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‘Luta por Mim’: Jup do Bairro ironiza luto seletivo no movimento antirracista em novo single

por: Kauê Vieira

Os mais atentos já repararam nas ideias e propostas de uma jovem que deu os primeiros passos na música no centro de São Paulo. Jup do Bairro floresceu para se tornar uma artista multimídia e multifacetada que tem como intuito provocar e promover debates sobre os novos rumos de uma sociedade imersa em processos de violência e agressões. 

Aos 27 anos, a artista usufrui do espaço quase que arrancado à força para cantar e dizer aos quatro ventos: parem de nos matar! É esse o mote do novo single, ‘Luta por Mim’, feito em parceria com o rapper Mulambo. 

“Mulambo e eu escrevemos a faixa antes mesmo da onda de protestos #vidasnegrasimportam tomarem as ruas de todo o mundo a partir da morte de George Floyd”, diz ela em entrevista do Hypeness.  

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‘Luta por Mim’ é protagonizada pela voz grave e forte de Jup e rimas certeiras e provocativas de Mulambo sobre como os corpos de pessoas negras são vistos e tratados na sociedade em que vivemos. A artista explica que a concepção da música, que teve roteiro desenvolvido por ela em parceria com Rodrigo de Carvalho e Felipa Damasco, se baseia nos novos métodos utilizados para manter a opressão racial.

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“Ao mesmo tempo não acredito que foi uma coincidência, o racismo está aí desde sempre e antes de nós, as ações truculentas da polícia também. Sinto que os métodos de opressão vem se sofisticando ao passar do tempo, há pessoas que afirmam fielmente que o racismo não existe no Brasil, por exemplo, mas sabemos que o genocídio dessa população é validada pelo sistema. O cárcere é majoritariamente preto, os corpos que vivem à margem das capitais são em suas maiorias pretos e logo conseguimos traçar um norte do presente ligado ao passado sem reparações necessárias”

‘Apreensiva por eu levar uma vida sem sossego’

Jup do Bairro apresenta quase que uma linha do tempo biográfica em ‘Luta por Mim’. O clipe, apesar de citar símbolos da violência com motivações raciais contra pessoas negras, caminha por uma estrada que se confunde com a vida pessoal da própria artista. Além de negra, Jup do Bairro é uma mulher trans no país mais inseguro para esse grupo social viver. Apesar da queda de 24% no número de pessoas trans assassinadas, o Brasil ainda é o que mais mata. Cerca de 124 pessoas foram assassinadas em 2019 em crimes com motivações transfóbicas, diz relatório da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), em parceria com o IBTE (Instituto Brasileiro Trans de Educação).

A maioria das vítimas que teve a vida ceifada por causa da transfobia são negras. No Brasil, 82% das pessoas assassinadas por serem trans eram pretas, diz relatório do Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos , que alerta para escassez de dados sobre a comunidade LGBT no país.

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O medo de exercer a liberdade de fazer de seu corpo, um porto seguro, o que bem entender, é retratado com sensibilidade e uma grande dose de chá de realidade. Jup, inclusive, convidou sua mãe para aparecer no clipe. Dona Sueli dá voz ao medo vivido por mães de pessoas negras ou que enfrentam a imposição vazia de que você precisa ser comportar de determinada forma para não ser aceito. Pior, para não morrer. 

Um dia minha mãe me disse que o problema dela nunca foi em eu ser travesti, mas o quão ela fica apreensiva por eu levar uma vida sem sossego. Sossego que ela também não teve, mas nesse caso, sendo uma mãe preta num país que o genocídio da população jovem de pele escura é tradição”, reflete a cantora. “Ter a minha mãe como símbolo dessa luta é muito importante, uma mulher que tanto lutou por mim e agora eu luto por ela. Ela é muito tímida, detesta aparecer em câmeras, mas quando eu disse que era pra essa faixa ela não pensou duas vezes: é uma de suas favoritas.

