Matéria Especial Hypeness

Democracia cancelada: censura e violência nas eleições americanas

por: Yuri Ferreira

3 de novembro de 2020 é uma data histórica para o mundo. No pico de sua crise, a democracia americana decidirá se optará pela continuidade de Donald J. Trump na presidência ou pela volta dos Democratas ao poder com o ex-vice-presidente Joe Biden. Os estadunidenses estão indo às urnas em um clima depolarização; e pouco ou muito pouco do debate se centra nas políticas públicas que esses dois homens idosos e brancos defendem, mas sim nos caminhos da democracia representativa para o futuro.

O lado pró-Biden advoga pelo democrata centrista para que o caos gerado pela administração Trump acabe. Do outro lado, Trump advoga por sua continuidade no poder. Em um fato sem precedentes na história da humanidade, o atual presidente dos EUA afirmou que talvez não reconheça os resultados da eleição – princípio básico de um estado democrático.

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Trump e Biden representam caminhos diferentes para uma América polarizada: de um lado, o símbolo-mor do neofascismo no mundo, do outro, um neoliberal que, apesar de todos erros, preza pela manutenção da democracia

Conforme as horas vão passando e a ampulheta da democracia americana vai se esgotando, a conclusão que fica na cabeça de ambos os lados é: independente do resultado das eleições, um cenário desolador se encontrará. Dois novos fatores entraram em ação nessa eleição que mudaram a dinâmica do pleito e acirraram a polarização no país do mundo livre”: violência física e censura.

Facebook e Twitter acolhem a censura

Glenn Greenwald, fundador do The Intercept e notório jornalista no Brasil e nos EUA, anunciou sua saída do veículo que fundou após um artigo seu sobre Joe Biden ser rejeitado pelos editores da publicação estadunidense. O texto reforçava os negócios do filho de Joe, Hunter Biden, com empresas chinesas e ucranianas ligadas à corrupção. As informações haviam sido previamente publicadas no New York Post, veículo pró-Trump, que obteve e-mails de Hunter Biden roubados por uma assistência técnica de computadores. As informações foram vazadas e confirmaram especulações sobre corrupção envolvendo o filho do vice-presidente.

Facebook e Twitter baniram o link do NY Post de suas plataformas. A alegação usada pelas gigantes do Vale do Silício é que a notícia foi obtida através de métodos ilegais e que ela poderia “desestabilizar a democracia”. Apesar de as informações serem vazadas, Hunter Biden não negou a veracidade dos e-mails e pessoas indexadas nas conversas confirmaram que os arquivos são reais.

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Assim como a Vaza-Jato, os meios não importam para o fim da notícia. Os e-mails de Hunter Biden apontam a influência de uma pessoa pública – o filho de um Vice-Presidente – em negócios corruptos em nações estrangeiras. Caso o Facebook estivesse alinhado com Sérgio Moro, em 2019, eles poderiam, sob a mesma alegação, barrar as matérias do The Intercept Brasil que expuseram as relações duvidosas entre o ex-juiz e os procuradores da Operação Lava-Jato.

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O argumento dos democratas que apoiaram a remoção do link e a consequente censura do NY Post nas plataformas de mídia é que isso seria válido porque lutar contra Trump é lutar contra o neofascismo. O responsável pela decisão do Facebook foi Andy Stone, que trabalhou como diretor de comunicação do Partido Democrata, principal beneficiado com a censura.

“A censura da matéria do New York Post não é de maneira alguma, a primeira vez em que vemos as gigantes da tecnologia censurando a liberdade de expressão. Mas é certamente a história mais agressiva nesse sentido e tem claros fins políticos. Se não entendermos isso e agirmos contra esses gigantes, isso vai se tornar algo muito pior: a censura será normalizada”, escreve Branko Marcetic, jornalista de política da Jacobin, publicação de esquerda radical estadunidense.

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O Twitter voltou atrás na decisão, mas o Facebook não. A censura, além de animar ainda mais os vetores pró-Trump – que afirmam cruzar uma batalha contra o sistema e a mídia -, abre precedentes para que setores progressistas também tenham suas vozes caladas em nome da cruzada contra a desinformação.

“A única coisa mais antidemocrática do que as atitudes do Twitter e do Facebook quanto à história do NY Post é a mentalidade que faz com que pessoas normais comemorem isso. Sempre denunciamos e lutamos contra a censura [das big-techs] e finalmente vimos o seu poder“, afirma Glenn Greenwald em artigo de outubro para o The Intercept.

Violência e supressão de votos: as armas de Trump

Nos EUA, o problema da participação nas eleições é de longa data. É por isso que muitos artistas e celebridades fazem campanha para as pessoas irem às urnas. O problema não é somente que lá o voto é obrigatório; todo o sistema eleitoral confuso faz com que o eleitor seja desincentivado a comparecer às urnas.

Em Virginia, o sistema de registro para votar foi atacado e milhares não puderam votar. Na última sexta-feira, policiais dispersaram com gás de pimenta e cassetetes um grupo de eleitores que marchavam para um centro eleitoral na Carolina do Norte. Em Wisconsin, um mesário barrou eleitores que foram às urnas com camisetas do movimento Black Lives Matter. Há cidades com mais de 200 mil habitantes e somente trinta urnas para voto, como Forsyth, Georgia. Para cada urna, há 8 mil pessoas para votar.

