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Derrotado, Trump age como se nada tivesse acontecido. Presidente pode se recusar a deixar Casa Branca?

por: Yuri Ferreira

No último sábado, Joseph R. Biden foi declarado presidente dos EUA por boa parte da mídia. Com uma virada de última hora e vitórias por pequenas margens em estados como Georgia, Nevada e Wisconsin, o atual presidente Donald J. Trump está fazendo algo sem precedentes na história da democracia estadunidense: mesmo após a confirmação de Biden como presidente eleito, o republicano ainda não reconheceu a derrota e promete uma batalha jurídica contra o democrata alegando fraudes no sistema eleitoral.

Ainda que faltem provas de uma suposta fraude, algo ainda preocupa a democracia americana, Trump não pretende iniciar um processo de transição de poder para Biden e alguns especulam que ele pode se recusar a deixar a Casa Branca, mesmo após o dia 15 de dezembro, quando o colégio eleitoral ratifica os resultados da eleição.

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Donald Trump em comício na Pensilvânia, estado em que venceu em 2016 mas perdeu nesse ano. O presidente contesta os resultados da eleição

Trump retirado à força? 

O princípio básico da democracia representativa é que os derrotados nas eleições aceitem os resultados do pleito, caso ele tenha sido legal. A campanha de Trump tem pedido recontagem na maioria dos estados em que perdeu, como os swing states (estados em que às vezes democratas ganham, às vezes republicanos ganham), mas tem encontrado derrotas desestimulantes nas cortes eleitorais.

Caso Trump se recuse a aceitar o resultado do pleito e se mantenha na Casa Branca, ele terá de ser retirado à força. Alguns militares dos Estados Unidos já enviaram cartas ao generalato exigindo que as Forças Armadas rejeitem a submissão constitucional ao presidente para reforçar o dever de manter a ordem democrática no país, que, desde 1779, nunca teve um resultado eleitoral questionado em nível nacional. Em 1960, o republicano Richard Nixon contestou os resultados do pleito na Havaí, mas reconheceu a derrota para John F. Kennedy mesmo com a suposta falha eleitoral.

Kamala Harris, primeira mulher vice-presidente da história dos EUA

Desde 2016, é natural que o candidato eleitoral faça o ‘conceding speech’, ou o discurso de derrota, em que aceita os resultados das eleições e deseja boa sorte ao vencedor eleitoral. Nesse caso, o mundo aguardou a fala de Trump, na sexta-feira (6). O presidente, entretanto, não reconheceu o resultado. Ao contrário, preferiu atacar (sem provas) o processo eleitoral norte-americano.

“O povo americano tem direito a uma eleição honesta: isso significa contar todos os votos legais e não contar os votos ilegais. Essa é a única forma de garantir ao público que exista confiança nas eleições. É chocante que a campanha de Biden e o próprio Biden se recusem a concordar com o princípio básico da democracia e deseja que os votos contados sejam fraudulentos, fabricados ou feitos por eleitores mortos ou inelegíveis. Somente um partido agindo de ma fé poderia manter observadores longe das salas de contagem”, afirmou, sem provas, Donald Trump.

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Genro e primeira dama na missão 

Jared Kushner, um dos principais conselheiros da gestão Trump, e a primeira-dama Melania Trump já recomendaram ao presidente que aceite os resultados da eleição o mais rápido possível. Entretanto, a narrativa de fraude já foi encabeçada pela base republicana pró-Trump. Manifestações públicas pela recontagem e protestos em frente às salas de contagem de votos já foram registrados.

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Kamala Harris, vice de Biden, e o candidato democrata já se autodeclaram ‘presidente-eleito’. As ruas de cidades democratas como Nova Iorque e Los Angeles são tomadas pelos eleitores de Biden e a imprensa – inclusive a Fox News, alinhada ideologicamente com Trump – considera a vitória dos democratas uma realidade.

Presidente eleito, Biden falou em união durante 1º discurso

“Estou honrado pela confiança que o povo americano colocou em mim e em Kamala Harris. Mesmo com esses obstáculos sem precedente na história, tivemos um número recorde de americanos votando. Isso prova, novamente, que a democracia bate forte no coração dos EUA. Com o fim da campanha, é hora de colocar os discursos agressivos e a retórica da raiva para trás e nos unir como nação. É hora dos EUA se juntarem novamente. Precisamos nos curar. Somos os Estados Unidos da América. E não há nada que não possamos fazer se trabalharmos juntos”, afirmou Biden em seu discurso de vitória.

Os efeitos de uma contestação dos resultados de uma eleição podem marcar profundas raízes de polarização na narrativa política do país. Caso a retórica violente de Trump se mantenha na sua base eleitoral, é possível que durante os próximos anos o aumento da violência e uma escalada autoritária em qualquer um dos lados do governo possa se tornar uma realidade.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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