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A Salvador negra que não parou para a pandemia pelas lentes de Antonello Veneri

por: Kauê Vieira

Quando a pandemia do novo coronavírus mudou os rumos da vida brasileira, uma cidade em especial sentiu os efeitos colaterais do vírus que ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros. Famosa pelo fervo de suas ruas, becos e vielas, Salvador teve que se adaptar a um novo normal que impôs o silêncio como regra. 

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Em se tratando de Brasil, a análise não pode se ater ao romantismo de uma cidade que até pode ser filha de Oxum, mas não fica de pé sem a quentura de Exu e a correria de Ogum. Salvador, portanto, seguiu pulsando em meio à pandemia. 

A pandemia não deixou em casa que não tem escolha

A pandemia não deixou em casa que não tem escolha

‘Não foi por Escolha’

Antonello Veneri, fotógrafo italiano radicado no Brasil desde 2009, resolveu jogar luz nos rostos dessas pessoas cotidianamente inviabilizadas, mas que exercem funções decisivas para que a vida siga sem sobressaltos. A série ‘Não foi por Escolha’ expõe, sem dizer uma única palavra, como desigualdades históricas capitaneadas pelo racismo interferem, literalmente, na vida das pessoas. 

“O jornalismo visual, a fotografia é direta. Imediata. Então,  quem vê este ensaio logo enxerga que a grande maioria desses trabalhadores e trabalhadoras são pessoas negras. São eles e elas os e as que seguram a cidade. É preciso que todo mundo, primeiramente os brasileiros, entenda muito bem isso”, explica Antonello Veneri em entrevista ao Hypeness.

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São os pretos, como dizem na Bahia, que seguram o reggae. E são eles os que mais sofrem os efeitos de situações excepcionais como a incidência de uma pandemia em um país que buscou, com todas as forças, negar a realidade cruel e perigosa da covid-19. 

Salvador é a 2ª com o maior índice de desemprego entre capitais

Salvador é a 2ª com o maior índice de desemprego entre capitais

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro se gabava de um suposto ‘porte de atleta’, frentistas, farmacêuticos, motoristas de ônibus, enfermeiras e camelôs buscavam o ganha pão em uma economia em frangalhos. Salvador é dona da segunda maior taxa de desemprego entre capitais brasileiras. Os negros, claro, são os que mais sofrem com a precarização. 

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) aponta que a capital baiana registrou taxa de desocupação de 17,5% nos três primeiros meses de 2020. Ou seja, números que ainda não transmitem os efeitos da pandemia na economia soteropolitana. Antonello, profissional acostumado a documentar a realidade das ruas nem sempre envolvida em ternura, nos explica que a resiliência dos trabalhadores essenciais foi o que chamou sua atenção. 

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O que me marcou nesta longa jornada de documentação nas ruas foi perceber o sentimento de aceitação (que não quer dizer resignação) destas pessoas que não têm escolha. Elas estão com medo, mas encaram a onda. Tenho muito orgulho de ter documentado isso

A recusa do fotógrafo italiano em associar necessidade com resignação corrobora com críticas de líderes sociais sobre estereótipos que colam a realidade de desigualdade junto do papo furado meritocrático. Como se homens e mulheres negras ou, como cantavam Caetano e Gil, ‘quase pretos de tão pobres’, estivessem encarando o coronavírus pelo simples fato de serem corajosos. Não são. 

O fator escravidão na pandemia 

Ao contrário, assim como Salvador – cidade mais negra fora da África -, pretos pagaram a conta da pandemia com a vida ou com o ganha pão que a sustenta. A CNN Brasil, baseada em números do Ministério da Saúde, mostrou que em cada 10 brancos vitimados pela covi-19, 14 pretos e pardos perderam a vida pelo mesmo motivo

Se negros e brancos estão na casa dos 50% quando o assunto são pessoas internadas por causa do coronavírus, a mesma lógica não se aplica aos óbitos. Conforme concluiu o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 57% dos mortos pela covid-19 são negros contra 41% de brancos

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Socorro teve que pilotar o ônibus em meio à pandemia de covi-19