Jup do Bairro ao lado da mãe, Sueli, em ‘Luta por Mim’

O escudo do lugar de fala 

Mas, afinal, como transformar a sociedade em que vivemos em um tempo onde a polarização e obscurantismo se mostram cada vez mais fortalecidos? A resposta, diz Jup do Bairro, está não só em respeitar os chamados ‘lugares de fala’, mas, principalmente, não se manter em silêncio diante do absurdo

A grande isenção do momento é utilizar a carta ‘local de fala’ para não se responsabilizarem por suas falas. O meu local de fala não precisa significar o seu local de silêncio, o meu local de fala vai partir das minhas perspectivas e vivências. E o outro a partir das suas. Não pode ser o papel do preto a responsabilidade una de falar sobre o racismo, de uma pessoa trans ou travesti falar de transfobia, é como correr atrás de seu próprio rabo pois o canal de opressão é do opressor e não do oprimido. A morte desses corpos, quando se é noticiado, rola uma comoção em espécie de viral, comove a partir do momento que comove minha cantora favorita, o ator cult, meu influencer famoso. Mas e os outros corpos? Não importam? Se o racismo acontece todos os dias, de maneiras diferentes, por que falamos dele quando essa morte tem potencial de se tornar um viral virtual?

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Jup vai além e questiona o papel exercido por parte da classe artística brasileira. Não foram poucos, infelizmente, os casos de racismo que estarreceram a sociedade. O ápice, no entanto, veio com a morte de George Floyd – asfixiado pelo joelho do policial branco Derek Chauvin nos Estados Unidos e que provocou os maiores protestos antirracistas desde a luta pelos direitos civis na década de 1960. 

‘Sou uma artista que fala sobre suas vivências, sobre o seu tempo mas sem ser refém’

As redes sociais foram inundadas por frases de efeitos e textões se solidarizando com o sofrimento do povo negro. Houve até uma campanha controversa, ‘blackoutuesday’ que optou por postagens de telas pretas como forma de protesto contra a discriminação racial. O silêncio escolhido por alguns foi quebrado pelo movimento de artistas que ‘cederam’ seus perfis nas redes para ‘ocupações’ de intelectuais e ativistas do movimento negro. 

Jup do Bairro acha pouco. A cantora e ativista trans critica o movimento que parece restringir os protestos às redes sociais. “É preciso ir pra além das hashtags, é preciso de ações efetivas em combate ao racismo do que ceder suas redes. Você se sente bem informado ao ponto de perceber que seu público é quem precisa dessas informações? Informe você. O problema nunca foi o branco, do rico, do homem, mas de como exercem seus privilégios perante uma sociedade que segrega corpos”.

A cantora questiona ainda o fenômeno de espetacularização da morte e do luto de pessoas negras. O Atlas da Violência mostrou que o assassinato de pretos aumentou 11,5% em 10 anos em comparação com o de não negros, que recuou 12,4% no mesmo período. Com isso, os veículos de comunicação da imprensa hegemônica elegem os casos mais emblemáticos para serem debatidos por dois ou três dias e só. Vida que segue. E quanto ao luto invisibilizado e que não encontra espaço nas hashtags das redes sociais? Com a palavra Jup do Bairro.

Uma das reflexões que venho levantando com meu público é como a nossa luta ainda está atrelada ao nosso luto. Como a morte da nossa população chama mais atenção que o progresso da mesma. Um panorama atual que veio junto com essas manifestações foi a ação de artistas e influencers que cederam suas redes para pessoas pretas ocuparem falando sobre o racismo, isso me fez pensar no quão contraditório isso poderia ser. Se alguma pessoa racista te segue e veem uma pessoa preta falando sobre racismo, logo ignoram. Não seria mais afirmativo essas pessoas usarem de seus privilégios e acessos para estudarem e reproduzirem esses conteúdos para o seu público?

‘Criar novas estratégias de sermos as protagonistas’

‘Agora ‘cês não vão me esquecer, né?

Fui imortalizado com um mural na Paulista

‘Cês nunca colaram no meu show

Mas agora usam meu nome pa’ pedir por justiça!

