Criatividade

Escrever com o corpo: quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

Clara Caldeira - 24/11/2020

‘Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”, confronta o lambe com as letras já meio apagadas. Enquanto caminho pelas ruas do bairro, e da vida, desejo que a resposta seja sempre ‘hoje’, ou, no máximo, ‘ontem’.

Fazer o que nunca se fez como forma de estar no mundo, todos os dias. Será que é possível?

Não precisam ser coisas grandiosas, feitos internacionais. Isso seria impossível, além de muito cansativo. Mas as experiências inéditas podem habitar o dia, e talvez já o façam, sem que nos demos conta. 

Lembrei do quiabo do dia anterior. Não havia tentado antes. Não ficou lá essas coisas, é verdade, mas aprendi. Sabia que o quiabo é originário da Etiópia? Eu não sabia. Mas fiquei sabendo disso, e de mais um monte de coisa nesse dia, porque resolvi fazer quiabo pela primeira vez.

Teve a produção de granola, que inaugurei na semana passada, também com alguns acidentes de percurso na primeira leva. Mas a segunda ficou de lamber a tigela.

Tiveram as aulas experimentais de yoga online com professoras desconhecidas, a oficina de escrita à distância, um ou dois filmes vistos, um livro devorado, o hábito de escrever pela manhã, e, claro, o Encontro em Movimento, meu primeiro contato com a Educação Somática.

O texto que segue é uma tentativa não linear e não descritiva de relatar essa experiência. Uma experiência inédita até então para mim. Uma tentativa de deixar que o corpo escrevesse sozinho, sem tanta intervenção da mente. Uma expressão criativa e livre, em palavras, fruto de uma vivência corporal. É também um convite a todos que tiverem interesse em passar por esse processo, que tem o poder de destrancar portas e janelas da mente e do espírito, através do corpo.

Fui convidada por Juliana Diaz, psicóloga, terapeuta e educadora somática do movimento pelo método “Boby, Mind Movement” a participar de um módulo de oito encontros virtuais. A ideia central do método se baseia no princípio de que nossa anatomia é sensível, e se forma com a nossa história e nossas experiências. 

Segundo Juliana, essa anatomia pode ser influenciada pelo toque, pelo movimento, pelo ambiente externo e pelas relações que construímos. O “Body, Mind Movement” propõe expandir e explorar a consciência em nossas diferentes camadas e estruturas, e convida a uma reorganização nos níveis físicos, mentais e espirituais. Tudo isso, tendo em mente que temos um potencial autorregulador em direção à saúde, e que reconhecer essa inteligência favorece nossa autonomia para alcançar o bem-estar em todas as esferas.

Segue o que se passou em mim:

Me preparo para o que não sei e gosto do que sinto. Sentir o ‘não saber’ é abertura, penso. Coloco o coração vulnerável e o corpo à disposição. Entrega é desconhecer, e ir mesmo assim.  

Preparo o coração para sentir sem julgar. Aguardo. E então medito a pergunta-mantra: “quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”.

E se o “Body, Mind Movement’ diz da recuperação do corpo enquanto canal para perceber e interagir como o mundo, me pergunto se é possível escrever com o corpo.

Me disponho a tentar.

Abrir passagem. Achar a chave que destranca as portas que separam os mundos. Os de dentro e os de fora. Sem medo das criaturas aprisionadas que, livres, poderão circular por ali. Poderão escapar.

Primeiro, fui bicho que armava bote, silencioso. Atenta, escutava barulhos na mata. 

Depois, outros que não sei quem me arrancavam as vísceras. Assim, com as mãos, com os dentes afiados, de fome ou de gula.

Outra vez, fui coisa que subiu feito fogo. De esfregar e de lamber. Quentura, de vontade ou de amor. Amor do outro ou amor de si. 

Então fui descanso de corpo que cai. Desiste. Descanso que se entrega, se joga, cabelo abaixo, cabeça pendura, suspende. A vida… espera e pode esperar.

E aí se abriu. Se abriu pra cima. Olhou pro alto e deixou o coração mesmo exposto, ali aberto, nuzinho, vermelho, pulsando. Pronto pra ser espetado. Pronto pra voar até o alto do céu, pra ser plantado no fundo da terra, ou jogado na beira do rio. Pronto pra acender fogueira que transforma tudo em pó, e começa tudo outra vez.

Intuí o jantar. Cozinhei com o corpo algo que veio da alma. Senti gostos que não conhecia, mas estiveram sempre ali.

O gozo veio fácil, o sono não.

No outro dia fui cobra rasteira, árvore no vento, barco no mar alto em dia de sol, ave marinha e semente que germina e cresce árvore. 

Sentir o mundo com os pés. Como num dizer indígena, que já não lembro quem disse, acho que foi o Krenak. Que andar de sapatos é como andar de olhos vendados.

No silêncio, vejo uma leoa que protege seu filhote e me encara. 

Toques, cheiros, gostos, barulhos, imagens. Fazem aproximar ou afastar. Nos regulamos a partir do outro. Isso é bonito, não é?

O que é se sentir segura para você?
O que te move?

Fico de cócoras e apoio o queixo sobre as mãos. Como naquela posição de criança que ouve história de bruços, deitada no chão. Lembra? Mas de cócoras. O que me move é a infância, mas também a maternidade e à velhice. 

A cócoras é associada à mãe, mas também à anciã. Fortalece o assoalho pélvico. Mas ela me convoca à infância. 

Então eu sou criança, sou mãe e também anciã. Sou muitas. Sou todas. E com o queixo apoiado sobre as mãos me sinto segura e acolhida. Balanço para a frente e para trás como numa cadência gostosa. Como num berço ou numa cadeira de balanço. Neta e avó.

