Matéria Especial Hypeness

O que as colonizações tem a ver com os atentados terroristas na França

por: Yuri Ferreira

Em 2016, o mundo se chocou com os atos terroristas contra o pasquim francês Charlie Hebdo. Extremistas islâmicos invadiram a sede da publicação humorística, que havia feito diversas charges profanando Maomé, profeta do Islã, deixando 11 vítimas. Nesse mês, o professor de história Samuel Paty foi decapitado em uma periferia de Paris após ter exibido algumas das charges do jornal em uma aula sobre liberdade de expressão. Nesta quinta-feira (29), outro atentado aconteceu em um igreja na cidade de Nice, em que um homem decapitou uma pessoa e matou outras duas depois de gritar ‘Allahu Akhbar’. Manifestações contra o terrorismo dominaram a França e uma onda de islamofobia tem assolado o país.

Porém, com um olhar mais atento sobre os conflitos globais que se desenrolam hoje em dia, é importante analisar dois aspectos cruciais para os tristes atentados sofridos pela França recentemente: o primeiro deles é a Guerra ao Terror e o segundo deles é a Colonização. Sem entender esses dois processos, uma análise rasa, simplória e desumana pode nos colocar a favor da islamofobia, que ideologicamente tem como objetivo a redução das liberdades individuais e a diminuição dos direitos civis  e diversidade religiosa em nível global.

– Aluno que matou professor na França já tinha postado fotos de decapitação

Manifestações em Paris contra terrorismo elevam tom islamofóbico na França

ANTES DISSO É IMPORTANTE DIZER: A decapitação de Samuel Paty, o ataque na Igreja de Nice e o atentado contra o jornal Charlie Hebdo são injustificáveis. São atos decorrentes de ideologias extremistas, desconectadas da maioria do pensamento islâmico e, repito, sem qualquer tipo de desculpa, escusa ou justificação. Agora, podemos partir para o resto do texto.

A Guerra ao Terror e a islamofobia

Desde os atentados terroristas de 11 de setembro observamos uma cruzada do Ocidente contra o Islã. Sob a premissa falsa de que se trata de uma religião inerentemente extremista e violenta, a chamada “Guerra ao Terror” pouco produziu   em frutos contra o terrorismo em si, mas trouxe a islamofobia como principal estrutura desse conflito ideológico.

A ‘Guerra ao Terror’, doutrina implantada por George W. Bush a partir do 11 de setembro, consolidou a islamofobia no Ocidente

“Durante a ‘Guerra ao Terror’, o mundo ocidental forjou e fortaleceu a imagem racista do ‘Muçulmano’ em um ‘nós x eles’. Esse se tornou o maior espantalho ideológico dos nossos tempos. O processo de criação do ‘Eles muçulmano’ não começou com o 11 de setembro, mas se intensificou nos últimos anos, reduzindo as liberdades civis e os direitos humanos em diversas democracias liberais, como a Europa, o Canadá e, principalmente, os EUA”, afirma o professor da Universidade de Queensland, Scott Poynting, especialista em criminologia crítica e política.

Para entender o islamismo é necessário entender sua complexidade. Quando falamos do cristianismo, falamos de diversas correntes: desde os amish ou a Igreja de Jim Jones até a sua tia católica não praticante, há muitas leituras da palavra de Jesus. Após o terrível ataque terrorista cristão que vitimou 77 pessoas e feriu outras 151 em julho de 2011 na Noruega, o país escandinavo não considerou proibir as pessoas de vestirem cruzes na rua.

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Klu Klux Klan opera normalmente nos EUA, defende extermínio racial e teocracia cristã. É uma organização de extremismo religioso?

O Islã também tem suas dezenas de vertentes, como o cristianismo. A principal divisão se dá entre o xiismo e o sunismo, duas formas de entender quem seria o sucessor de Maomé na liderança do Islã. O xiismo é presente majoritariamente no Irã e em parte do Iraque, enquanto o sunismo é majoritário em praticamente todos os outros países de maioria muçulmana.

As principais vertentes extremistas do Islã são o wahabbismo e o salafismo, derivadas do sunismo. O primeiro desdobramento, financiado pela Arábia Saudita, era a doutrina de Osama bin Laden. O segundo, é financiado pelo Catar. Grupos islâmicos jihadistas financiados por estes petroestados são a representação da maioria da religião islâmica? Não, claro que não. Seria como dizer que a sua tia católica não praticante é igual um membro da Ku Klux Klan.

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Mas não é assim que as autoridades francesas pensam: desde o incidente com Paty e agora com o atentado à Igreja em Nice, o establishment francês tem adotado uma retórica anti-islã ou anti o que tem sido chamado de ‘separatismo islâmico’ pelo presidente. O governo Macron já anunciou investigações e emitiu mandados de busca e apreensão contra organizações como o CCIF (Coletivo contra a Islamofobia na França). O prefeito de Nice, Christian Estrosi, já declarou que abrirá uma guerra contra o “fascismo islâmico”: “Já basta. Está na hora da França se exonerar das leis da paz para definitivamente erradicar o fascismo islâmico de nosso território”.

Após a decapitação de Samuel Paty, a política de extrema direita Marine Le Pen, do Front Nacional, voltou a defender a proibição do uso de hijabs, véus de cobertura comumente utilizados por mulheres islâmicas. Vale lembrar que o país já proíbe o uso de burcas e niqabs, coberturas de rosto e corpo inteiro. Um claro ataque à liberdade religiosa.