Veja um vídeo do que aconteceu na Carolina do Norte:

Por conta da pandemia, o voto por correio se tornou uma pauta. Trump trocou o chefe dos Correios com o fim de precarizar o sistema de forma tão grande que as pessoas não votassem. Caixas de correio foram retiradas de circulação, urnas foram encontradas no lixo e a completa várzea instituída pelas mãos do chefe do executivo foram formas de driblar as urnas e tentar impedir que as pessoas votassem.

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Na Flórida, dois civis armados ficaram postados ao redor dos locais de votação utilizando os bonés do Make America Great Again (Faça a América Grande Novamente, slogan de Trump). Washington, D.C e outras capitais já estão em estado de atenção, com segurança redobrada porque qualquer um dos lados que ganhar sofrerá com protestos massivos.

Apoiadores de Trump ligados a indústria do xisto e do petróleo exibem armas durante comício pró-Republicano

Do lado de Trump, o problema é ainda maior: milícias paramilitares, geralmente comandadas por supremacistas brancos – como o caso observado em Kenosha, Winsconsin – mostram que os ânimos podem se acirrar de tal forma que muitos veículos de mídia estadunidenses tratam da possibilidade de uma guerra civil eclodir no país.

Ao Politico, o líder da milícia pró-Trumo Oath Keepers, formada por ex-policiais e veteranos de guerra, Stewart Rhodes afirmou: “Não vai ser fácil a batalha para a esquerda radical. Eles vão estar lutando contra os mais competentes e batalhadores veteranos de guerra da nossa história”. 

Tanto democratas quanto republicanos tem visto a violência como um caminho razoável para a tomada de poder. Em pesquisa recente, 30% dos democratas enxergam que a violência é justificável na política, enquanto 33% dos republicanos concordam com a utilização da força para tomada de poder. A escala da violência é uma consequência grave da polarização.

Cientistas políticos enxergam que nível de polarização atual dos EUA é maior do que o encontrado em 1860, quando eclodiu a Guerra Civil Americana, conflito pela manutenção da escravatura no sul do país

Parte da mídia americana reportou que Trump não aceitará os resultados eleitorais na noite de hoje. Figuras influentes do exército como o ex-tenente-coronel John Nagl pediram ao exército que protejam a constituição e ajam contra o presidente em caso de golpe: “O presidente dos Estados Unidos está subvertendo nosso sistema eleitoral de forma ativa, e ameaça permanecer no cargo, desafiando a nossa Constituição. Em alguns meses, você terá que escolher entre desafiar um presidente fora da lei ou trair seu juramento constitucional”, afirma Nagl, em carta aberto ao generalato estadunidense.

Como a eleição pode nos impactar

Há pouco dissenso entre os especialistas em análise política que um possível golpe de Trump possa acender os ânimos antidemocráticos no Brasil. O plebiscito chileno por uma nova constituição, as eleições na Bolívia e a vitória de Alberto Fernandez na Argentina em 2019 mostram, como diz o próprio presidente Jair Bolsonaro, “uma guinada à esquerda” na América Latina.

“De modo geral, na campanha de Trump não serão poupados esforços para desmantelar as estruturas democráticas e, assim, manter o atual presidente no poder. Talvez exista algum consolo no fato de não estarmos sozinhos. Outras grandes democracias também estão ruindo, caindo nas mãos de líderes com traços fascistas, quando não assumidos ideologicamente fascistas mesmo (muitos, incluindo grandes estudiosos do fascismo, consideram esta caracterização de Trump como muito caridosa)”, afirma Noam Chomsky, linguista, filósofo e sociólogo, em referência a Bolsonaro e Nehandra Modi, presidente da Índia.

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Relações de Trump com Bolsonaro podem acirrar a polarização no Brasil em caso de vitória ou golpe do atual presidente americano

Caso Trump realmente tome o poder de forma ilegal, não é difícil de se imaginar que o presidente Jair Bolsonaro, que já ameaçou intervir no Supremo Tribunal Federal, possa tentar partir para vias antidemocráticas ou não aceitar o resultado das eleições.

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Caso Biden assuma a Casa Branca, o problema é outro: o Itamaraty tem uma relação muito próxima de Trump, o que pode dificultar as relações entre Brasil e EUA. Biden afirmou no primeiro debate presidencial que aplicaria sanções econômicas ao Brasil caso o país não agisse de maneira adequada em relação à preservação da Amazônia.

Se qualquer dos resultados nos EUA levar à violência generalizada no país, isso também pode ser replicado aqui no Brasil em 2022.  Se a política do Facebook de censurar links que não estejam de acordo com os interesses da empresa continuar, podemos encontrar um cenário sem liberdade de expressão para os próximos anos.

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O impacto das redes sociais nas democracias pode ter efeitos severos contra o princípio básico do estado democrático: Tome cuidado com a polarização, beba água e não confie nas big-techs. Não podemos cancelar a nossa democracia.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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