Reportagem Hypeness

Guia Alimentar: “Ultraprocessados são a ‘terra plana’ do Ministério da Agricultura”, diz especialista

por: Veronica Raner

Patrocinado por: Raízen

Desde antes de nascer, a segunda edição do Guia Alimentar para a População Brasileira, publicada em 2014, já era vista como uma pedra no sapato da indústria de alimentos. O manual de diretrizes sobre alimentação, organizado pelo Ministério da Saúde (MS) em parceria com instituições de pesquisa em alimentação e nutrição, se diferenciava de seu primeiro formato, lançado em 2006, pelo vocabulário claro, informal e direto para falar com a população. O texto alertava contra o consumo constante de alimentos ultraprocessados — algo que não agradou a indústria alimentícia. Na semana passada, o Guia virou centro das atenções após sofrer um ataque do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

– Confira o Guia Alimentar para a População Brasileira na íntegra

– 57% aumentaram o consumo de vegetais e 44% mudaram hábitos alimentares na pandemia, aponta pesquisa

Mulher observa produtos no setor de laticínios do mercado.

A pasta comandada por Tereza Cristina (Democratas) enviou uma nota técnica ao Ministério da Saúde para questionar a legitimidade do Guia, afirmando que seu conteúdo seria “confuso”, “incoerente” e que ele “prejudica a implementação de diretrizes adequadas para promover a alimentação adequada e saudável à população brasileira”. O documento é assinado pelo coordenador-geral Eduardo Mello Mazzoleni e pelo diretor Luís Eduardo Pacifici Rangel, ambos da Secretaria de Política Agrícola, e questiona a validação científica do Guia e pondera que outros especialistas, como engenheiros de alimentos, deveriam ter sido ouvidos para a formulação das diretrizes. 

“O primeiro Guia Alimentar que o Brasil teve foi lançado em 2006. Depois ele foi revisado em 2014 e foi publicada a segunda edição. Nessa época, em 2010 mais ou menos, a gente publicou a classificação NOVA, que é essa classificação que norteia o Guia e que dividiu os alimentos em quatro grupos: os alimentos in natura, os minimamente processados, os processados e os alimentos ultraprocessados”, explica a pesquisadora Renata Levy, do Departamento de Medicina Preventiva e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP). 

ONU: consumo elevado de carne responde por 70% de novas doenças em humanos

O Nupens esteve ao lado do Ministério da Saúde na formulação da segunda edição do Guia Alimentar. Ao contrário do sugerido pela nota do Mapa, o processo de elaboração do documento durou cerca de dois anos e contou com a colaboração de diversos atores da sociedade científica e civil, como o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Nutrição, além de universidades. “Esse documento, depois de construído, foi para consulta pública e teve quase três mil sugestões de alteração, todas foram avaliadas. O Guia foi amplamente alterado nessa consulta, várias modificações foram incorporadas e aí sim ele foi publicado”, diz Levy.

A classificação dos alimentos do Guia Alimentar é o grande ponto questionado pela nota enviada pela pasta agrícola ao Ministério da Saúde. O Guia recomenda que a população brasileira evite o consumo de alimentos ultraprocessados, além de apontar o excessivo consumo de carne como um agente responsável pela degradação do meio ambiente. O discurso, é claro, não agradou empresários do setor de alimentos e da agropecuária. Nutricionistas e defensores do documento do MS acreditam que há influência de grandes corporações no episódio envolvendo o Mapa.

Mesmo sem eles terem citado, é notório que, por trás, houve dedos e braços inteiros do lobby da indústria de alimentos e da bancada ruralista, do agronegócio também, por conta de tudo que eles foram colocando como pontos, segundo eles, ‘ruins’ do Guia”, opina Juliana Gouveia, nutricionista paulistana. “O Guia orienta que a gente dê preferência para alimentos de origem vegetal, já considerando todas as questões que a gente sabe, a partir de estudos reais, que relacionam o impacto que tudo isso tem na nossa saúde. Tanto do excesso na ingestão de alimentos de origem animal quanto de alimentos ultraprocessados”, coloca a especialista.  

Guia gratuito oferece passo a passo para quem quer se tornar vegetariano sem abrir mão da saúde e do sabor

Em entrevista ao podcast “Café da Manhã”, da “Folha de São Paulo”, a chef e apresentadora de TV Rita Lobo definiu o Guia como “pedra no sapato” e um “calo no pé”  para “quem lucra com o consumo de ultraprocessados”. “Tem muita gente que é contra o Guia e infelizmente agora essa indústria achou um porta-voz importante para atacá-lo e tentar tirar esse termo ultraprocessado das recomendações”, afirmou Rita, em referência à atitude do Ministério da Agricultura. 

