Reportagem Hypeness

Saúde mental e democracia: a importância de defender o SUS começa pela mente

por: Gabriela Rassy

Ainda que não exista um calendário oficial, os meses foram pouco a pouco ganhando cores que simbolizam importantes temas. Janeiro abre a temporada com a cor branca para falar de saúde mental e em setembro a mente humana volta ao foco com a cor amarela, mas dessa vez para alertar sobre o suicídio. O mês na verdade é uma lembrança, já que ambos os temas precisam ser falados abertamente por que o principal é a prevenção e a preservação da vida.

Aliás, saúde mental fala muito sobre prevenir. Os caminhos da mente são tortuosos e alguém que parece muito feliz pode estar enfrentando uma barra no seu subconsciente. Daí mesmo que vem toda a história por trás da já conhecida campanha do mês – que pode e deve durar o ano todo.

A saúde mental ganhou foco nos EUA, em 1994, quando Mike Emme, de 17 anos, cometeu suicídio. Habilidoso, ele restaurou e pintou seu carro, um Mustang 68, de amarelo. Ninguém havia notado todas as questões psicológicas que o jovem enfrentava para que sua morte fosse evitada. Seu velório foi marcado também pela distribuição de fitas amarelas com a frase “Se você precisar, peça ajuda”.

A história de Mike serviu como ponto de partida para todo um movimento pela prevenção ao suicídio, simbolizado pelo laço na cor amarela. Isso começou nos Estados Unidos, um país onde a população sobre brutalmente as consequências de não ter um sistema de saúde público gratuito.

Por aqui a campanha já ficou conhecida e o tema da saúde mental, especialmente num momento em que vivemos no limite do possível, mostra sua grande relevância. Se está difícil conviver com quem amamos dentro de casa, imagina para pessoas que dividem em muitas um único cômodo? Ou para quem vive em situação de vulnerabilidade, seja na rua ou em lares abusivos? Cuidar da mente sempre fez sentido, mas agora se faz essencial.

O SUS

Mas, para começo de conversa, é preciso explicar o que é a atenção em saúde mental e o que é o SUS. O Sistema Único de Saúde é um sistema público e gratuito de acesso amplo e integral à todos os níveis e serviços de saúde. O atendimento em saúde mental, incluindo serviços, programas e estratégias de ação, é desenvolvido no âmbito do SUS. Assim, qualquer brasileire, independente de condições físicas, mentais, financeiras, localidade, sexo, religião e quaisquer subjetividade imaginável pode ter acesso ao cuidado de sua saúde.

O principal e mais estratégico serviço de atendimento em saúde mental é o CAPS, que é um serviço aberto e de base territorial, sendo responsável por todas as demandas de saúde mental de seu território de abrangência, como explica a terapeuta ocupacional sanitarista Claudia Braga.

“Esse serviço presta atenção direta às pessoas com problemas de saúde mental, promovendo percursos de cuidado, e ampliando a autonomia e participação social dos usuários desse serviço, mas também pela sua atuação no território ele desenvolve ações de promoção de saúde mental, além de ações de diminuição do estigma e do preconceito. A saúde mental se faz na vida cotidiana, no espaço comum da cidade”.

Neste espaço comum acontecem atividades culturais que trazem temas importantes de cada núcleo social à tona, são formadas associações de moradores para lutar por direitos, vizinhos unidos pelas melhorias nos bairros e toda troca social que possa ampliar os contatos, redes de afeto, aprendizados, enfim, oportunidades de lidar com situações adversas.

CAPS Brasilândia, por Paula Rodrigues/32xSP

“Eu caí no CAPS ali de Perdizes, 2015, comecei a fazer meu tratamento lá. Desenho, criação, teatro”, conta Jimmy The Dancer, figura conhecida das festas underground de São Paulo. As vivências culturais e acompanhamento psicológico fizeram e ainda fazem a diferença na vida dele. “Tive várias ajudas. De mim mesmo e agradeço aos médicos, psiquiatras que mexem com muitas pessoas que têm problemas, pânico. Eu passei por isso. Por experiência da polícia, do sistema racista. Mas to aqui, vivo, em casa. Jah bless”, agradece o dançarino e performer.

Mesmo durante a pandemia, Jimmy seguiu recebendo atendimento dos profissionais do CAPS, ainda que a distância. Chamadas telefônicas não faltaram para checar seu bem estar e a progressão do tratamento.

Os acompanhamentos à distância fizeram toda a diferença. “Da pessoa perceber que ela não está, de forma alguma, sendo esquecida pelos profissionais de saúde, pelas pessoas que auxiliam nesse cuidado, mas que ela também possa considerar a sua própria potência, seu próprio corpo, próprios limites, para que esse profissional consiga trabalhar junto com ela”, explica Josiane Giaj-Lévra, psicóloga especializada em acompanhamento de pessoas trans, travestis e população LGBTQ+.

