Debate

Racismo religioso faz mãe perder guarda da filha após participar de sessão de Candomblé

por: Yuri Ferreira

Segundo informações do Universa, uma mãe teve a guarda de sua filha retirada pelo Conselho Tutelar após ter feito um ritual de iniciação no Candomblé. Conforme apuração do UOL, a avó evangélica da criança apresentou uma denúncia de maus tratos após saber que a neta participou de uma cerimônia religiosa.

No dia 23 de julho, policiais militares foram até o terreiro de Candomblé localizado em Araçatuba, no interior do estado de São Paulo, e, mesmo notificando as forças de segurança de que não poderiam abandonar o local pois estavam no meio de uma cerimônia, foram levadas à delegacia. A menina disse que não passava por maus tratos e que estava em um ritual religioso, mas nem a polícia, nem o Conselho Tutelar ouviram os argumentos.

 Cristiele França, a radialista que leva o candomblé e os orixás para o cotidiano de Salvador

A intolerância religiosa no Brasil tem alvo: as religiões de matriz africana. Caso de menina com guarda retirada da mãe é mais uma face do racismo religioso, comum na sociedade brasileira

A jovem passou por um exame de corpo de delito no IML, mas nenhum sinal de maus tratos foi encontrado no corpo. A denúncia, feita pela avó da jovem, ainda incorporava a prática de abuso sexual, que também não foi comprovada. A única diferença entre a adolescente entre o antes e depois do ritual de iniciação era a cabeça raspada, uma prática que, segunda a própria jovem, mostrava que ela estava se tornando filha de Iemanjá, divindade feminina do Candomblé.

“Nossos fundamentos e ritos estão garantidos por lei (…) Jamais devem ser confundidos com ato de tortura ou lesão corporal. Ressaltamos que, no Brasil, tais fundamentos são preservados há mais de 350 anos e, sendo de matriz africana, são fundamentados há séculos”, afirma Obadará Africanidade, organização que representa as religiões de matriz africana em Araçatuba.

A família voltou a prestar queixas policiais e entrou na promotoria alegando que a mãe deveria perder a guarda de sua filha por causa da cabeça raspada. A Justiça acatou a denúncia, retirou a guarda da mãe e passou o cuidado da criança para a avó evangélica.

– Contra intolerância, evangélicos doam R$ 11 mil para reconstrução de terreiro incendiado no RJ

O pai de santo da família disse que nunca havia visto algo parecido em sua vida, mesmo com a perseguição às religiões de matriz africana, grupo religioso mais afetado pela intolerância religiosa no Brasil e objeto de 25% das denúncias de ataques à religião. A cada 15 horas há uma denúncia de violência com base na intolerância religiosa no Brasil.

Agora, a mãe da jovem só pode vê-la uma vez por semana por cinco minutos. A menina já fugiu da guarda da avó, mas foi acompanhada novamente por policiais. O caso segue em segredo de Justiça mas, de cara, já mostra a face do racismo religioso comum no nosso país.

– Mangueira e Grande Rio se destacam com Jesus negro e defesa do Candomblé

“Eu estou arrasada. Já estava antes por conta do preconceito. Agora que tiraram minha filha de mim, tiraram o meu chão. Nunca imaginei passar por isso por conta de religião. Eu estava presente o tempo inteiro, acompanhei tudo, nada de ilegal foi feito, que constrangesse a ela, ou que ela não quisesse, sem consentimento dela, ou sem o pai ou a mãe, foi tudo feito legalmente”, afirmou a mãe da menina.

Publicidade

Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Foto mostra modelo minutos antes de passar mal e morrer em gravação de clipe de funk