A indústria sempre pressionou o Ministério (da Saúde) para que ou o Guia não fosse publicado ou que se retirasse a menção de alimentos ultraprocessados. Só que não teve eco, não funcionou no MS. Então, agora, (ela) nos surpreendeu com essa nota vinda do Ministério da Agricultura escrevendo um documento para o Ministério da Saúde solicitando a revisão do Guia Alimentar da População Brasileira e enfatizando dois tópicos principais: que eles queriam que fosse retirada a classificação nova e retirado o termo ‘alimentos ultraprocessados’”, observa Levy. 

Outro ponto do Guia criticado pelo Mapa é a parte em que o documento de 2014 versa sobre a demanda por alimentos de origem animal, como carne de vaca e porco por exemplo. O Guia diz que a diminuição do consumo desses alimentos “reduz notavelmente as emissões de gases do efeito estufa (responsáveis pelo aquecimento do planeta), o desmatamento decorrente da criação de novas áreas de pastagens e o uso intenso de água”, algo questionado pela nota técnica, que chama as colocações de “menções equivocadas, preconceituosas e pseudocientíficas sobre os produtos de origem animal.”

Para salvar planeta, cientistas pedem que brasileiros comam menos carne

A maior crítica dos pesquisadores à carta escrita por Eduardo Mazzoleni e Luís Eduardo Rangel vem da falta de embasamento científico. Segundo as fontes ouvidas pelo Hypeness, os pontos questionados pelos dois são facilmente refutáveis com dados e informações de pesquisas relevantes.

“O Guia orienta que se consuma alimentos in natura e minimamente processados, mas que a preferência seja por alimentos de origem vegetal. O pessoal da carne bovina ficou incomodado com isso. Os pecuaristas pediram e fizeram também uma carta questionando, dizendo que a carne vermelha é um alimento muito nutritivo e que não faz mal à saúde, e que o brasileiro não consome muito carne vermelha — o que não é verdade. O brasileiro é um dos povos que mais consome carne vermelha do mundo. Eles disseram que a carne vermelha não tem nenhum efeito para o meio ambiente, que isso é uma falácia. Isso é quase dizer que a terra é plana. O ‘a terra é plana’ do ministério da Agricultura são os ultraprocessados. É um negacionismo. Eles estão negando a ciência”, desabafa. 

Na noite da última quinta-feira (25), após numerosas manifestações de repúdio à nota técnica do Mapa — incluindo uma carta escrita por 33 cientistas estrangeiros de universidades renomadas dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e outros países —, a ministra Tereza Cristina rejeitou o documento escrito pelos integrantes da Secretaria de Política Agrícola e o enviou de volta para reformulações.

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Afinal, o que são alimentos ultraprocessados?

Faça um exercício: pegue o rótulo de um refrigerante ou de um biscoito recheado que você tem em casa. Talvez aquela pizza congelada que está no freezer ou até mesmo um pacote de balas ou chocolate. Procure no papel a lista de ingredientes do produto. Você não terá dificuldades em identificar itens que você nunca ouviu falar ou que você não costuma ver à venda no mercado. Essas listas, aliás, costumam ter dez, 15, até 20 compostos, muitos deles aditivos químicos: emulsificantes, corantes e aromatizantes. Pronto, você encontrou um alimento ultraprocessado. 

São aqueles produtos alimentícios totalmente criados pela indústria a partir de algum ingrediente que é lá dos primeiros grupos (in natura e minimamente processados), mas que a maior parte dos ingredientes da formulação são elementos produzidos pela indústria, aditivos químicos. São prováveis produtos que a gente olhe e não saiba fazer a descrição do que contém ali e de que forma que ele foi preparado. Obrigatoriamente para eu ter certeza do que eu estou consumindo, eu teria que ler a lista de ingredientes para saber o que é que tem ali dentro”, explica Gouveia. “É por isso a indústria está aí enlouquecida querendo mudar o Guia desde que ele foi criado.

Depois da divulgação da nota técnica do Mapa, diversas instituições da comunidade científica se pronunciaram contra o texto. Um abaixo assinado online em defesa do Guia já reúne quase 45 mil assinaturas. Em nota oficial, o Nupens rebateu a afirmação do Ministério da Agricultura de que o Guia era considerado um dos “piores do mundo”. O documento, na verdade, foi considerado um dos melhores a nível global quando da sua publicação e é até hoje elogiado por importantes órgãos da área, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). 