Os mais vulneráveis

Da população em situação de rua às pessoas LGBTQI+ – que muitas vezes compõe o mesmo grupo -, a saúde mental faz seu marco de necessidade. Josiane atuou na cracolândia, no Consultório da Rua, onde teve muito contato com travestis e transexuais. Trabalhou Centro de Referência e Defesa da Diversidade por 4 anos e hoje atende em uma UBS na cidade de São Paulo.

Josiane afirma que, mais do que nunca, a gratuidade à saúde integral é necessária pela questão da vulnerabilidade. “Se para alguém dentro das normas sociais já é muito difícil se bancar financeiramente, bancar o plano de saúde, um acompanhamento fora do SUS, que dirá para as pessoas trans”, aponta. “Todas as vacinas que a gente tem acesso vêm da gratuidade do SUS. Defender o SUS é defender o acesso ao que a gente tem de mais essencial”.

Outro ponto importante quando pensamos em pandemia é o caráter higienista de algumas políticas públicas. O psicólogo e psicanalista Mário César da Silva. “Essa situação se acirrou bastante. Logo depois de decretada a quarentena no mês de março, dia seguinte, foi fechado um serviço de convivência na região da cracolândia e inaugurado um outro no Glicério, muito distante da parte do centro que muitas pessoas preferem permanecer”, conta.

Ele relembra ainda o caso do Padre Julio Lancellotti, no bairro da Mooca, que vem sendo ameaçado. “Isso tudo por conta do trabalho que ele faz com essa população e fruto da especulação imobiliária”, analisa. O padre tem sido alvo de ataques de candidatos extremistas de direita, como Arthur do Val sob o esdruxulo alter ego Mamãe Falei, além das ações violentas do atual prefeito Bruno Covas na retirada de cobertores e pertences das pessoas em situação de rua da cidade.

A política por traz de tudo

Por falar em política, e não tem como fugir dela em se falando de saúde mental pública, Claudia Braga nos dá um panorama. “A boa notícia é que, no Brasil, uma política de democratização do acesso à saúde mental existe. Ela previu e vem implementando uma rede de serviços abertos, de base territorial, e substitutivo aos hospitais psiquiátricos, serviços que têm por objetivo a promoção e garantia do cuidado em liberdade e de cidadania das pessoas com problemas de saúde mental”.

Atualmente os cidadãos brasileiros podem ser atendidos nas estruturas do CAPS no Brasil todo, ou como Claudia bem exemplifica, do Oiapoque ao Chuí. A reforma reforma psiquiátrica possibilitou essa mudança de paradigmas intimamente relacionada ao fechamento dos hospitais psiquiátricos e a substituição por uma rede de serviços territoriais. “A democratização do acesso à saúde mental está necessariamente relacionada com a mudança do modelo de atenção”.

Agora, a má notícia é que esse modelo está ameaçado. “Desde 2016 a gente vê um retrocesso na política de saúde mental e a volta dos hospitais psiquiátricos, então nesse sentido é preciso garantir que esse modelo que é baseado na comunidade possa continuar sendo nosso modelo de atenção”, explica Claudia.

“O cuidado no território advindo da luta antimanicomial ele tem como uma principal característica o acolhimento da diferença pela sociedade”, pondeta Mário. “É como se a gente mudasse a paisagem urbana, política e social de modo a acolher essa diferença e nesse sentido é mais do que importante não modelo substitutivo em Saúde Mental aos manicômios, mas na verdade a gente tem que produzir – já produzimos e vamos seguir produzindo – um novo paradigma no que concerne ao cuidado em Saúde Mental, ao referencial teórico, à clínica, ao aspectos sócio culturais e aos político-administrativos”.

Sociedade na luta

Em relação aos movimentos sociais, São Paulo conta com o Movimento Paulista da Luta Antimanicomial. Em relação às drogas, as atuações mais significativas partem do Fórum Estadual de Redução de Danos, do Nós Temos, além do Fórum de Drogas e Direitos Humanos, que é tocado pelo É de Lei, uma ONG que trabalha com redução de danos no centro. Vale lembrar também do imoprtante trabalho de integração feito pelo A Craco Resiste, um movimento social formado para garantir os direitos das pessoas que ocupam àquela região, além da ONG Tem Sentimento, que também produz cuidado dessas pessoas mais vulneráveis.

Trabalhos como o de Josiane, que na UBS em que atende é a única profissional da psicologia e cuida de 48 mil pessoas, precisam ser valorizados. A atenção primária em saúde é a porta de entrada no SUS. Em complemento, as atuações sociais são mais do que necessárias nesse cenário e a complexidade de temas relacionados à mente não caberiam nessa breve reportagem.

“Sem sombra de dúvida a saúde pública e universal é fundamental para que esse cuidado seja possível. De que outro modo, que não entendendo a saúde como um direito e o Estado como o ente responsável por garantir esse direito, seria possível para essa população frequentemente estigmatizada e com baixos recursos financeiros ter acesso a práticas de cuidado que respondam a sua necessidades e que sejam orientadas pela ética do cuidado? Por isso é preciso defender o SUS, defender os princípios do SUS e demandar do Estado que invista recursos nesse sistema que entende os sujeitos, sobretudo, como cidadãos”, conclui Claudia.

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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