Reportagem Hypeness

Queimadas no Pantanal e agronegócio: solução também passa por mudança na alimentação

por: Vitor Paiva

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Um dos mais importantes biomas do planeta está sob a mais grave ameaça de sua história: o Pantanal vem ardendo em incêndios que tomaram inéditas proporções ao longo do último mês, e os mais de 12 mil focos ativos de fogo na região representam o maior número da série histórica, registrada desde 1998. As queimadas atuais já consumiram cerca de 15% do bioma, equivalente a cerca de 2,2 milhões de hectares – trata-se, portanto, de uma tragédia ambiental sem precedentes, que pode se tornar irreversível não só para a flora mas para as mais de 1,2 mil espécies de animais nativos, muitos deles sob ameaça de extinção. E mais: setembro registrou aumento de 180% de focos de incêndio no Pantanal, e 60% na Amazônia em comparação com o mesmo período no ano passado. 2020 já é o pior ano já registrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e o segundo pior para a Amazônia desde 2010.

Focos recentes de incêndio no Pantanal registrados por satélite © Greenpeace

Diante de tal cenário, o presidente Jair Bolsonaro se viu obrigado a comentar o tema em plena abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU – e o discurso não poderia ser simbolicamente pior: como mais uma fagulha que ajuda a incendiar o verde pantaneiro, Bolsonaro baseou-se em fato nenhum para atribuir às populações nativas – justamente as que vivem no Pantanal e dependem da saúde de tal vegetação para sobreviver – a responsabilidade pelos incêndios. Mas, a partir das descaradas mentiras presidências que aparentam buscar encobrir a real motivação por trás do fogo, iluminam-se perguntas essenciais: quem são, afinais, os responsáveis pelas queimadas no Pantanal? E qual é a nossa responsabilidade individual, enquanto consumidores e cidadãos, nessa trágica conta?

Em entrevista exclusiva, o professor titular sênior do Instituto de Energia e Ambiente e membro do Conselho Nacional do Greenpeace, Dr. Pedro Roberto Jacobi, concorda com os especialistas de que, apesar da falta de chuva, a dimensão descontrolada das queimadas atuais é efeito da ação humana. “Tudo indica que são os fazendeiros. As informações indicam que as áreas foram queimadas com finalidades de produção, seja de gado, seja de outro tipo”, confirma o professor.

Fazenda de gado no Pantanal brasileiro © Getty Images

Segundo estudo da ONG Instituto Centro de Vida as queimadas começaram principalmente em cinco propriedades que fornecem para gigantes do agronegócio. A análise cruzou dados dos focos de calor do INPE com imagens dos satélites Sentinel-2 e Planet e o mapeamento realizada pelo NASA das áreas atingidas pelo fogo. Outro aspecto determinante lembrado por Prof. Jacobi para tal quadro é a redução na fiscalização tanto no Pantanal quanto na Amazônia. “É claro que não dá pra ignorar o fato de que reduziu muito a fiscalização. Isso é um dado concreto, inclusive a redução de recursos para fiscalização. Com mais fiscalização e prevenção se reduz o potencial desses episódios acontecerem”, explica.

© Getty Images

O ciclo das queimadas, portanto, começa com desmatamentos, segue com o fogo para transformação de regiões em pasto, e perde o controle, como no cenário atual – mas termina nas nossas mesas: no alimento que consumimos. O papel do estado é fundamental para o estabelecimento de medidas mais eficazes para a fiscalização das práticas agropecuárias e o estabelecimento de novas e mais sustentáveis formas de produção e, assim, de consumo – mas nosso papel como consumidor é também fundamental. “Se não mexermos com as dinâmicas de produção e de consumo o nosso planeta não vai aguentar”, afirma Rodrigo  Perpétuo, secretário executivo do ICLEI – América do Sul, lembrando que possivelmente as práticas de produção mantidas até aqui talvez já tenham comprometido de forma definitiva o futuro de próximas gerações. “As organizações da sociedade civil possuem papel muito importante em relação a este aspecto, tanto conscientizando a população em relação ao seu poder de transformação, como também contribuindo para fomentar mais transparência nas dinâmicas de produção”, diz. Para Perpétuo, o primeiro passo individual é o consumidor que puder preferir produtos com certificação de origem – que comprovem que sua produção não agride o meio-ambiente.

Vista aérea da situação no Pantanal © Secom/MT

Essa transformação urgente necessariamente terá de passar, portanto, pela combinação de mudanças na maneira com que consumimos com políticas públicas que fomentem uma economia verde. Vale conhecer, por exemplo, o “Green New Deal“, pacote de propostas econômicas dos EUA capitaneado pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez e pelo senador Ed Markey, que busca combater a desigualdade econômica através de medidas que tornem a economia mais verde e que combatam as alterações climáticas – assim como aqui, no entanto, o pacote nos EUA enfrenta a resistência de lobistas e gigantes das mais variadas indústrias.

