Ciência

Brasil é nação construída em estupro de mulheres negras e indigenas por brancos europeus, aponta estudo

por: Karol Gomes

A maior pesquisa de genoma está sendo realizada no Brasil a fim de desenvolver a base de dados genéticos mais abrangente disponível sobre a população. O projeto “DNA do Brasil” anunciou a iniciativa há nove meses e já está entregando seus primeiros resultados, que espantou muitas pessoas pela herança desigual que eles simbolizam.

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Da meta de analisar 40 mil brasileiros, os pesquisadores já completaram o sequenciamento do genoma de 1.247. Os voluntários são de todas as partes do país, o que inclui desde comunidades ribeirinhas na Amazônia até moradores da cidade de São Paulo. De acordo com os dados, 75% dos cromossomos Y na população são herança de homens europeus. 14,5% são de africanos, e apenas 0,5% são de indígenas. Os outros 10% são metade do leste e do sul asiáticos, e metade de outros locais da ásia.

Com o DNA mitocondrial foi o contrário: 36% desses genes são herança de mulheres africanas, e 34% de indígenas. Só 14% vêm de mulheres europeias, e 16% de mulheres asiáticas.

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Somando as porcentagens femininas, temos que 70% das mães que deram origem à população brasileira são africanas e indígenas – mas 75% dos pais são europeus. A razão remonta aos anos colonização portuguesa no Brasil. O estupro de mulheres negras e indígenas escravizadas era o padrão.

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A exploração violenta e extermínio em massa também fizeram com que os homens indígenas quase não deixassem descendentes – eles representam apenas 0,5% do genoma na população, enquanto as mulheres nativas somam 34%.

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Metade dos nossos genes são herdados da mãe, enquanto a outra metade é do pai. Em geral, não é possível identificar quais genes vieram de cada um deles. Mas há exceções. O cromossomo Y é uma delas. As mulheres possuem cromossomos sexuais XX, e os homens, XY. Isso significa que a mãe sempre vai transferir o cromossomo X para o feto. E aí os espermatozoides do pai ficam responsáveis por “decidir” o sexo do bebê, mandando o cromossomo X ou Y.

Um dos objetivos da pesquisa é médico: os dados genéticos permitem identificar grupos mais suscetíveis a certas doenças, o que possibilita direcionar recursos e esforços do SUS com inteligência.

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O mapeamento genético também também fornece dados sobre ascendência dos voluntários. Só nesses 1.247 genomas preliminares já foi possível observar variantes genéticas provenientes de 54 populações ao redor do mundo. Os resultados mostram que sim, o Brasil é extremamente miscigenado – mas que essa miscigenação não ocorreu de forma equilibrada.

Além de escancarar atrocidades históricas, o genoma dos primeiros voluntários do projeto também revelou quatro milhões variantes genéticas novas, que não estão registradas em outros bancos internacionais de genomas. Outro mapeamento genômico recente, feito apenas com idosos brasileiros, mostrou mais duas milhões de variantes inéditas.

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Foto: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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