Ciência

Cientistas brasileiros saem na frente em estudos sobre uso de drogas psicodélicas contra depressão

por: Yuri Ferreira

Você provavelmente já ouviu falar da história de que psicodélicos como o cogumelo, o LSD e o MDMA podem ser utilizados contra a depressão, mas sabia que muitas das pesquisas nesse campo são comandadas por cientistas brasileiros? Apesar de preconceito de parte da academia, estudos no Brasil tem mostrado resultados promissores no combate à doenças psiquiátricas no país.

Se você viu o último filme de Spike Lee, Destacamento Blood, da Netflix, você acompanhou a jornada de um homem que sofre de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O personagem de Delroy Lindo, Paul, que é pró-Trump, sofre da doença, com sonhos sobre a Guerra do Vietnã e dores relacionadas ao conflito que aconteceu há mais de 50 anos.

Personagem de filme de Spike Lee sofre de estresse pós traumático causado pela Guerra do Vietnã

São milhares de ex-combatentes que sofrem da doença. Vítimas de tiroteios, sequestros, situações de violência sexual, mortes repentinas na família e covid-19 podem passar pelo transtorno psicológico. Agora, o neurocientista Eduardo Schenberg está estudando, em parceria com outros pesquisadores do mundo, a eficácia do ecstasy contra o TEPT.

Os estudos apontam que o MDMA  facilita a psicoterapia. A ‘droga da empatia’, como é chamada por alguns, não desperta alucinações visuais, mas aumenta a produção de serotonina e dopamina, noradrenalina, nos deixando mais felizes e concentrados. Segundo Eduardo Schenberg, dois a cada três pacientes com TEPT que fazem terapia com a droga saem curados, mas a comunidade científica ainda recusa o tratamento:

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“Dentro das próprias universidades predomina a visão de que as drogas proibidas não têm nenhum aspecto terapêutico e, portanto, não há estímulo para pesquisá-las. Elas podem ter um papel fundamental no reencantamento do ser humano com a vida, com a natureza”, contou o cientista à revista TRIP.

O clássico livro ‘Junkie’, de William Burroughs, publicado em 1954, relata a história de um traficante de drogas e escritor beatnik viciado em heroína. A trajetória autobiográfica do autor que relata seus problemas como dependente químico e seus dilemas com a homossexualidade se encerram com uma súbita tentativa de recuperação: a mescalina. O autor ainda relataria em ‘Cartas do Yagé’ sua experiência de tentativa de cura com indígenas brasileiros.

William Burroughs tentou tratar vício em opioides com psicodélicos

À parte de uma tentativa de cura comandada por um escritor beatnik, a ciência busca entender quais são os efeitos das drogas psicodélicos na cura da dependência química. Existem duas principais origens de alucinações que podem estar relacionadas ao fim da da dependência química.

O pesquisador da UNIFESP especialista em redução de danos, Renato Filev, acredita que existam suficientes mudanças neuroquímicas e psicológicas que podem alterar drasticamente a visão do paciente sobre si e ajudar na cura do vício:

“Essas mudanças criam condições para uma análise profunda do eu e do sentido de individualidade. Essa experiência muda a forma como o paciente enxerga sua personalidade, seus comportamentos e suas emoções. Quando você está sob esse efeito, acaba aceitando uma segunda opinião sobre você mesmo, algo que não aceitava antes”, afirma Renato Filev à BBC.

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No exterior, diversos estudos apontam para eficácia dos cogumelos nesse sentido. Filev luta para conseguir autorização para pesquisá-los e, quem sabe, comprovar seus efeitos terapêuticos.

A ibogaína já é utilizada em tratamentos terapêuticos no geral. A droga originada de uma planta camaronesa, a iboga, tem efeitos similares a da Ayahuasca, droga da qual falaremos já. Legalizada no Brasil, a ibogaína é utilizada em alguns centros de tratamento de dependência  química e funciona pelo mesmo princípio de alteração neuroquímica:

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Semente de iboga, planta alucinógena que pode ser importante no tratamento de dependência química

“As pessoas normalmente têm muitas visões, lembranças, como se estivessem sonhando acordadas. E quanto maior o efeito psicodélico e místico, maior também será o efeito terapêutico”, explica o psicólogo e pesquisador Bruno Ramos Gomes. Segundo ele, o efeito chamado ‘afterglow’, que é uma sensação de bem-estar relacionado ao uso da droga, tem duração enorme. “Em algumas substâncias, como o LSD, o afterglow dura poucos dias. No caso da ibogaína, ele pode ser sentido por meses. Alguns pacientes contam que nunca mais foram os mesmos depois da sessão, e que não sentem mais aquela fissura pela droga que eram dependentes”, diz Gomes.

Outro tratamento desenvolvido sobre doenças psicológicas em tratamento com psicodélicos é com a Ayahuasca. A droga usada com fins religiosos por grupos como o Santo Daime, pode ser usada clinicamente como tratamento contra a depressão. Fora do ambiente de fé, cientistas como o professor Dráulio Barros de Araújo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, buscam compreender como os psicodélicos operam no cérebro humano e como eles podem ser eficazes contra os efeitos da depressão.

Psilocibina, princípio ativo dos cogumelos alucinógenos, pode ser caminho para ajudar no tratamento da depressão

Os resultados obtidos por Dráulio é que a ayahuasca foi capaz de reduzir os índices de proteína C-reativa, um fator de inflamação que é mais alto em pacientes com depressão. Além disso, o “fator neurotrófico derivado do cérebro” (BDNF), responsável pela prisão de pensamentos repetitivos e autodestrutivos no cérebro, foi reduzido na maioria dos testados, conforme informações da BBC Brasil. Ele atenta, entretanto, é que a droga não é uma solução única.

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“Uma mensagem importante a passar é que uma única intervenção com a ayahuasca melhora agudamente o quadro depressivo dessas pessoas. Esse efeito agudo tem uma resposta muito importante no que diz respeito à depressão. Cem por cento dos antidepressivos comercialmente disponíveis demoram cerca de 15 dias para fazer efeito. Do ponto de vista da psiquiatria, isso é muito difícil. Imagine tratar uma dor de cabeça que só vai passar daqui a 15 dias? É um tratamento que tem um empirismo muito grande.”, explica Professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em artigo à Época.

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Fotos: Foto 1: Reprodução/Netflix Fotos 2, 3  e 4:  © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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