O trabalho na pandemia não parou pra muita gente

Diferente do que autoridades ditas competentes tentam nos fazer acreditar, estes números têm rostos, histórias, sonhos, amigos e família. Perguntado sobre personagens marcantes durante o trabalho em ‘Não foi por Escolha’, Antonello Veneri lembra de Socorro, mulher e motorista de ônibus

Têm várias [fotos], aliás, todas me tocaram, porque atrás de cada imagem tem uma história. A história que essa pessoa me contou. Mas existem duas fotos que me tocaram particularmente. A de Socorro,  mulher motorista que com grande força todos os dias, dirige um ônibus. E a da senhora/empregada doméstica empurrando um carrinho. Empregada doméstica não é um trabalho essencial, mas no Brasil, infelizmente, parece ser. Esta foto diz tantas coisas. A dignidade e elegância humana dessa senhora falam mais alto do que tudo. 

A relação do Brasil com o serviço doméstico é um case perfeito para os que ainda não entenderam como as relações raciais no país ainda se baseiam na lógica da escravidão. Dois casos em particular, ambos durante a pandemia, exemplificam com uma triste perfeição como as classes mais altas ainda estão presas ao universo escravocrata. 

A primeira pessoa a morrer de coronavírus no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica de 63 anos. A senhora, que não teve o nome revelado pela família, percorria 120 km toda a semana entre Miguel Pereira até o apartamento no Alto Leblon – bairro com o metro quadrado mais caro do Brasil

‘Não foi por Escolha’: Antonello retrata Salvador que não parou durante pandemia

‘Não foi por Escolha’: Antonello retrata Salvador que não parou durante pandemia

A idosa estava na profissão desde jovem para ajudar a família e contraiu o vírus da patroa, que acabara de voltar de uma viagem para Itália – epicentro da doença até então. Ao contrário do que foi recomendado por profissionais de saúde, a família de alto padrão de um bairro de luxo da Zona Sul do Rio de Janeiro não optou por deixar a funcionária, membra do grupo de risco, e que morava parte da semana com os patrões no Leblon, em casa. 

Outro caso emblemático e que vai ao encontro da proposta documental de Antonello Veneri aconteceu no Recife. A vida de Mirtes Renata mudou para sempre com a morte do filho, Miguel, de apenas 5 anos, que caiu do 9º andar de um prédio de luxo da capital pernambucana. 

Empregada doméstica, Mirtes se arriscava em meio ao avanço do vírus para garantir comida na mesa da família. Ela, que morava com a mãe e o filho, levou Miguel para o trabalho e não pôde sequer contar com o apoio da patroa. Nada de ‘ela é quase da família’ para Sarí Corte Real, que irritada com uma suposta impaciência do garoto, autorizou que ele entrasse em um elevador para que a primeira-dama de Tamandaré continuasse fazendo as unhas. Miguel acabou se perdendo e foi encontrado sem vida pela própria mãe. Mirtes passeava com os cachorros de Sarí, que apesar de denunciada pelo crime de abandono de incapaz, sequer foi presa. 

A 1ª morta por covid-19 no RJ foi uma empregada doméstica

‘Não foi por Escolha’, bem disse Antonello Veneri. A realidade de pretos, pardos e das camadas mais pobres do Brasil foi, sim, impactada pela pandemia. Mas, diferente do isolamento social das famílias de classe média (quase sempre brancas) dos grandes centros do país, o medo quase que constante de morrer foi a grande novidade de uma nação que fala tanto em Deus, mas dá de ombros para a realidade dura de seus filhos. 

“Me senti orgulhoso por eles”, revela Antonello sobre os rostos eternizados por suas lentes. “Fiquei igualmente orgulhoso em poder fotografar estas pessoas que garantem serviços essenciais e os trabalhadores informais. São pessoas que não têm escolha. Tenho grande orgulho desses trabalhadores e trabalhadoras que, literalmente, seguram a cidade de Salvador”. 

Confira mais algumas imagens de ‘Não foi por Escolha’, do fotógrafo Antonello Veneri: 

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Fotos: Antonello Veneri


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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