Mas o papel dos cidadãos e suas escolhas individuais é parte determinante de um futuro sustentável: sem o consumidor comprando a produção perde sua razão de ser – e seu caminho para o lucro, elemento chave por trás de todo o processo. “Muitas vezes as pessoas negligenciam o poder da sua decisão e do comportamento individual, Entretanto, se cada um de nós prestarmos atenção na origem dos produtos que estamos consumindo, coletivamente teremos a possibilidade de enfraquecer as cadeias produtivas baseadas no extrativismo ilegal”, afirma Perpétuo. “Por isso é fundamental que os órgãos de regulação imponham regras que permitam facilmente ao consumidor identificar a origem dos produtos”.

Cerca de 15% do Pantanal foi destruído pelo incêndio atual © Getty Images

Lançado recentemente pelo Greenpeace, o relatório How JBS is still slaughtering the Amazon (Como a JBS continua destruindo a Amazônia, em tradução livre) oferece um pouco da dimensão da tragédia que a JBS, maior empresa de proteína animal do mundo, segue realizando, apesar da promessa feita há mais de dez anos de que passaria a combater o desmatamento. Segundo o relatório, a JBS segue trabalhando com fornecedores que promovem queimadas e desmatamento ilegal na Amazônia e no Pantanal – e pior: o fazem muitas vezes em terras indígenas, que deveriam estar protegidas. “É urgente que compradores de commodities associadas ao desmatamento – empresas de fast food, supermercados – cumpram seus compromissos de rastrear, de ponta a ponta, a cadeia de fornecedores como condição comercial para a continuidade de contratos, ao mesmo tempo em que devem ampliar drasticamente a oferta de produtos à base de plantas”, comunicou o Greenpeace em nota publicada em seu site. Na Amazônia, os focos de incêndio em Junho desse ano foram os maiores já registrados desde 2007.

Detalhe da capa do relatório do Greenpeace sobre a atuação da JBS © Reprodução

Para o Prof. Jacobi, que também é Presidente do Conselho do ICLEI – América do Sul, a mudança nos hábitos é urgente, mas infelizmente a consciência e mesmo a condição para tal transformação ainda se encontra um tanto distante da realidade e das possibilidades. “Isso varia muito de sociedade pra sociedade. A maior parte da população é pobre e não tem condições sequer de comprar carne, então se alimenta do que pode”, comenta. “É uma parcela pequena e urbana a que está modificando seus hábitos de consumo, inclusive no sentido de comer menos carne, de comer mais produtos orgânicos, de consumir produtos que modifiquem efetivamente a prática de consumo. Alguns segmentos estão avançando mais, e é muito importante, pois a produção de orgânicos também favorece o desenvolvimento econômico local, e isso é importante”.

Segundo o professor, a conscientização pode se acelerar por conta do surgimento da atual pandemia e de novas doenças provocadas pelo desmatamento e o consumo de animais – em uma dolorosa porém fundamental tomada de consciência. “É fundamental que os órgãos de regulação imponham regras que permitam facilmente ao consumidor identificar a origem dos produtos”, complementa Perpétuo. ”As organizações da sociedade civil possuem um papel muito importante em relação a este aspecto, tanto conscientizando a população em relação ao seu poder de transformação, como também contribuindo para fomentar mais transparência nas dinâmicas de produção”.

Dois jacarés vitimados pelas queimadas © Getty Images

Como se não bastasse o valor ambiental direto que a maior floresta do mundo – assim como o maior bioma úmido do planeta, que é o Pantanal – oferecem, torna-se claro que o futuro econômico brasileiro também deveria passar por um agronegócio ecologicamente correto, tanto pelo valor concreto de tal mudança e produção, quanto por conta dos boicotes que já começam a acontecer pelas queimadas. “A prática do agronegócio sustentável é uma exigência ambiental e econômica. Já podemos ver campanhas contra produtos agrícolas brasileiros, por um lado, e barreiras não tarifárias impostas por alguns países aos mesmos produtos, por outro lado”, comenta Perpétuo, lembrando do potencial bioeconômico brasileiro, por meio da produção de castanhas, açaí, óleos, combustíveis sustentáveis e mesmo da agricultura em pequena escala.

© Getty Images

“Hoje a bioeconomia é primária e informal, o que prejudica na capacidade de um processo mais eficiente e integrado. Precisamos criar um ecossistema mais pulsante de oportunidades por meio do estímulo a sistemas de financiamento orientados,  investimento em infraestrutura  e certificações”, conclui Rodrigo Perpétuo, secretário executivo do ICLEI – América do Sul.

© Getty Images

Assim, parece só mesmo haver um futuro possível: a combinação de regulação e investimentos públicos com campanhas transparentes e contundentes de conscientização sobre o ciclo de consumo do agronegócio e sua participação nas queimadas. “É difícil romper com um modelo sem que as políticas públicas façam uma clara intervenção no sentido de orientação e facilitação desse processo”, diz Jacobi. “É um ciclo vicioso que precisa ser desconstruído para virar um ciclo virtuoso. Os caminhos estão dados. A questão é efetivamente a implementação, na direção da descarbonização, por exemplo. É um processo lento, mas a sociedade, na medida em que ela vai mudando seus hábitos, também vai estimulando novas formas de consumo”.

© Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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