Debate

Grávida é baleada em ação policial no Rio. Por que não estamos protestando?

por: Karol Gomes

Maiara Oliveira da Silva, de 20 anos, foi baleada durante uma operação policial no Complexo da Maré, na zona norte do Rio, na última terça-feira (27). Negra e periférica, ela está grávida de cinco meses e passou por uma cirurgia. Seu quadro de saúde é grave, porém estável. O bebê está bem, segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde.

De acordo com a Polícia Civil, a mulher foi socorrida pelos agentes e levada para o Hospital Municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador, também na zona norte.

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O confronto começou quando um carro blindado da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) sofreu uma pane no momento que deixava a região. Criminosos teriam aproveitado o momento para tentar uma emboscada contra os policiais. 

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Alberon Sales da Silva, pai da vítima, disse que a filha perdeu muito sangue e que houve bate boca com os policiais no local.“Eu estava a trinta metros de chegar onde moro (…). Cheguei mais perto, os policiais não queriam me deixar acessar o local, fiquei nervoso, falei alto, xinguei, teve empurrões e minha filha estava lá perdendo muito sangue. Eles [os policiais] estavam lá fingindo que estavam socorrendo, mas ninguém quis chamar uma daquelas tantas viaturas para levar minha filha”, acusou ele.

De acordo com a Polícia Civil, a ação “Gota D’Água” envolveu 300 homens e terminou com 21 pessoas presas e apreensão de fuzis, granadas, silenciadores, grande quantidade de drogas e material para embalar. Mais de 50 carros e diversas motos roubadas foram recuperados. Além disso, os agentes descobriram um depósito clandestino com 30 toneladas de produtos falsificados como brinquedos, avaliados em R$ 20 milhões e 200 mil mochilas também falsas.

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A favela é dominada pelo CV (Comando Vermelho) e a operação tinha como objetivo prender criminosos acusados de participar de 70 grandes crimes como homicídios e assaltos. 

Alguns dos alvos da polícia são os homens envolvidos na morte do menino Leônidas Augusto da Silva de Oliveira, de 12 anos, que morreu no último dia 10. Os alvos não foram encontrados. A polícia buscava também os envolvidos na morte de dois vigilantes do Grupo Pão de Açúcar. Os seguranças foram mortos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em um assalto ocorrido no mês de junho.

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Sabemos que a comparação Brasil x Estados Unidos não é sempre uma equação correta, tampouco justa a ser feita. Porém, quando falamos do genocídio de pessoas negras, poderíamos, como sociedade, nos espalhar nos movimentos que aconteceram por lá esse ano, após o assassinato de George Floyd as vésperas da eleições presidenciais no país. 

A violência policial que matou Floyd foi a principal pauta nas manifestações do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que ganhou apoio de pessoas não-negras e tomou proporções internacionais. 

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Novamente não podendo fugir da comparação: nos Estados Unidos, o responsável pela morte de George Floyd acabou sendo libertado. Mas a conversa sobre brutalidade policial e racismo agora faz parte das pautas da corrida eleitoral, junto com outras pautas importantes. 

No ano em que iremos escolher novos prefeitos e vereadores para representar cidades pelo Brasil, esta pauta deveria estar como prioritária – e não só no Rio de Janeiro. Os movimentos negros estão lutando para isso: a família de Marielle Franco, por exemplo, criou uma agenda pública para candidaturas de todo o país, dando destaque para negras.

O que resta é aprendermos, culturalmente, a apoiar ao invés de minimizar tais atitudes ou esperar que os movimentos façam sozinhos o que é dever de todos.

 

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Foto: Arquivo Pessoal


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.


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