Debate

O simbolismo do arroz a R$ 40 no dia em que caminhão de carne tombado é saqueado no Brasil

por: Yuri Ferreira

O contínuo aumento no preço do arroz (e outros produtos da cesta básica) pode indicar um cenário de calamidade pública. No mesmo dia em que um caminhão de carne foi saqueado após tombar em Itapecerica da Serra, em São Paulo, diversos brasileiros encontraram o pacote de 5 quilos de arroz a R$ 40. Fatores macroeconômicos estão impactando o valor dos produtos da cesta básica e, sem uma recuperação adequada dos preços, podemos enfrentar um colapso social envolvendo a alimentação das famílias mais pobres do país.

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Preço do arroz pode aumentar mais ainda segundo produtores

Real em queda livre e cesta básica mais cara que o auxílio emergencial 

O primeiro fator que justifica o recente aumento do valor do produto é o aumento do dólar. Com a moeda brasileira mais desvalorizada, a exportação do alimento fica mais fácil e rentável. A importação, mais difícil. Isso está reduzindo os estoques de arroz no mercado brasileiro, fazendo com que produtores exportem para outros países como China, Vietnã e Índia, que brecaram suas produções por causa da pandemia do novo coronavírus.

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Outros produtos da cesta básica, como feijão e soja (por causa do óleo) também aumentaram de preço – de maneira mais sutil – mas encarecem a vida do trabalhador e uma cesta básica pode superar o valor do auxílio emergencial, que será reduzido a R$ 300 até o fim do ano, conforme anúncio recente do Presidente Jair Bolsonaro.

Nesta terça-feira (8), em Itapecerica, centenas de pessoas se aglomeraram na Rodovia Regis Bittencourt para roubar a carga de um caminhão de carne que tombou. Apesar de a carne não ter tido uma inflação grande nos últimos tempos, para os mais de 65 milhões de brasileiros que dependem do auxílio emergencial, uma peça de carne já é uma ajuda para sobreviver.

Em Itapecerica, moradores da região tentam saquear cortes de carne bovina

“A pandemia tirou o excedente de outros países produtores, como Índia, Tailândia e Vietnã, e houve um desabastecimento do mercado internacional. Esses países tiveram dificuldade ou pararam de vender seu produto no mercado externo, enquanto o Brasil exportou bastante entre maio e junho”, afirmou Ivo Mello, diretor do Instituto Rio-grandense do Arroz (IRGA), ao UOL.

Segundo os produtores, a tendência de aumento do valor do arroz não vai mudar e o preço pode aumentar ainda mais. O Presidente Jair Bolsonaro pediu aos supermercados que abaixem o preço do arroz e sejam mais ‘patriotas‘. Entretanto, o problema está na produção, que tem exportado mais o produto do que descarregado o cereal no mercado doméstico.

A Ministra da Agricultura, Tereza Cristina (MDB), afirmou que vai reduzir o preço do arroz. Não explicou como.

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Tereza Cristina não explicou como vai reduzir o preço do arroz no mercado brasileiro

“Observou-se (desde a declaração de calamidade pública pela OMS em março) um aumento significativo na demanda do mercado externo, o que, somado à restrição de oferta do por alguns países exportadores, com vistas a assegurar o abastecimento interno, ocasionou a forte valorização do grão”, diz nota da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz).

“Entretanto, a indústria compõe apenas um elo de toda uma cadeia produtiva que, como qualquer outra, está sujeita à lei da oferta e demanda e às oscilações do preço internacional, de câmbio, logística, restrição de oferta da matéria-prima, apenas para citar alguns fatores que fogem ao alcance das indústrias e influenciam de forma determinante nos preços ao consumidor. Os relatórios produzidos semanalmente pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, corroboram o cenário de alta nos mercados interno e externo, prevendo um arrefecimento para os próximos meses, a depender da evolução dos condicionantes descritos anteriormente”, explica.

A Rede Condor de Supermercados disse em nota que o preço de R$ 42,99 do arroz é fake news. A empresa, no entanto, não revelou por quanto está comercializando um pacto de 5 kg do alimento.

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Foto 1: Reprodução/EBC/foto 2: Reprodução/TV Globo/foto 3: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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