Ciência

Cogumelos mágicos são usados como terapêuticos contra a ansiedade de pacientes em estado grave no Canadá

Vitor Paiva - 27/11/2020 | Atualizada em - 05/03/2021

Um dos problemas da proibição moral e irrestrita de drogas em geral é a interdição do potencial médico ou terapêutico que um determinado elemento pode possuir. O caso da maconha vem se revelando exemplar em todo o mundo, com um sem-fim de potenciais médicos sendo cada vez mais descobertos e aplicados com sucesso a partir da legalização em diversos estados e países do planeta. No Canadá, agora parece ser a vez dos chamados cogumelos mágicos – a psilocibina vem se revelando um excelente remédio para a ansiedade e a depressão, principalmente em pacientes enfrentando outras doenças ainda mais graves, como o câncer.

Exemplo de cogumelos mágicos do tipo psilocybin © Getty Images

Apesar de ser proibido nos EUA desde 1968 e também no Canadá desde 1974, uma brecha na lei canadense  permitiu que a Therapsil, empresa sem fins lucrativos do estado de Victoria, no país, disponibilizasse para casos de pacientes em estado terminal os tais cogumelos mágicos como remédio para ansiedade. A sessão 56 do “Ato de controle de drogas e substâncias” do Canadá afirma que o ministério da saúde pode criar exceções em leis contra drogas quando forem “necessárias para propósito médico ou científico ou se for do interesse público”. A partir de tal noção, diversos pacientes se inscreveram na fila da Therapsil para receberem doses da psilocibina, que passaram a ser paulatinamente liberadas, caso a caso, desde 2017.

O psicólogo Bruce Tobin, fundador da Therapsil, e Mona Streleaff, a primeira paciente não-terminal a utilizar terapia com psilocibina © Therapsil

O mesmo aconteceu com a ayahuasca, que vem tendo sua importação permitida no Canadá para uso em rituais e cerimônias religiosas a partir da tal “sessão 56”. Uma reportagem do jornal canadense The Tyee acompanhou um dos pacientes a quem o uso dos cogumelos mágicos foi concedido – e, passados três meses, o resultado foi transformador. “Todos os pensamentos inúteis e incessantes que a ansiedade traz ficaram quietos para mim”, afirma Thomas Hartle, de 52 anos, que vem enfrentando desde 2016 um câncer no cólon de estágio 4, que se tornou inoperável. “É tão mais fácil pra mim permanecer no momento presente e isso melhorou muito minha qualidade de vida. Agora se eu sinto dor ou algo assim, é desconfortável, mas eu não passo a pensar imediatamente se irei morrer naquela tarde”, comentou Hartie a partir da experiência com a psilocibina.

O paciente Thomas Hartle © arquivo pessoal

O sucesso do uso dos cogumelos mágicos no caso de Hartie se deu também pelo acompanhamento terapêutico, complemento fundamental para o controle e o êxito do tratamento de modo geral. “A maioria das drogas utilizadas em psicoterapia são tratamentos sintomáticos. Em outras palavras, são tratamentos que suprimem os sintomas e os caminhos naturais para enfrentar a situação”, explica o Dr. Sean O’Sullivan, médico da cidade de Ontário, no Canadá, e diretor-médico da Therapsil, a respeito de como os cogumelos funcionam em terapia. “Os psicodélicos abrem as portas do inconsciente e permitem que materiais previamente reprimidos emerjam à consciência. A sessão psicodélica é um rio furioso às vezes, e você não quer tentar impedir o fluxo do rio ou ficar em seu caminho – você quer deixá-lo passar”.

Bruce Tobin acompanhando a primeira sessão com a psilocibina de Thomas Hartle © Facebook

É claro que a psilocibina não é um tratamento para o câncer e nem pretende ser: seu uso visa essencialmente a melhoria de vida a que Thomas Hartle , o paciente acompanhando pelo jornal canadense, se referiu. Por se tratar de uma droga potencialmente forte e invasiva, o acompanhamento profissional é fundamental, e ainda assim cada caso será um caso – como também é no uso dos medicamentos tradicionais. Para Hartle e tantos outros, porém, a diferença vem sendo radical – e para o bem. “Eu estou honestamente dando meu melhor para morrer com câncer, e não de câncer”, ele diz.

© Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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