Clientes passam pelo corredor de congelados e refrigerantes de um mercado.

Os ultraprocessados e os ‘desertos alimentares’

A estudante de nutrição Glei Bueno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta para outra questão da predominância de alimentos ultraprocessados no mercado: a formação dos chamados “desertos alimentares”, áreas em que o acesso a produtos in natura não é tão fácil ou que é preciso andar longas distâncias para chegar até eles. Isso acaba levando parte da população a optar por alimentos ultraprocessados, que costumam estar mais acessíveis. 

“A indústria alimentícia é formada por poucas mas grandes empresas que dominam essas áreas e trazem opções rápidas e baratas para essas pessoas que normalmente estão em regiões periféricas, pessoas que tem que sair para trabalhar cedo e voltar tarde, cujas opções mais rápidas e baratas acabam sendo esses alimentos ultraprocessados”, explica Glei, da Liga Estadual de Nutrição do Rio de Janeiro. 

A questão também é destacada pela nutricionista gaúcha Mari Petracco. “O Guia proporciona o acesso à informação que eu acho que isso que está em jogo: a omissão dessas informações em prol da economia e da indústria. Eu acredito que ela (a nota do Mapa) tenha vindo com a intenção de omitir informações para fazer com que os brasileiros não consigam diferenciar esses produtos e acabem consumindo mais os alimentos ultraprocessados. Nós temos uma questão muito forte do marketing e da publicidade em cima desses alimentos ultraprocessados, então, sem um guia que oriente a população a consumir o mínimo desses produtos, eles vão acabar sendo consumidos em maior quantidade”, opina.

É importante a valorização das políticas públicas em relação à alimentação e à nutrição.  para fazer com que não haja esses desertos alimentares que são esses espaços geográficos, principalmente nas periferias, onde os alimentos in natura não chegam ou, quando chegam, chegam com agrotóxicos, chegam com transgênicos, então são outras formas de nutricídio. Então precisamos da valorização de políticas públicas e fazer com que o Guia seja conhecido.  Para isso, precisamos de investimento para que outros profissionais da área de saúde consigam repassar as informações do Guia para a população.

Problema com alimentos repletos de aditivos químicos é global

O consumo excessivo de alimentos ultraprocessados é uma questão mundial. Uma pesquisa feita em 19 países europeus e publicada, em 2018, pela revista “Public Health Nutrition” mostrou que, no Reino Unido, produtos do tipo correspondiam a 50,7% da dieta do britânico. Na Irlanda, o percentual era de 45,9% e, na Alemanha, de 46,2%.

No Brasil, o índice é menor, mas não menos preocupante. De acordo com a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, os ultraprocessados respondem por 18,4% das calorias da alimentação do brasileiro. Poucas políticas públicas de combate ao consumo excessivo desses produtos associadas ao marketing positivo das grandes corporações fabricantes assombram especialistas sobre um cenário futuro.  

A gente espera que isso chegue ao Ministério da Saúde e que ele se recuse a revisar o guia neste momento porque eu acho que não está na hora disso E se fosse a gente revisar ele embasado nos últimos estudos científicos, talvez a gente fosse ainda mais rigoroso contra o consumo de ultraprocessados. Porque entre a publicação do guia e os dias atuais diversos estudos com desenhos muito bem feitos, com evidências muito robustas, foram publicados e associam o consumo desses alimentos com vários desfechos de saúde como a obesidade, ganho de peso, diabetes, doenças cardiovasculares, depressão, inflamação da mucosa intestinal, asma em adolescente, alguns tipos de câncer… É assustador. É muito complicado questionar a validade científica da recomendação do Guia. Não há espaço para isso”, diz Levy.

A pesquisadora observa que pesquisas como o Estudo NutriNet Brasil pretendem traçar um panorama da nutrição e da alimentação do brasileiro de forma mais destrinchada. Atualmente, o projeto conta com a participação de 80 mil voluntários de forma totalmente online, mas a meta é chegar aos 200 mil inscritos, o que seria ideal para a avaliação do cenário. Para colaborar, clique aqui

Publicidade

Fotos: Getty Images


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.


X
Próxima notícia Hypeness:
2 a cada 5 espécies de plantas no mundo estão em risco de extinção