Debate

Brasil insiste em ignorar diversidade e política ficou ainda mais branca e masculina

por: Vitor Paiva

Se apesar de tudo os EUA podem mais uma vez celebrar um marco simbólico racial com a eleição de Kamala Harris como a primeira mulher negra a ocupar o cargo de vice-presidente do país, o Brasil segue em triste contramão: além de jamais termos eleito uma pessoa negra como presidente, a elite política nacional vem se tornando ainda mais masculina e branca no país. Depois que Michel Temer foi empossado com sua equipe composta inteiramente por homens, a atual administração federal não trouxe nenhuma pessoa negra e somente duas mulheres entre seus 23 ministros.

A vice-presidente eleita dos EUA, Kamala Harris © Getty Images

Nos EUA a onda pela representatividade vai além da vice-presidente: não só o governo Biden promete a implementação de políticas públicas pelo combate ao racismo e a promoção da igualdade de gênero, o respeito à diversidade na formação da equipe e em cargos federais diversos, como se tornou mais diverso o próprio congresso. O percentual de mulheres eleitas subiu de 23,7% para 26,5% por lá, com 141 mulheres até então, e 51 deputadas negras eleitas. No Brasil, a porcentagem de mulheres no congresso não passa de 15%.

E a perspectiva para o Brasil não é melhor: todos os candidatos até aqui cotados para a eleição presidencial de 2022 são homens, e praticamente todos são brancos – o único envolvido que na última eleição se autodeclarou indígena foi o atual vice-presidente Hamilton Mourão, que apesar disso em nada defende as causas do grupo, e ainda afirmou que a suposta “indolência” brasileira seria uma “herança indígena” durante a campanha. Mourão é parte do mesmo governo que sistematicamente minimiza o racismo e a luta do povo negro no Brasil: não por acaso, diante da assassinato recente do homem negro Beto Freitas por um segurança do Carrefour, Mourão afirmou que o caso não era racial e que “não existe racismo” no país.

A equipe ministerial de Dilma em 2010 © Reuters

Segundo levantamento realizado por cientistas da University College London em parceria com a James Madison University e da College of Saint Benedit and Saint John’s University, desde o governo Sarney até hoje foi o Governo Dilma o que mais trouxe mulheres para seu primeiro escalão. Ainda assim, o número era baixo: 9 entre 37 ministros. Na questão racial, quem mais representou foi o governo Lula, com 7 ministros negros ao longo dos dois mandatos. O Brasil ocupa o 104º lugar no ranking de empoderamento político de mulheres levantado pelo Fórum Econômico Mundial em 2020, sobre número de mulheres no Congresso e no comando de ministérios.

A equipe ministerial do atual governo © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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