Nunca nem me ouviram, mesmo que eu gritasse, mas agora que eu virei estatística

‘Cês vão usam meu nome e minha imagem

Pa’ pedir pelo fim da polícia e

Se eu morresse hoje, amanhã era notícia, mas quem eu era isso ia ser questionado

E quê que eu fiz pa’ tomar três tiro no peito?

Preto na rua de noite com certeza era algo errado!

Virei postagem na sua rede social

‘Cê lamentou e escreveu sobre a repressão policial

Sua hashtag foi o ponto final’

O trecho acima é dos mais impactantes de ‘Luta por Mim’ Mulambo, letrista e parceiro de Jup na faixa, segue a mesma linha provocativa da artista. “A letra foi escrita antes de tudo isso surgir, mas calhou de ser bem próximo do lançamento do EP. Parece que é uma música feita pro agora, ela é atual. Isso diz muito sobre a época que a gente vive, de que uma música escrita na década de 90 pelos Racionais ainda faz total sentido hoje. É de entristecer ver que as coisas não mudam. E o papel da arte, eu acredito que seja o de evidenciar: falar do que tá acontecendo, doa a quem doer. Dar a visão das pessoas que não têm voz. Dar voz a essas pessoas, porque geralmente quem não é escutado, é quem tem mais a dizer, né?”, conclui. 

Jup do Bairro e a pluralidade 

Jup do Bairro reflete seu tempo em todos os momentos. Em compasso com a realidade, ela não está em busca de heróis. Ao contrário, a cantora diz não aguentar mais assistir ao capitalismo se apropriar da figura de pessoas que não são mártires, mas vítimas da violência com motivações raciais. Caso, por exemplo, de Marielle Franco. 

Isso reflete em todas as plataformas principalmente em mídias sociais, marcas e empresas. Entre 2018 e 2019 inúmeras marcas investiram na morte de Marielle, desde lojas departamentos com o ‘Marielle Presente’ até mesmo em uma coleção do estilista Ronaldo Fraga com tiros e a imagem da vereadora sem autorização prévia da família. Esses corpos são ainda mais violentados pelo mercado, que medidas de reparação esses agentes estão tomando? Para onde vai esse dinheiro? Tudo isso me faz lembrar de Stela do Patrocínio, uma poeta brasileira que teve parte suas obras publicadas em 2001 (4 anos depois de seu falecimento) por Viviane Mosé, onde não existe uma publicação pública do que se fez com com o dinheiro adquirido, se foi pra família, onde está sua família, se estão cientes da obra… Esses heróis se tornam organismos públicos e muitas vezes esses organismos públicos se tornam alegorias, uma tendência, uma validação política, esvaziam a complexidade para transformá-los em produtos.

‘A representatividade é importante se o foco for a equidade’

Pensar como o corpo se coloca no mundo e os impactos do racismo na vida das pessoas são dois assuntos recorrentes em sua obra. Mas cuidado para não cair no lugar comum de resumir pessoas e artistas pretos ao que, com o perdão da repetição, seus corpos representam. Jup do Bairro é plural na mesma medida em que a sociedade deveria se assumir. 

“Minhas criações pautam a dores que o sistema causam sobre o meu corpo, mas não sou apenas as características do meu corpo. Além me reconhecer enquanto travesti, preta, gorda eu sou outras coisas também. Assisto filmes, leio sobre ficção científica, gosto de tecnologia, dou risada de piadas manjadas. Não preciso ser uma coisa ou outra, o corpo não precisa ser binário. Posso falar do ódio mas também quero falar sobre o amor, sobre como esse sentimento age em mim, como posso adequá-lo. Não quero falar apenas sobre essa dor, eu sou uma artista do presente. Quero e preciso falar sobre o que permeia minha cabeça nesse momento. Posso escrever sobre ‘a árvore no alto da montanha com um ninho de pássaros e o passarinho voa, voa, voa…’ mas não é sobre isso que estou pensando nesse momento, tenho outras urgências. As expectativas de representação são muito cansativas, é uma forma de esgotar nossas existências até o limite, quando deixarmos de ser interessantes…Próximo…”

‘Luta por Mim’ pode ser ouvido nas principais plataformas de streaming. Assista ao clipe abaixo: 

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Fotos: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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