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A indefensável defesa de Robinho de volta ao Santos após condenação por estupro; relembre o caso

por: Yuri Ferreira

O Santos Futebol Clube anunciou no último dia 10 a contratação do atacante Robinho, de 35 anos. O jogador foi condenado em novembro de 2017 pela Justiça Italiana em um caso de estupro coletivo. Agora, o atacante – que não cumpriu pena no país em que foi julgado – vai voltar a atuar em um clube da elite do futebol brasileiro.

O futebol brasileiro foi conivente com a volta de goleiro Bruno aos gramados: o assassino condenado de Eliza Samúdio hoje joga pelo Rio Branco, um dos maiores clubes do Acre. Agora, o Santos, um dos maiores times de futebol do planeta, aceita a volta de um condenado por estupro coletivo em seu plantel.

Vale lembrar que a crítica que se faz sobre esse tipo de caso não é do punitivismo tolo: Robinho, mesmo que condenado, merece trabalhar após cumprir sua pena. Entretanto, não é em uma profissão de prestígio midiático que influencia milhões de pessoas que ele deveria estar. Dentro do futebol ou fora dele, existem diversas opções no mercado de trabalho que não envolvam a idolatria.

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Robinho em atuação pelo Atlético Mineiro, em 2017, ano em que foi condenado por estupro coletivo na Itália

O presidente do Santos, Orlando Rollo afirmou que ‘quem nunca pecou que atire a primeira pedra. “Robinho não está condenado com trânsito em julgado. Quem somos nós para atirar pedra no Robinho? Atire a primeira pedra quem nunca pecou. E será que ele pecou? Vamos esperar o desfecho do processo”, disse, à Folha de São Paulo. Novamente: ninguém afirmou que ele deve ficar em prisão perpétua ou ser assassinado, só não deve ter uma posição de prestígio dentro do futebol e ser um exemplo para os milhares de jovens que torcem pelo alvinegro praiano.

Vale lembrar que o treinador do Santos, Cuca, também foi condenado por estupro coletivo em 1987. Então jogador do Grêmio, ele e outros 4 colegas de clube estupraram uma menina de 13 anos de idade em Berna, na Suíça, e foram condenados, mas cumpriram a pena em liberdade. Até quando o futebol será permissivo com o estupro?

Entenda o caso

Em 2013, quando Robinho jogava pelo Milan, ele e outros cinco amigos abusaram sexualmente de uma jovem albanesa em uma boate em Milão. Segundo o relatório de 28 páginas elaborado pela acusação, o jogador violentou a jovem sexualmente e a humilhou junto de Ricardo Falco, também envolvido na ação.

Robinho foi condenado a nove anos de prisão em novembro de 2017 e ofato gerou polêmica entre a torcida do Atlético Mineiro, clube em que atuava à época. Depois do fato, ele foi negociado e jogou no Sivasspor e no Başakşehir, dois times da Turquia. Sem clube, foi contratado pelo Santos em uma janela de transferência apertada por conta das punições do clube emitidas pela FIFA.

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Vale lembrar que, em 2009, Robinho foi acusado de estupro quando jogava pelo Manchester City. Uma mulher o acusou de estuprá-la em uma boate em Leeds, na Inglaterra, mas o caso não foi pra frente nas cortes.

A defesa de Robinho recorreu à decisão do Tribunal de Milão e, por isso, o jogador responde ao processo em liberdade. Os advogados de Robinho clamam pela inocência do jogador e também pediram para que a imprensa não o tratasse como culpado pelo estupro, pois a legislação italiana só o colocaria como culpado após condenação em todas as instâncias. Fato é: ele é condenado por estupro coletivo e responde em liberdade.

“De acordo com a Ordem Constitucional Italiana, Robinho deve ser considerado inocente, com base no artigo 27 da Carta Constitucional da República Italiana, segundo o qual o acusado não é considerado culpado até a sentença final (e isso somente se a condenação é confirmada pelo Supremo Tribunal de Cassação, que julga após o Tribunal de Recurso)”, afirma a nota oficial dos advogados do jogador.

Repercussão do caso

Em dezembro 2017, torcedoras organizadas do Atlético Mineiro pediram que Robinho abandonasse o clube e ele logo foi transferido para a Turquia. Agora, o Santos, que, recentemente, demitiu uma funcionária que denunciou casos de racismo e assédio dentro do clube, dá sua honrada camisa a um jogador condenado por estupro que será treinado por técnico condenado por estupro.

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Como nunca se viu antes o debate sobre violência sexual esteve no futebol. Jornalistas, comentaristas e pessoas do esporte repudiaram a ação do clube, que reiterou que não irá comentar a condenação de Robinho por estupro. Walter Casagrande, um dos principais comentaristas do Grupo Globo, tratou de falar sobre o tema:

“Eu fico desolado e perco um pouco a esperança. No momento em que o mundo e principalmente o Brasil quer se reorganizar na moral e na ética, isso é um desrespeito não só às mulheres, mas é uma violência à moral da sociedade. Não entendi o motivo da contratação, não faz sentido. Robinho é um ótimo jogador e não tenho nada contra ele pessoalmente; inclusive, ele deu uma camisa que dei para o meu filho santista. Ele é oficialmente condenado por estupro, um crime hediondo, então fico desolado. Estou do lado da moral, da ética e dos valores”, afirmou no Globo Esporte.

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Confira a repercussão do caso nas redes sociais:

 

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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