, melhor. É hora de dar lugar para o LGBT tanto como púbico quanto como artista no sertanejo”, diz. 

Zerzil (ao centro, de chapéu) no clipe da música ‘Garanhão do Vale’, versão de ‘Old Town Road’, de Lil Nas X.

Bemti, nome artístico de Luis Gustavo Coutinho, concorda. O nome tem raízes no Cerrado: vem do passarinho, Bem-Te-Vi. Com um som mais indie e vinculado à música eletrônica, ele busca usar da viola caipira um elemento para sempre retornar às suas origens. Criado em uma fazenda próxima ao município de Serra da Saudade, em Minas Gerais, ele se apegou ao indie quando se afastou da música rural. Acontece que também no gênero alternativo ele não encontrou a representatividade que não sabia que precisava. “Eu acho que eu teria um processo de aceitação diferente se eu tivesse tido mais referência das bandas alternativas que eu acompanhava”, conta. “Vários ídolos que eu tive foram sair do armário só lá para 2010. Quando eu era um fã desesperado por referência, esses caras não eram assumidos.”

Sobre o Queernejo, ele vê algo que se assemelha a um encontro do sobrenatural. “Nós estávamos todos pensando a mesma coisa só que em lugares separados. E agora a gente se uniu. A gente tem junto essa essência de transgredir o caipira, de ser uma abertura maior pra diversidade que não está na música sertaneja e na música caipira tradicional. A gente não começou conscientemente um movimento. Estávamos todos pensando coisas parecidas e a gente se encontrou. Eu não sinto que a gente formou um movimento. Eu acho que a gente se uniu em um movimento.

Para Gali, o que faz do Queernejo algo para além do sertanejo é justamente o abrir portas, tanto na diversidade de narrativas, quanto nos ritmos. “O Queernejo não é só sertanejo. Não é tudo sertanejo. É Queernejo porque, além das temáticas que a gente traz e das narrativas serem cantadas por pessoas que levantam a bandeira LGBTQIA+, outros ritmos musicais também são permitidos nessa mistura, não é o puro sertanejo.

Bemti usa a viola caipira como instrumento central de suas composições.

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Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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