Debate

‘Meu pai tem o cabelo bem pixaim’: diz Wassef, ex-advogado da família Bolsonaro, acusado de chamar mulher de ‘macaca’

por: Karol Gomes

O advogado Frederick Wassef, ex-defensor da família Bolsonaro, acusado de injúria racial por chamar uma funcionária de uma pizzaria de Brasília de ‘macaca’, diz que não é racista argumentando que já namorou uma negra, que o avô paterno era mulato, meio mulato, segundo ele. “Não sou racista, inclusive, meu pai mesmo tem o cabelo bem pixaim, encaracolado”, ele disse à coluna de Bela Megale, d’O Globo, insistindo na máxima furada de que somente uma família inteiramente caucasiana poderia ser racista. 

A queixa foi registrada por uma atendente de uma loja da rede Pizza  Hut, nesta quarta-feira (11). Boletim da Polícia Civil, porém, aponta que caso aconteceu na noite de domingo (8). A vítima, que não teve sua identidade divulgada, relatou que Wassef é um cliente frequente e que é conhecido por ofender os funcionários.

– Após pressão popular, Bolsonaro revoga decreto para privatização da atenção básica

 Segunda a funcionária, na hora de ir embora do local, Wassef reclamou da pizza que tinha comido e a agrediu, verbalmente. “Você é uma macaca! Você come o que te derem!”. O gerente da loja, que acompanhou a funcionária na delegacia, confirmou no seu depoimento ter ouvido o advogado chamá-la de ‘macaca‘, ressaltando saber de reclamações de outros funcionários sobre o cliente.

Frederick Wassef: ‘Não sou racista, inclusive, meu pai mesmo tem o cabelo bem pixaim’

– Maju Coutinho manda papo reto sobre racismo ao noticiar prisão equivocada no Jornal Hoje

A carta do ‘tenho amigos negros’

Já Wassef registrou, nesta quinta-feira (12), um boletim de ocorrência por denunciação caluniosa contra a trabalhadora. Segundo o advogado, a acusação é algo ‘arquitetado‘ contra ele por pessoas interessadas no dinheiro de uma futura ação indenizatória.

Ele afirma, em vídeo publicado em suas redes sociais, que a atendente foi orientada a registrar a ocorrência. “Foi a uma delegacia de polícia três dias após os fatos alegados por ela, acompanhada de advogado; um fotógrafo, que fotografou e divulgou o boletim de ocorrência vazado para a imprensa”, argumenta.

– Racismo algorítmico: o que é e quais são os impactos da discriminação racial na tecnologia

Wassef defende que tudo não passa de uma ‘farsa‘ planejada pelo gerente da loja, que já teria tentado prejudicá-lo em outras ocasiões. Diz que “estão mentindo e armando para destruir sua imagem e reputação, me incriminar”. Ele afirma ainda que jamais destratou qualquer pessoa. Não sou nem fui racista, tenho grandes amigos irmãos negros. Afirmar que sou racista é uma farsa, uma mentira, um crime de calúnia. Eu sou vítima de um crime, não o autor”.

“Em nenhum momento eu chamei a moça de macaca, nem chamei de negra. Importante dizer, ela não é negra”, afirmou o advogado. Ele questiona ainda por que o episódio não teria nenhum registro de foto ou vídeo, apesar de, obviamente, ninguém ter como prever que uma cena dessas vá acontecer.

– Luísa Sonza é processada por racismo por advogada negra e fala em ‘acusação falsa’

“Já o vi me filmando, porque me reconheceu como advogado de Bolsonaro. Pelas informações que apurei, ele não gosta do Bolsonaro, é antibolsonarista radical, sempre me destratou”, afirma Wassef. A atendente do Pizza Hut prestou depoimento durante a tarde desta quinta-feira (12) na 1ª DP (Asa Sul). Além dela, outras duas testemunhas também foram ouvidas pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).

O advogado do grupo Pizza Hut, Bernardo Fenelon, que acompanhou a vítima durante o depoimento, disse à coluna que, por respeito à autoridade policial, não irá comentar o caso.

– Juíza condena homem por ser negro e diz em sentença que crimes são ‘razão de sua raça’

De acordo com o delegado-chefe da unidade policial, Marcelo Portela, as investigações ainda estão no início e é preciso analisar com calma as versões. “A vítima basicamente reafirmou o que já tinha dito no BO e as testemunhas corroboram a versão”, conta.

Wassef não tem data para ser intimado a comparecer na delegacia. Todos os elementos precisam serão analisados antes que ele seja chamado.

Publicidade

Foto: Reprodução/Rede Globo


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Homem morto é coberto com plástico e padaria segue funcionando normalmente