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‘Star Wars’: ‘fui o único com experiência baseada na raça’, diz John Boyega

por: Veronica Raner

John Boyega se tornou mundialmente conhecido ao interpretar Finn, na trilogia mais recente da saga “Star Wars”. A oportunidade de ser um negro protagonista de uma das franquias mais famosas do cinema marcou a vida do ator. Em entrevista à “GQ” britânica, ele contou sobre a experiência de ser um ator preto em uma indústria que dificilmente permite ao negro existir da forma que lhe convém — e não de acordo com padrões brancos.

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John Boyega durante viagem de divulgação do filme ‘A Ascensão Skywalker’, em Tóquio, no Japão.

Boyega relembrou o período em que ele e o resto do elenco de “O Despertar da Força” fizeram a divulgação do filme. A pessoa contratada para pensar no figurino do ator constantemente “se contorcia ao ver as roupas” que ele escolhia usar. O britânico também falou sobre o cabeleireiro que não tinha experiência em lidar com cabelos afros, “mas ainda tinha a ousadia de fingir que tinha”. 

Eu levei numa boa porque obviamente eu estava genuinamente feliz de fazer parte daquilo. Mas meu pai sempre me disse: ‘não pague a mais com respeito’. Você pode respeitar, mas, às vezes, você vai pagar demais e aos poucos vai acabar se vendendo”, disse. Recentemente, um discurso poderoso de John durante os protestos do “Black Lives Matter” em Londres viralizou na internet. Nas imagens, se vê Boyega muito emocionado, gritando palavras de ordem.

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Na primeira entrevista depois de encerrar sua participação nos filmes da Disney, Boyega criticou o estúdio americano por comercializar personagens negros e depois colocá-los à margem. Ele fala sobre seu próprio personagem, Finn, que ganhou destaque nos trailers e no primeiro filme da nova trilogia, mas foi aos poucos colocado à margem. Boyega também fala sobre outros atores negros ou amarelos escalados para a franquia, como Kelly Marie Tran (Rose Tico) e Naomi Ackie (Jannah). 

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Você se envolve em projetos e não necessariamente vai gostar de tudo dentro dele. O que eu diria para a Disney é para eles não trazerem um personagem negro à tona, comercializá-lo para ser muito mais importante na franquia do que ele de fato é e depois colocá-lo de lado. Isso não é bom e eu digo isso sem rodeios.

Kelly Marie Tran e John Boyega em cena de ‘Star Wars’.

Por exemplo, eles sabiam o que iriam fazer com a Daisy Ridley (Rey), sabiam o que iriam fazer com o Adam Driver (Kylo Ren). Mas quando se tratou de Kelly Marie Tran, de John Boyega, foda-se! Então, o que você quer que eu diga? Eles querem que eu diga que amei fazer parte disso, que foi uma experiência incrível, mas não, não, não. Eu vou fazer isso quando for uma ótima experiência. Eles deram todas as nuances a Adam Driver, todas as nuances a Daisy Ridley. Sejamos honestos. A Daisy sabe disso, o Adam sabe disso. Todo mundo sabe. Eu não estou expondo nada.

John sabe o quanto a saga foi importante na sua carreira e na sua vida, mas é preciso falar verdades que poucos têm a coragem de dizer. Expor a ferida na indústria é uma forma de tentar transformá-la e abrir caminho para outros jovens atores que virão depois dele. 

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Eu sou o único membro da franquia que viveu uma experiência nela com base na sua raça. Isso te deixa irritado com o processo, isso faz de você muito mais militante. Isso te transforma porque você percebe: ‘eu ganhei essa oportunidade mas eu estou em uma indústria que não está pronta para mim’. Ninguém mais no elenco ouvia as pessoas dizerem que iriam boicotar o filme por causa deles. Ninguém mais recebeu mensagens e ameaças de morte pelo Instagram dizendo: ‘preto isso, preto aquilo, você não deveria ser um Stormtrooper’. Ninguém mais teve essa experiência. Mas ainda assim as pessoas estão surpresas que eu seja assim. Essa é a minha frustração.

No ensaio que acompanha a entrevista, Boyega aparece com o cabelo e tranças maiores, diferentes de como o público o viu na saga Skywalker. A transformação não é vazia. “Quando homens negros deixam o cabelo crescer é algo muito poderoso”, ele diz. “Culturalmente, isso significa algo.

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Fotos 1 e 2: Getty Images / Foto 3: Disney/LucasFilm / Vídeo: YouTube/British GQ / Foto 4: Getty Images


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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