Depois, eu danço e rodopio entre montanhas floridas na Suíça. Como fui parar ali não sei. No rosto, o sorriso abre caminhos e os braços abrem passagem. Me sinto alegre e livre. Estou no quarto, na quarentena, na pandemia, mas estou nas montanhas dos alpes. Estou na cidade, mas estou no campo. Estou no mundo.

De repente, me pego acocorada de novo. Naquela mesma postura de filha-mãe-avó. De criança que ouve história. De ventre que gera vida, de memória que acolhe… e leva e traz. E balança, para a frente e para trás. 

Passado e futuro no movimento constante que é o equilíbrio.
Presente é movimento. Só o movimento existe. Nada jamais parou o tempo.

Como posso ter mais olhos, mais narizes e mais bocas?
Como posso ter mais superfície? 

Sentir com o corpo é desafio quando a mente vagueia, cansada ou tensa.

E então a dança… Ela vem, e leva. Na cadência, na batida. O ritmo submete a mente, e reina. O movimento, resposta criativa do corpo.

Como habitamos o mundo e a nós mesmas?

Descobri que é possível nadar sem água. A vida começou no mar. Fui molécula, água viva, réptil, macaco. Percorri a linha da evolução, fiz estripulias, fiquei de ponta cabeça. 

Em busca do tempo perdido, caminhei guiada por Proust. 

O perfume da minha mãe, o cheiro do fogão à lenha. Citronela, maresia, pinheiro de natal, canela, feijão na panela antes do meio-dia, patchouli, eucalipto.

Os doces de vovó. Pudim de abóbora com coco, bolo de nozes, torta de maçã.

Cozinhas são templos. 

Quando dou por mim tenho uma mão no útero e a outra no estômago. Não foi intencional. O corpo já se encontrou as brechas pra se expressar livremente.  

E as mãos são seres por si só, têm poderes desde o início dos tempos. Estão conectadas diretamente com o sistema nervoso. As mãos dizem o que nos acovardamos de falar, suando, tremendo. As mãos são honestas e entregam verdade.

Mudras são gestos que curam. Libras são gestos que falam. No flamenco, as mãos guiam o ritmo. No tambor, as mãos invocam. 

As mãos comunicam com outros seres, deste e de outros mundos, e também com o universo. Colocar as mãos sobre algo ou alguém pode aliviar, confortar, remover dor, curar. Mãos são receptores mas também transmissores. 

“A mão que guia o pincel e a caneta já encontrou a ideia. Não se sabe se o autor da obra é a mão ou o espírito”. 

E então J. me convida a escolher uma memória, ou melhor, deixar que uma memória me escolha. Vem aquela praia, naquele dia, naquele verão. Num meio de caminho que não era partida nem chegada. Era lugar nenhum. Também não era dia nem noite.

Lembro que tive medo de entrar na água. Estava escuro. Mas fui mesmo assim. Depois, comemos manga com granola. Aquela faca tramontina de 1,99 que carregamos a viagem toda para cortar as frutas achadas no caminho foi mesmo útil, não foi? A gente cortou a manga em pedacinho e usou aquele pote de plástico meio quebrado da ceia de natal dormida que devoramos no aeroporto pra misturar tudo. Foi uma ótima ideia. Eu queria parar em todas as barracas de fruta pela estrada, queria experimentar tudo. Você até tentava me fazer desistir de uma ou outra, mas logo se entregava ao meu exagero. Lembra quando cismei de comprar uma bandeja de jaca? você não se conformava com o cheiro. Durou uns quatro dias no carro e eu bem que me empenhei em acabar tudo logo, mas no final também não aguentava mais. Comi até o fim. Mas essa manga, esse dia, na praia, foi diferente. A gente tava morto de fome. Nem lembro se foi almoço, jantar ou as duas coisas.

Ventava muito naquele fim de tarde que, a essa altura, já era começo de noite. Lembro dos desenhos que as sombras dos coqueiros faziam na areia. Era tão bonito que bati uma foto. Essa foto. Enquanto essa memória que me escolheu me ocupa e me habita – o ventre, o tórax, o peito – penso que queria estar escrevendo sobre ela. Mas se eu me levantar e acender a luz ela pode ir embora. Então me detenho. 

Queria poder escrever com o corpo. Era esse o propósito, lembra? 

Porque essa memória e a visita dela, tudo isso se passou no corpo. Lembro de Y. me dizendo que o que passa no corpo, a rigor, não tem palavra. Mas eu sou teimosa, insisto. 

E enquanto penso nisso percebo que já estou escrevendo. Estou deitada, de olhos fechados. Nada nas mãos, mas escrevo. Escrevo com o corpo e o coração. A música termina e agarro o caderno vermelho. Lembro de Antonio Maria, que, com as mãos quebradas na calada da noite por alguém que desagradou com suas palavras, escreveu: “Que tolos! Eles pensam que jornalista escreve com as mãos”

Este relato é fruto das vivências experimentadas em um módulo do Encontro em Movimento. Para mais informações sobre calendário e valores entrar em contato pelo Instagram, pelo site, ou pelo número de WhatsApp 11 99962-5658 (Juliana Diaz). 

 

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Clara Caldeira
Editora-chefe do Hypeness é jornalista, escritora e pesquisadora em gênero, corpo e meio ambiente, e mestranda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Especialista em gestão na nuvem, tem 15 anos de experiência em jornalismo digital como ênfase em cultura, comportamento, cidadania, meio ambiente e direitos humanos. Nas horas vagas é taurina, poeta, quase vegana, maga das kombuchas, cozinheira de coração cheio e yogi* em infinita formação.

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