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“O islamismo é uma ideologia belicista, cujo meio de conquista é o terrorismo. Como o terrorismo é um ato de guerra, ele exige legislação de guerra”, afirmou Le Pen.

Qual o preço que se paga pela Guerra ao Terror? Se os islâmicos já são vistos sob olhar racista na Europa e nos EUA, o que mais perseguição pode causar? Uma guerra declarada contra uma religião vai resolver o conflito que se alastra no ocidente há 19 anos? Ou vai radicalizar ainda mais grupos já marginalizados?

Colonização: o problema que escolhemos ignorar

Quando falamos sobre a crise de refugiados que se acentuou após a Guerra Civil na Líbia ou a Guerra da Síria, pouco lembramos das motivações que fizeram os refugiados procurarem a Europa ao invés de outros países, como o próprio EUA (que poucos imigrantes recebe) ou mesmo outros países de terceiro mundo, como Brasil, China, Rússia, enfim.

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A raiz do problema é frequentemente ignorada: Inglaterra, Alemanha e França foram responsáveis por um dos maiores crimes humanitários já vistos na história: a colonização. Da Índia até a África do Sul, os impérios europeus foram responsáveis por milhões de mortes e pela miséria persistente até hoje em muitos destes locais. Entre o Paquistão e a Nigéria, encontramos a maior parte das populações muçulmanas do planeta. Agora, miremos com um olhar mais aprofundado três casos.

Síria

A dominação francesa na Síria durou entre o fim do Império Otomano até o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante os 26 anos do mandato colonial francês, os povos da região se revoltaram. A Grande Revolta Drusa ou Revolução Síria durou dois anos, entre 1925 e 1927.

O exército francês matou mais de seis mil sírios e deixou mais de 100 mil pessoas desabrigadas para manter seu domínio sob a região. Outra importante política francesa foi a de “dividir para conquistar”, isolando comunidades e criando conflitos entre a própria população síria para evitar outros levantes dessa natureza.

Conflitos causados pelo mandato francês na Síria levaram à Guerra Civil Síria

As marcas do conflito perduraram até a ascensão do Partido Baath, de orientação laica, socialista e nacionalista. Hafez al-Assad, pai de Bashar al-Assad, conseguiu conter os conflitos durante a sua ditadura, mas os ânimos germinados durante a colonização francesa se ascenderam nos eventos que desembocaram na Guerra Civil Síria, de início em 2013.

“As numerosas divisões e redivisões na Síria impostas pelo mandato francês obstruíram as capacidades de formação de um estado democrático na região. Uma construção de uma sociedade coesa e uma política unida não estava nos planos da colonização francesa. O processo de radicalização foi forjado no mandato francês e o seu principal legado está na instabilidade política que perdura até os dias de hoje na região”, afirma Ayse Tekdal Fildis no artigo “The Troubles in Syria: Spawned by French Divide and Rule”. Ela é PhD em assuntos do Oriente Médio.

Argélia

O caso argelino é clássico para entender o poder destrutivo da colonização francesa em um território, assim como a Síria, majoritariamente árabe. Entre 1830 e 1962, a França utilizou a Argélia como extensão territorial e quintal para extrair força de trabalho a baixo custo e recursos naturais.

Guerra de libertação da Algéria deixou milhões de mortos. Debate sobre imigração desconsidera impactos da colonização no terceiro mundo.

Os 132 anos de colonização francesa na região geram conflitos e mortes até hoje no país. Para se ter uma ideia, durante a Guerra da Argélia, que culminou na independência do país, 4.830 argelinos foram vítimas de minas terrestres. Após o conflito, mais de 2.000 pessoas morreram em decorrência das armas francesas, segundo relatório entregue às Nações Unidas em 2020. Desde o fim do conflito, o governo argelino encontrou 8,8 milhões de minas francesas em seu território.

Sem contar as minas, foram 1,500,000 de argelinos mortos, segundo dados da Frente de Libertação Nacional da Argélia. Os franceses negam; apontam que foram “apenas” 350 mil mortes.

Mali

Em agosto deste ano o Mali sofreu um golpe de estado. O chefe de estado Boubacar Keita foi retirado do poder pelos militares durante um Guerra Civil que já dura anos. O que Mali, Sìria e Algéria tem em comum? A colonização francesa.

No norte do Mali, a dominação de grupos radicais islâmicos ligados a Al-Qaeda levou a diversas crises humanitários e chacinas de “Infiéis” na região. Entretanto, o recorte chamado de “Sudão Francês” feito pelos colonizadores no século XIX que durou até 1960 é justamente o cerne desses conflitos: a regra de “dividir para conquistar” e a posterior reaglutinação de povos absolutamente diferentes e em conflito sob um mesmo território levou o país a total instabilidade política que é observada há décadas no país.

Colhemos o que plantamos

Políticos extremistas como Marine Le Pen e agora o próprio centrista Macron querem adotar políticas anti-islamismo e anti-imigração como uma forma de alavancar seu eleitorado conservador e nacionalista. Até políticos de esquerda procuram se aproximar de posições anti-imigração na França e no Reino Unido também. Mas será que a crise de imigração e o próprio fortalecimento de vertentes do wahabbismo e salafismo não podem estar estão relacionados ao histórico de roubo, genocídio e apagamento cultural causado pelas colonizações?

Vale reiterar que nada justifica um atentado terrorista. Mas para compreender melhor a situação e os entraves entre o chamado ‘Mundo Árabe’, as ideologias extremistas do Islã e suas relações com a Europa, é absolutamente necessário e central compreender o papel da colonização nessas dinâmicas.

 

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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